eu diria o quanto você é bonito enquanto ia embora.
- Veja, deixe-me dizer algumas das porções de coisas que eu tenho pra lhe falar, antes que o trem parta. Dessas coisas tão difíceis de serem ditas, que não são ditas assim, costumeiramente. Simplesmente porque são coisas do tipo que nunca se sabe como serão interpretadas, sabe? Dessas coisas que secam a garganta, que soam as mãos e tremem as pernas. Dessas coisas infinitas, bonitas. Tudo começou de repente, anjo, de uma forma tão estranha. Evitei tanto que achei ate errado de minha parte. E depois quis, ainda mais que você - e não adianta me interromper com esses teus dedinhos pequenos - viver essa historia. E assim foram se passando os dias, com sentimentos pra la e pra cá, daqueles que custam a passar. Daqueles sentimentos de verdade, puros, que nos fazem sorrir com o vento. Daqueles que nos intimidam, que nos arrepiam e nos fazem chorar. Falta pouco tempo, e se eu não lhe disser agora, não sei quando vou. Ou se vou. Tanto eu como você sentiremos falta de tudo aquilo que compartilhamos. Dos sorrisos, das palavras, das brigas, lágrimas. Dos momentos em si que vivemos um com o outro. Juntos, amarrados, colados, inseparáveis nos. Porque momentos como estes não serão extintos assim, a qualquer hora, de nossos corações. Simplesmente porque momentos assim não se deixam perder. Não se deixam esquecer. Lembra daquelas semanas que ficamos tão distantes, mais ate do que de costume, e que você voltou correndo pra mim, desesperado por um colo? Eu sei, eu sei, já esta na sua hora. Mas veja, ainda tenho três minutos. Eu queria dizer-lhe tantas coisas, de tantos dias, tantas noites, tantas e quase todas as manhas que passamos lado a lado. Corpo a corpo. Íris nas íris. Eu queria entender porque deixaste tudo pra traz. Entendo que e o seu sonho, nunca quis que desistisse deles. Quis apenas realiza-los com você. Não, não quero lembranças quando voltar - ira voltar? Volte, ainda que tarde, volte. E pare de olhar esse relógio já! Eu queria dizer muitas coisas, muitas mesmo, você deve imaginar a quantidade de coisas que queria dizer, mas meu corpo não deixa. No entanto, digo-lhe o essencial. O primordial. Não esqueças daqueles tempos a dois que vivemos intensamente. Daqueles lençóis amarrotados, travesseiros ao chão e dois corpos sobre a cama. Jogados de uma maneira desconfortavelmente confortável. Não esqueças das nossas promessas. Quem jura, mente! Nunca esquecerei-me disto, prometo. Então, a partir disso, prometo, não juro, prometo, nunca deixarei que outra habite nosso quarto, senão você. E teus armários permanecerão assim, vazios, do mesmo modo como deixara. Ainda falta um minuto, não me apresse, por favor. Mas olhe, seria bom se você colocasse um casaco, e frio no meio do nada. E frio sem meu corpo no teu. Tudo bem, desculpe-me, vou me comportar. Eu queria poder dizer-lhe que tudo ficaria bem. Quero dizer, tudo ficara. Apenas sentirei saudades. Saudades daqueles tempos só nosso, vividos a dois de uma tal forma encantadora. Tudo bem, pode subir, vou terminando de falar pela janela mesmo. Sentou? Ótimo lugar e, ah, essa criança deve dormir durante o caminho, não se preocupe. Ouça, o trem já esta partindo, e eu ainda não disse nem metade do que pretendia. Mas olhe, bom, escute bem, ok? Preste atenção. Não se perca de mim. Tudo bem, eu lhe escrevo. Não, não escrevo, não. Vai machucar mais meu coração. Ei, ei, espere! Eu amo você. Eu-amo-você. Eu-amo. Eu.