Sometimes it lasts in love
But sometimes it hurts instead
(Someone Like You - Adele)
Estranho, e eu já deveria ter dito isso há tempos, eu, que tanto disse, por mais que não saísse de qualquer realidade, amar-te por tanto tempo, cujo ainda não teria chegado. E que - e nós mal sabíamos disso - nunca chegaria. Às vezes, ou melhor dizendo, centenas de vezes idealizei um amanhã próximo. Próximo tanto quanto eu era de você. Do que eu era para você. Quase nada. Triste, posso dizer também - e digo com lágrimas nos olhos e com o coração nas mãos, aquelas com que você costumava brincar -, o quão nada nós fomos juntos. Agradecer-te-ia se mais feliz fizeste de mim que solitária. Um tanto solitária. E não importava se estava ao meu lado, beijando-me a testa - cuja você nunca ousou encostar os lábios - ou se estava aí, como sempre esteve. Mesmo que quebrássemos a lei da física que diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, eu continuaria solitária. E penso, logo que deito a noite, naquela cama em que costumavamos passar horas e horas do nosso dia, o quão sozinha eu era. E penso, assim que acordo, livrei-me da solidão. E, diga-se de passagem, livrei-me de algo além da solidão. Dizem por aí que o amor vem devagarinho, empurrando tristezas e tomando o lugar da mágoa. Que ele chega de mansinho, te cerca de um lado, do outro, e quando você vê, é o prisioneiro mais querido dele. E então você se vê em uma daquelas prisões que permanecem com as grades abertas o tempo inteiro e, mesmo com tudo para fugir, você não foge. Você fica. Você permanece e vive esse sentimento como se não houvesse outro, como se fosse a primeira e última vez. Muitas vezes é a primeira, outras é a última, mas é sempre da mesma forma. É sempre amor, por mais diferente que ele seja, inúmeras itensidades, jeitos e cores, é sempre igual. Talvez tenha sido amor. Os lençóis amassados jogados ao chão, a caixa de pizza pela metade no sofá e uns recadinhos na mesa de centro devem ter significado algo. Tanto para mim como para você. Semanas atrás, diria que mais para mim. Acho que hoje, para ninguém mais. Sei lá se foi amor, afinal, chegou tão de súbito, tão desesperadamente-de-súbito. E foi assim, mais desesperadamente ainda. Estranho, retorno a dizer - agora com um certo sorriso nos lábios e com a cama arrumada -, o quão o amor é. Ele vem, vai, fica e certas vezes finge que vem, mas na verdade nunca nem ao menos existiu. Forte, fraco, pouco, muito ou nada. Tudo. Beijos, abraços, telefones desligados ou ocupados, cama desarrumada, pizza jogada, roupas pela casa, preocupações e até um certo sentimento - cujo ainda não descobri o nome e devo comunicar que não irei procurar por -, mas não amor. Foi tanto, nada, quase tudo. Foi. Conjugação do verbo ir, no passado. Se antes já não era amor, juro que não sei o que é agora. Talvez uma nova conjugação de um verbo ainda não descoberto. Um verbo diferente, com tudo que se tem direito, mas diferente de amar.