28 de março de 2011

Isolar-se-á

Isolar-se-á já que nada mais sentido faz. Já que nada mais gosto tem. Ou cheiro, ou toque. Ou qualquer outra coisa que o faça sentir a dor daqueles tempos. Daqueles tempos de breu infinito dentro de si e fora o sol radiante como se sorrisse com tudo. Com a dor e a incerteza. Com a sua dor e sua incerteza de que - quem sabe um dia, em outra época - ficaria bem. Se ficaria bem. Bem é um tanto relativo. O que pra ele é bem, pra ela é normal. O que pra ela é bem, nele machuca. Machuca como espinhos em todo o corpo, como alguém algo cinco vezes maior que seu peso. Machuca, ele dizia, como se tentasse mostrar para si mesmo que machucava, já que já não sentia mais nada.
Isolar-se-á de tudo o que o cerca e que o detona. A cada sorriso, a cada "bom dia", a cada "oi" se quer que ganhe o detona aos pouquinhos. Como se a cada dia que amanhecesse, arrancassem de si um pedaço - com o pedaço mais importante arrancado com tamanha brutalidade e rapidez que o fez não mais sentir qualquer outra coisa. Não espera que ninguém entenda, ninguém nunca o compreendeu como a solidão. Eram todos humanos. Meros humanos com medo de tanta coisa que o fazia sentir o mais humano dos humanos, simplesmente por ter medo das coisas mais banais.
Isolar-se-á dessas coisas que o deixam amedrontado. Banais, repetiu, todas banalidades. Para eles, para si era tanto. Tao grande, tão enorme, tão. E pensava, adiantaria? De algum modo, talvez, tornaria-se algo tão longe da realidade, algo tão complexo - mais ainda - e tão primitivo. Feito aqueles gorilas. Tao antigo, tão sozinho. Deus, chamou. Sim, Deus. E por que não? Queria uma solução, dessas que você sabe o que vai fazer ate daqui a alguns anos. Como vai ser, Deus, vou conseguir? E Deus permaneceu em seu silencio constante. Esse silencio o fazia sorrir. Mas não dessa vez. Já nem sabia o que era sorrir - algum dia soube?
Isolar-se-á de um mundo que o deixa tonto. Aquelas tonteiras que você pensa estar caindo de um abismo. Daqueles abismos infinitos que ate o deixa leve, daquele jeito que não faz querer nada alem que isso. Cair. Mais que já estava era impossível. Sentia-se estirado no limbo. Agora sabia como era isso de resto. Porque era isso que havia sendo sempre: resto. Só não sabia o nome, nem o gosto, nem o cheiro. Nem nada. Sabia que era, só não sabia como. Ou sabia. Aquele fim dos tempos, fim dos sentimentos, sejam eles quais forem.
Isolar-se-á de quem o fez pensar assim. Errou, sabia disso, errou muito. Não sabia nem se merecia perdão. Mas havia um sentimento nele tão puro e verdadeiro. Tão nobre. Sentimento que fazia seus erros morrerem. Havia algo nele que era real. Não que ele não fosse, mas era real, sabe? Ninguém nunca o enxergou como ela, nunca viu seus olhos brilhando como ela havia visto. Ninguém nunca sentiu uma ausência de som dele como ela sentia. Ninguém. Nunca. Ela. Ele. Ninguém nunca sentiu esse sentimento por ela como ele. No entanto, encontrava isolado nesse isolamento constante que era sua mente. De nada adiantou o medo de perder, a luta por querer, o querer por amar. De nada adiantou amar, se não quis sentir o amor.

26 de março de 2011

E se fosse um sonho?

No entanto, era assim que se via. Com as mãos no bolso do casaco negro, escorada na porta, como se fosse cair a qualquer momento. Observando aquele céu cinza triste que tanto a encantava. Nem um pontinho azul. Ela gostava. E precisava viver assim, mesmo gostando desse céu triste, precisava se conformar a observa-lo todos os dias. Porque mesmo o idolatrando, um céu azul fazia falta. E agora faria ainda mais. Precisava conviver com o risco de. Não de nunca mais haver um céu azul, porque ela sabia que um diria ele viria. Mas com o de seus olhos nunca mais o enxergarem - e queria? Refiria-se a ele como você-sabe-quem, com receio de seus olhos inundarem. Refiria-se a tudo-dessa-forma-estranha-de-escrever. Não sabia por que, apenas o fazia. Como se para mentir pra si mesmo, ou sei la. E a cada manha ampliava-se na boca aquele gosto de nostalgia - ou seria de vodka? Acendeu um cigarro, desses que você fuma o dobro pra evitar qualquer tipo de lembrança, ou qualquer tipo de dialogo que pudesse começar a formar, e criar esperanças, e lágrimas, e saudade, e tanta coisa. Ocupou a boca como se ocupasse a mente e o coração. Como se fosse mesmo possível. Mas acreditava que fosse, precisava acreditar. É fácil viver com os olhos fechados, quando não se tem muita coisa a perder no mundo real. E mesmo que tivesse, ainda seria fácil. Porque, afinal, pra que esse mundo real-estranho-real se não pode entende-lo? Real é uma coisa tão chata. Tão de verdade que chega a doer. E dói mesmo. Por isso torna-se tão fácil fechar os olhos. Veja: nenhuma dor, nenhuma doença crônica ou um simples coração quebrado mesmo. Nos impedem tanto de fechar os olhos que começo a achar crime, ou qualquer outra coisa muito proibida. Nunca fui de seguir regras mesmo, mas ninguém vai me dizer o que fazer ou se posso ou não fechar meus olhos e tentar esquecer pessoas fúteis como estas. Estava ali e era assim que se via: sem ter muito o que pensar. Ou o que dizer ou fazer. Mas pensava when? Porque uma coisa dessas não acontece assim, num tintilar de sinos. E não sabia a resposta. Por que as respostas nunca vinham embutidas nas perguntas? Viu. Seria tão mais fácil e evitaria tantas duvidas de pessoas como ela. Como eu. Seria também menos doloroso esperar por uma. Porque, esperando por uma, viria com a espera o 'e se'. E esse dói mais do que a verdade propriamente dita. Essas que doem muito, que machuca a alma, mas que um dia a gente se acostuma. Mas esse não, esse dói. Dor constante, e mesmo depois da verdade, ele permanece. Por que e se fosse diferente? Esta ficando cada vez mais difícil ser alguém que viva tão acompanhado disso. E se. E se eu não tivesse cedido a aquele pedido? E se eu fosse menos criança naquela época? E se eu não tivesse mais coração ao escutar aquela voz? Por que diabos não tenho respostas para tantos 'e se's? Mas e se eu tivesse? - talvez continuasse a mesma coisa. O mesmo querer de sempre. Perguntou ao doutor o que era aquilo. Mas respondeu por si mesmo. "Câncer, mas daqueles que dão na alma, sabe? Não? Mas é porque esse tipo não tem jeito mesmo. Não, doutor, não vou morrer, não. Coisa pior. A alma, sabe? Ela vai entristecendo aos poucos, se desfazendo. Até uma hora sobrar apenas isso aqui.". E apertou-se com tanta forca, como se fosse pra provar a si mesmo que ainda estava ali. "Viu? Só isso, doutor. Mas lhe pergunto, pra que isso? Não quero isso. Quero não.
Pega pra você, doutor, tem gente que precisa."