1 de dezembro de 2013

breu de mim

A luz se apaga e o que fica são apenas restos de certa lucidez. Os olhos demoram a se acostumar com tamanho breu, enquanto o coração fica aliviado de estar, enfim, em casa. Os braços tremem de frio e as pernas se encolhem. Os olhos, antes perdidos, agora veem um vulto ou outro de saudade vagando pela casa. E então, em um súbito ato de medo do contágio, vê-se correndo de vestígios de lembranças de um tempo que, em seu âmago, sabia que não voltaria. Seus olhos fecharam depressa, com pressa de eliminar qualquer possibilidade de um rosto surgir à sua frente. No entanto, quem já conseguiu dominar a mente? Fechá-la depressa, mesmo antes de um beija-flor bater suas asas, mesmo antes de qualquer memória vir à tona? Inútil a tentativa de abortar más lembranças e memórias inconsequentes. Inúteis são, pois, em toda a existência do ser humano, não há aquele que realmente viveu sem ter o coração dilacerado ou enterrado ainda vivo. Não há aquele em que não teve os olhos marejados por infelicidades ou infidelidades, seja quais forem. Em toda a existência, não houve sequer um coração intacto, sem dores. Por que, então, seria o dela impermeável? O dela - o coração - é, no mínimo e no limite que posso ousar entender, resto do que realmente fora, um dia. Quando o sol a encorajava a ver o mar e celebrar a vida. Quando a chuva era motivo de êxtase, não de tristeza. Quando os sorrisos faziam-se presentes e os abraços eram aconchego. Quando as noites davam a impressão, não de que um dia se fora, mas, sim, de que um outro estaria por vir. O coração dela era resto de tudo o que poderia continuar sendo - se não fosse o maldito amor -, mas não foi. Coração que, agora, vê-se mais à vontade no breu do teu âmago ao clarão de seus olhos.

Ps: Meu amor por este é tanto, que tive que repostar. 
Ele passou os olhos do jornal amassado nas mãos para a frente - quase que em uma tentativa de dispersão, cuja vira em seguida. Teus olhos desceram para o jornal, mas então se ergueram novamente, sendo os olhos castanhos de antes a primeira e singular coisa que vira. Aquelas falhas de percepção que sofremos, ao menos dez mil vezes por ano. Teus olhos focaram os dela, perdidos em um ponto qualquer do metrô. E, ainda bem, não era hora do rush. A moça pareceu acordar do devaneio, tendo teus olhos atraídos para o oceano dos dele. Ele pensou em sorrir, mas o que diabos ela pensaria? Ela pensou em gesticular com as sobrancelhas, mas quem o fazia? Ele a fitou enquanto ela fingia não vê-lo, mas o enxergava com clareza. Ele dobrou o jornal nas mãos; ela suspirou. Um senhor passou no caminho entre eles e, por um momento, perderam-se. Ela o encontrou procurando-a. Ele sorriu aliviado, mas então se levantou. Sua descida, seu ponto final, seu fim. Ele passou pela porta e suas costas foram a única e singular coisa que ela viu. Talvez devesse ter gesticulado com as sobrancelhas. Mas quem o fazia? Ela poderia tê-lo feito, ao menos o teria por mais um breve segundo antes de se perderem na eternidade.

23 de outubro de 2012

beijos safados

sem frases clichês
ou qualquer amor cortês
jogo-me em ti
arranco-lhe gemidos
dos mais baixos
e bonitos:
dos que me fazer sorrir
então arranca-me gritos
abafados por seus beijos
que, de tão molhados,
fazem-me pensar que beijos
também ficam excitados

autoresapecas

despeço-me dos autores
cujos sabores fizeram-me sorrir
despedaço-me em rumores
nos quais fizeram-me
enfim.
descobrir-me-ei no gosto
dos mesmos - autores -
cujas bocas pediram-me
fique e fim