Isolar-se-á já que nada mais sentido faz. Já que nada mais gosto tem. Ou cheiro, ou toque. Ou qualquer outra coisa que o faça sentir a dor daqueles tempos. Daqueles tempos de breu infinito dentro de si e fora o sol radiante como se sorrisse com tudo. Com a dor e a incerteza. Com a sua dor e sua incerteza de que - quem sabe um dia, em outra época - ficaria bem. Se ficaria bem. Bem é um tanto relativo. O que pra ele é bem, pra ela é normal. O que pra ela é bem, nele machuca. Machuca como espinhos em todo o corpo, como alguém algo cinco vezes maior que seu peso. Machuca, ele dizia, como se tentasse mostrar para si mesmo que machucava, já que já não sentia mais nada.
Isolar-se-á de tudo o que o cerca e que o detona. A cada sorriso, a cada "bom dia", a cada "oi" se quer que ganhe o detona aos pouquinhos. Como se a cada dia que amanhecesse, arrancassem de si um pedaço - com o pedaço mais importante arrancado com tamanha brutalidade e rapidez que o fez não mais sentir qualquer outra coisa. Não espera que ninguém entenda, ninguém nunca o compreendeu como a solidão. Eram todos humanos. Meros humanos com medo de tanta coisa que o fazia sentir o mais humano dos humanos, simplesmente por ter medo das coisas mais banais.
Isolar-se-á dessas coisas que o deixam amedrontado. Banais, repetiu, todas banalidades. Para eles, para si era tanto. Tao grande, tão enorme, tão. E pensava, adiantaria? De algum modo, talvez, tornaria-se algo tão longe da realidade, algo tão complexo - mais ainda - e tão primitivo. Feito aqueles gorilas. Tao antigo, tão sozinho. Deus, chamou. Sim, Deus. E por que não? Queria uma solução, dessas que você sabe o que vai fazer ate daqui a alguns anos. Como vai ser, Deus, vou conseguir? E Deus permaneceu em seu silencio constante. Esse silencio o fazia sorrir. Mas não dessa vez. Já nem sabia o que era sorrir - algum dia soube?
Isolar-se-á de um mundo que o deixa tonto. Aquelas tonteiras que você pensa estar caindo de um abismo. Daqueles abismos infinitos que ate o deixa leve, daquele jeito que não faz querer nada alem que isso. Cair. Mais que já estava era impossível. Sentia-se estirado no limbo. Agora sabia como era isso de resto. Porque era isso que havia sendo sempre: resto. Só não sabia o nome, nem o gosto, nem o cheiro. Nem nada. Sabia que era, só não sabia como. Ou sabia. Aquele fim dos tempos, fim dos sentimentos, sejam eles quais forem.
Isolar-se-á de quem o fez pensar assim. Errou, sabia disso, errou muito. Não sabia nem se merecia perdão. Mas havia um sentimento nele tão puro e verdadeiro. Tão nobre. Sentimento que fazia seus erros morrerem. Havia algo nele que era real. Não que ele não fosse, mas era real, sabe? Ninguém nunca o enxergou como ela, nunca viu seus olhos brilhando como ela havia visto. Ninguém nunca sentiu uma ausência de som dele como ela sentia. Ninguém. Nunca. Ela. Ele. Ninguém nunca sentiu esse sentimento por ela como ele. No entanto, encontrava isolado nesse isolamento constante que era sua mente. De nada adiantou o medo de perder, a luta por querer, o querer por amar. De nada adiantou amar, se não quis sentir o amor.