17 de agosto de 2010

Don't forget to remember me,

And the love that used to be
I still remember you
I love you
In my heart lies a memory to tell the stars above
Don't forget to remember me my love
(Don't Forget To Remember Me - Bee Gees)
Ele foi a primeira coisa que ela viu. Tao lindo com seu cabelo baixo, seu sorriso reluzente e seus olhos castanhos, que baixou os olhos, sem querer querendo que ele também tivesse a visto. Deram-lhe um copo com vodca e gelo. Ela chupou o gelo ate que derretesse em sua boca. Odiava gelo. Observando os outros dançando, foi caminhando no ritmo do rock barulhento ao fundo, puxando uma cadeira para a janela. A noite clara la fora cobria uma rua qualquer de Copacabana, cidade maravilhosa, riu. Riu sozinha como sempre, como uma louca feliz. Ou infeliz. Discretamente infeliz. Encostou os lábios na vodca, tomando coragem para olhar para ele, um lindo rapaz de camisa branca, calca jeans desbotada e havaiana. Ela admirava o seu jeito de vestir, tão comum e tão.. diferente. Baixou novamente os olhos, embora fosse diferente também.
Pois bem, sábado e dessa vez, apenas dessa vez, não livros, nem tv, nem musica. Pelo menos, não as que costumava escutar. Pelo menos, não as melancólicas.
Levemente, sem chamar a atenção de ninguém, girou e apoiou os braços na janela e encostou seu queixo sobre eles. Para ajeitar o cabelo que havia caído em seu rosto, ergueu a cabeça, vendo assim, sem querer, o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal do Rio, mas havia estrelas. Muitas delas. Ela começou a contar, embora sem sucesso, as estrelas. Apenas por contar, por admirar, por tentar decifrar qual seria a conta matemática que descreveria quantas estrelas no imenso céu do Rio e do mundo. Apenas por imaginar, em cada estrela, um sonho realizado. O rapaz do jeans desbotado veio se aproximando, sem ser percebido, e parou ao seu lado. Vistos do lado de dentro, fácil de os imaginar pintados por Da Vinci. Vistos do lado de fora, sombras formadas pelo por-do-sol. O rock barulhento se acalmou, e a voz de Elton Jonh cantando I'm not one of those who can easily hide tomou conta dos ouvidos atentos. Ela fitava o outro lado da rua, seus olhos penetrantes, mas ainda sim pode sentir quando sua mão tocou-lhe o ombro. Seus olhos se encontraram.
- Gosta de estrelas?
- Gosto. Você gosta?
- Gosto. Esta vendo o que?
- A lua. Esta quase cheia.
- Amo todas as fases da lua. Porem, preciso confessar que a Lua Cheia sempre me fascinou.
- E a mim.
- Foi bom encontrar você.
- Também acho.
(Silencio)
- Você gosta da lua?
- Sim, na verdade, ela me inspira.
- Me conte mais.
- Sobre o que?
- Sobre o que te inspira.
- Você.
- Hein?
(Silencio)
- Você tem um cigarro?
- Parei de fumar.
- Eu também, quero ocupar minhas mãos.
- Suas mãos estão ocupadas.
- Estão?
- Vejo um coração ai. Ai.
- O que foi?
- Acho que perdi o meu.
(Silencio)
- Amanha volto pra casa.
- Pensei que morasse aqui.
- Na verdade, vim procurar por alguém, embora não tivesse certeza que ele quisesse me ver. Creio que agora sei.
- A verei de novo?
- Eu o verei, em meus sonhos.
- Eu a verei, em meus pensamentos. Na constelação em minha cabeça, a mais brilhante me lembrara você.
- Quando o sol estiver a pino, brilhando tanto, me lembrara você.
- Durma comigo.
- Não.
- Por que não?
- Porque não e preciso.
- Por que não e preciso?
(Silencio)
- Preciso ir, meu avião parte daqui a pouco.
- Então deixe-me lhe dizer, antes que o avião parta: Eu te amo.
- Eu te amo nao e o certo. Eu sempre vou te amar.
- Posso pedir algo?
- Diga.
- Beije-me.
- Beijo-te.
Foi a ultima pessoa que viu sair. Tao bonita que baixou os olhos, sem saber sabendo que ela tambem o viu. Desceu pelas escadas, a chave do carro na mao. Viveria mais tempos sem ve-la, talvez para sempre. Parou no bar, pediu um copo de vodca com gelo. Chupo o gelo. Odiava. Voltou ao carro, nao bebeu. Parou no sinal e baixou os olhos, a viu no copo. Molhou os labios e ela se foi. De novo. E ele permitiu que isso acontecesse, de novo. Desceu e encostou no poste da esquina de seu apartamento. Ela debrucou na janela do hotel, esperando que a hora passasse. Olhou as estrelas mais uma vez. De onde ela estava, nao dava para ver seus olhos. De onde ele estava, nao dava para ver seus olhos. E entao, ela sumiu, na mesma hora em que ele passou porta a dentro, sem olhar o ceu.

6 de agosto de 2010

Look at the stars,

Look how they shine for you, And everything you do, Yeah, they were all yellow. (Yellow - Coldplay)
Como devo começar minha historia? "Era uma vez"?
Não, muito comum.
"Em uma tarde..." Não, fora de cogitação.
Tudo bem, pensa, pensa, pensa.
Isso, vou começar...
Na Califórnia, havia um menino que, toda noite, logo que sua mãe dormia, saia de casa para deitar na areia e ver estrelas. Todas as noites ele passava horas e horas observando as lindas estrelas. E, quando ele chegava a casa, ele escrevia em seu caderninho tudo que vira. Quantas estrelas ele conseguiu contar, quais brilhavam mais e quais brilhavam menos, escrevia também os nomes que ele dava à elas, as formas que algumas estrelas juntas formavam, quantas formas conseguira ver. Seu caderno estava cheio de histórias sobre estrelas.
Em algumas delas ele era uma estrela, uma linda e brilhante estrela, e ele ficava bem no centro das outras, e era um pouco maior que elas. Em outras ele era um estrelinha que quase não brilhava, pequenininha bem no alto. Ah, tinha também uma historia em que ele conseguia contar todas as estrelas no céu, todas mesmo... Outra hisória que eu me lembro bem, é uma em que ele conseguiu pegar uma estrela e guardar em um pequeno pote de vidro com a tampa branca. A estrela brilhava todo tempo, jamais se apagava. Nem mesmo durante o dia. Ele lia sob sua luz, ele a admirava o tempo inteiro. Digo que foi uma das histórias que eu mais gostei, guardar o que é belo, pra ser eterno. Achei a essência nas palavras dele.
Mas, ah! Tem mais uma que eu me recordo, a história que, entre todas, é a que eu mais gosto.
"No frio inverno da Califórnia, um menino saiu de sua casa quente e aconchegante para ir observar estrelas na praia. Ele ficava deitado na areia, observando cada estrela, mesmo as menos brilhantes. Ele contava, admirava, nomeava quase todas elas. Neste dia, ele estava tão cansado que acabou adormecendo na areia. Ao acordar, mexeu-se para lá e para cá. Sentiu algo em sua perna e por pouco não a esmagou. Era linda, embora não tivesse brilho. Era perfeita. Era uma estrela. Mas uma estrela bem ali, perto dele? Ele a segurou com todo cuidado que pode, como se um movimento errado pudesse feri-la. 'Ela caiu', essa foi a conclusão que ele chegou. Mas como devolve-la ao céu? Como devolve-la para que ela continuasse brilhando lindamente no céu escuro? O pequeno menino pensou, pensou muito. Teve a idéia de jogá-la bem alto, mas tão alto que ela conseguira alcançar as outras. Então, ele voltou depressa para casa, antes que sua mãe notasse sua ausência. Guardou a estrela em um pote, e esperou o próximo anoitecer. Quando voltou a praia, colocou seu plano em pratica. Jogou a estrela o mais alto que pode, e nada. Jogou novamente, e nada. Então, ele começou a pensar. Olhou para o alto e viu como as estrelas brilhavam. Olhou sua pequena estrela dentro do pote, e não viu brilho. Ele achou estranho, pois se as estrelas brilhavam no céu, deveriam brilhar aqui na Terra também. Ele continuou pensando, tentando achar uma forma de devolver a estrelinha ao céu. Ele, sem querer, quase pisou em alguma coisa muito gelada. Olhou bem. Passou a mão e não era redondo, nem quadrado, nem de nenhuma forma geométrica. Segurou o objeto e retirou toda a areia, até que a luz fraca da lua pudesse fazer com que ele visse. E então, ele viu. Outra estrela havia caído. Será que o céu esta caindo? Ou o mundo acabando? E então, aconteceu. Quando lhou para a areia, tentando ver se havia outras estrelas, percebeu que havia inúmeras na areia. Havia estrelas de vários tons de laranja e de marrom. Nenhuma delas brilhava. Nunca. Ele encarou o mar a sua frente. As ondas iam e voltavam, como uma música infinita. Nesse momento, ele decidiu não mais devolve-las ao céu. O pequeno menino, que todas as noites saía de casa para observar estrelas, teve uma ideia. Ele pegou o maior número de estrelas que cabia em suas mãos e as jogou, uma de cada vez, no mar. Para que, no horizonte, onde o céu e o mar se encontravam, as estrelas pudessem voltar ao céu, se quisessem, mas se tinham caído de propósito, permaneceriam no mar. Então, ele terminou seu trabalho árduo quase no mesmo instante que o sol resolvera aparecer. Voltou pra casa, com seu pequeno pote vazio. Depositou-o em sua mesinha de cabeceira e adormeceu. Na outra noite, quando ele voltou à praia para observar as estrelas, a areia estava sem nenhuma estrela. Então, ele sorriu e as procurou no céu. O céu parecia o mesmo da noite anterior. Com as mesmas estrelas. Não havia nenhuma novidade. As que ele jogara, então, não foram para o céu. Ele sentou-se confuso. Olhou o mar. Ele não brilhava como o céu, exceto pelo reflexo. Então, resolveu chamar aquelas estrelas de estrelas do mar. Porque elas não cabiam no céu, ou o céu não cabia nelas. Elas pertenciam ao mar. Não eram feitas para serem admiradas, mas para admirar."
Talvez ele não saiba até hoje que, o que ele fez por aquelas estrelas, foi salvar a vida delas. Devolve-las ao lugar delas. Um lugar que, sozinhas, elas nunca encontrariam.
Essa foi a única historia que o menino escreveu e que não havia sido inventada. Essa é a minha história favorita. Que um dia, eu hei de sentar na varanda do meu sítio, e contar aos meus três netinhos. Que o bisavô deles, meu pai, o menino que ia à praia admirar estrelas, era apaixonado pelo espetáculo que a noite nos proporciona todos os dias. E que ignoramos. Mas ele não admirava pela beleza, mas porque era às estrelas que ele pertencia. E hoje, tenho toda certeza, que ele está lá. Brilhando. Muito mais fácil e belo do que existindo. coautoria: Aline Azevedo