And the love that used to be
I still remember you
I love you
In my heart lies a memory to tell the stars above
Don't forget to remember me my love
(Don't Forget To Remember Me - Bee Gees)
Ele foi a primeira coisa que ela viu. Tao lindo com seu cabelo baixo, seu sorriso reluzente e seus olhos castanhos, que baixou os olhos, sem querer querendo que ele também tivesse a visto. Deram-lhe um copo com vodca e gelo. Ela chupou o gelo ate que derretesse em sua boca. Odiava gelo. Observando os outros dançando, foi caminhando no ritmo do rock barulhento ao fundo, puxando uma cadeira para a janela. A noite clara la fora cobria uma rua qualquer de Copacabana, cidade maravilhosa, riu. Riu sozinha como sempre, como uma louca feliz. Ou infeliz. Discretamente infeliz. Encostou os lábios na vodca, tomando coragem para olhar para ele, um lindo rapaz de camisa branca, calca jeans desbotada e havaiana. Ela admirava o seu jeito de vestir, tão comum e tão.. diferente. Baixou novamente os olhos, embora fosse diferente também.
Pois bem, sábado e dessa vez, apenas dessa vez, não há livros, nem tv, nem musica. Pelo menos, não as que costumava escutar. Pelo menos, não as melancólicas.
Levemente, sem chamar a atenção de ninguém, girou e apoiou os braços na janela e encostou seu queixo sobre eles. Para ajeitar o cabelo que havia caído em seu rosto, ergueu a cabeça, vendo assim, sem querer, o céu. Um céu tão claro que não era o céu normal do Rio, mas havia estrelas. Muitas delas. Ela começou a contar, embora sem sucesso, as estrelas. Apenas por contar, por admirar, por tentar decifrar qual seria a conta matemática que descreveria quantas estrelas há no imenso céu do Rio e do mundo. Apenas por imaginar, em cada estrela, um sonho realizado. O rapaz do jeans desbotado veio se aproximando, sem ser percebido, e parou ao seu lado. Vistos do lado de dentro, fácil de os imaginar pintados por Da Vinci. Vistos do lado de fora, sombras formadas pelo por-do-sol. O rock barulhento se acalmou, e a voz de Elton Jonh cantando I'm not one of those who can easily hide tomou conta dos ouvidos atentos. Ela fitava o outro lado da rua, seus olhos penetrantes, mas ainda sim pode sentir quando sua mão tocou-lhe o ombro. Seus olhos se encontraram.
- Gosta de estrelas?
- Gosto. Você gosta?
- Gosto. Esta vendo o que?
- A lua. Esta quase cheia.
- Amo todas as fases da lua. Porem, preciso confessar que a Lua Cheia sempre me fascinou.
- E a mim.
- Foi bom encontrar você.
- Também acho.
(Silencio)
- Você gosta da lua?
- Sim, na verdade, ela me inspira.
- Me conte mais.
- Sobre o que?
- Sobre o que te inspira.
- Você.
- Hein?
(Silencio)
- Você tem um cigarro?
- Parei de fumar.
- Eu também, só quero ocupar minhas mãos.
- Suas mãos estão ocupadas.
- Estão?
- Vejo um coração ai. Ai.
- O que foi?
- Acho que perdi o meu.
(Silencio)
- Amanha volto pra casa.
- Pensei que morasse aqui.
- Na verdade, vim procurar por alguém, embora não tivesse certeza que ele quisesse me ver. Creio que agora sei.
- A verei de novo?
- Eu o verei, em meus sonhos.
- Eu a verei, em meus pensamentos. Na constelação em minha cabeça, a mais brilhante me lembrara você.
- Quando o sol estiver a pino, brilhando tanto, me lembrara você.
- Durma comigo.
- Não.
- Por que não?
- Porque não e preciso.
- Por que não e preciso?
(Silencio)
- Preciso ir, meu avião parte daqui a pouco.
- Então deixe-me lhe dizer, antes que o avião parta: Eu te amo.
- Eu te amo nao e o certo. Eu sempre vou te amar.
- Posso pedir algo?
- Diga.
- Beije-me.
- Beijo-te.
Foi a ultima pessoa que viu sair. Tao bonita que baixou os olhos, sem saber sabendo que ela tambem o viu. Desceu pelas escadas, a chave do carro na mao. Viveria mais tempos sem ve-la, talvez para sempre. Parou no bar, pediu um copo de vodca com gelo. Chupo o gelo. Odiava. Voltou ao carro, nao bebeu. Parou no sinal e baixou os olhos, a viu no copo. Molhou os labios e ela se foi. De novo. E ele permitiu que isso acontecesse, de novo. Desceu e encostou no poste da esquina de seu apartamento. Ela debrucou na janela do hotel, esperando que a hora passasse. Olhou as estrelas mais uma vez. De onde ela estava, nao dava para ver seus olhos. De onde ele estava, nao dava para ver seus olhos. E entao, ela sumiu, na mesma hora em que ele passou porta a dentro, sem olhar o ceu.