No entanto, era assim que se via. Com as mãos no bolso do casaco negro, escorada na porta, como se fosse cair a qualquer momento. Observando aquele céu cinza triste que tanto a encantava. Nem um pontinho azul. Ela gostava. E precisava viver assim, mesmo gostando desse céu triste, precisava se conformar a observa-lo todos os dias. Porque mesmo o idolatrando, um céu azul fazia falta. E agora faria ainda mais. Precisava conviver com o risco de. Não de nunca mais haver um céu azul, porque ela sabia que um diria ele viria. Mas com o de seus olhos nunca mais o enxergarem - e queria? Refiria-se a ele como você-sabe-quem, com receio de seus olhos inundarem. Refiria-se a tudo-dessa-forma-estranha-de-escrever. Não sabia por que, apenas o fazia. Como se para mentir pra si mesmo, ou sei la. E a cada manha ampliava-se na boca aquele gosto de nostalgia - ou seria de vodka? Acendeu um cigarro, desses que você fuma o dobro pra evitar qualquer tipo de lembrança, ou qualquer tipo de dialogo que pudesse começar a formar, e criar esperanças, e lágrimas, e saudade, e tanta coisa. Ocupou a boca como se ocupasse a mente e o coração. Como se fosse mesmo possível. Mas acreditava que fosse, precisava acreditar. É fácil viver com os olhos fechados, quando não se tem muita coisa a perder no mundo real. E mesmo que tivesse, ainda seria fácil. Porque, afinal, pra que esse mundo real-estranho-real se não pode entende-lo? Real é uma coisa tão chata. Tão de verdade que chega a doer. E dói mesmo. Por isso torna-se tão fácil fechar os olhos. Veja: nenhuma dor, nenhuma doença crônica ou um simples coração quebrado mesmo. Nos impedem tanto de fechar os olhos que começo a achar crime, ou qualquer outra coisa muito proibida. Nunca fui de seguir regras mesmo, mas ninguém vai me dizer o que fazer ou se posso ou não fechar meus olhos e tentar esquecer pessoas fúteis como estas. Estava ali e era assim que se via: sem ter muito o que pensar. Ou o que dizer ou fazer. Mas pensava when? Porque uma coisa dessas não acontece assim, num tintilar de sinos. E não sabia a resposta. Por que as respostas nunca vinham embutidas nas perguntas? Viu. Seria tão mais fácil e evitaria tantas duvidas de pessoas como ela. Como eu. Seria também menos doloroso esperar por uma. Porque, esperando por uma, viria com a espera o 'e se'. E esse dói mais do que a verdade propriamente dita. Essas que doem muito, que machuca a alma, mas que um dia a gente se acostuma. Mas esse não, esse dói. Dor constante, e mesmo depois da verdade, ele permanece. Por que e se fosse diferente? Esta ficando cada vez mais difícil ser alguém que viva tão acompanhado disso. E se. E se eu não tivesse cedido a aquele pedido? E se eu fosse menos criança naquela época? E se eu não tivesse mais coração ao escutar aquela voz? Por que diabos não tenho respostas para tantos 'e se's? Mas e se eu tivesse? - talvez continuasse a mesma coisa. O mesmo querer de sempre. Perguntou ao doutor o que era aquilo. Mas respondeu por si mesmo. "Câncer, mas daqueles que dão na alma, sabe? Não? Mas é porque esse tipo não tem jeito mesmo. Não, doutor, não vou morrer, não. Coisa pior. A alma, sabe? Ela vai entristecendo aos poucos, se desfazendo. Até uma hora sobrar apenas isso aqui.". E apertou-se com tanta forca, como se fosse pra provar a si mesmo que ainda estava ali. "Viu? Só isso, doutor. Mas lhe pergunto, pra que isso? Não quero isso. Quero não.
Pega pra você, doutor, tem gente que precisa."