25 de abril de 2011

Se eu tivesse olhos atras da cabeça,

eu diria o quanto você é bonito enquanto ia embora. 

- Veja, deixe-me dizer algumas das porções de coisas que eu tenho pra lhe falar, antes que o trem parta. Dessas coisas tão difíceis de serem ditas, que não são ditas assim, costumeiramente. Simplesmente porque são coisas do tipo que nunca se sabe como serão interpretadas, sabe? Dessas coisas que secam a garganta, que soam as mãos e tremem as pernas. Dessas coisas infinitas, bonitas. Tudo começou de repente, anjo, de uma forma tão estranha. Evitei tanto que achei ate errado de minha parte. E depois quis, ainda mais que você - e não adianta me interromper com esses teus dedinhos pequenos - viver essa historia. E assim foram se passando os dias, com sentimentos pra la e pra cá, daqueles que custam a passar. Daqueles sentimentos de verdade, puros, que nos fazem sorrir com o vento. Daqueles que nos intimidam, que nos arrepiam e nos fazem chorar. Falta pouco tempo, e se eu não lhe disser agora, não sei quando vou. Ou se vou. Tanto eu como você sentiremos falta de tudo aquilo que compartilhamos. Dos sorrisos, das palavras, das brigas, lágrimas. Dos momentos em si que vivemos um com o outro. Juntos, amarrados, colados, inseparáveis nos. Porque momentos como estes não serão extintos assim, a qualquer hora, de nossos corações. Simplesmente porque momentos assim não se deixam perder. Não se deixam esquecer. Lembra daquelas semanas que ficamos tão distantes, mais ate do que de costume, e que você voltou correndo pra mim, desesperado por um colo? Eu sei, eu sei, já esta na sua hora. Mas veja, ainda tenho três minutos. Eu queria dizer-lhe tantas coisas, de tantos dias, tantas noites, tantas e quase todas as manhas que passamos lado a lado. Corpo a corpo. Íris nas íris. Eu queria entender porque deixaste tudo pra traz. Entendo que e o seu sonho, nunca quis que desistisse deles. Quis apenas realiza-los com você. Não, não quero lembranças quando voltar - ira voltar? Volte, ainda que tarde, volte. E pare de olhar esse relógio já! Eu queria dizer muitas coisas, muitas mesmo, você deve imaginar a quantidade de coisas que queria dizer, mas meu corpo não deixa. No entanto, digo-lhe o essencial. O primordial. Não esqueças daqueles tempos a dois que vivemos intensamente. Daqueles lençóis amarrotados, travesseiros ao chão e dois corpos sobre a cama. Jogados de uma maneira desconfortavelmente confortável. Não esqueças das nossas promessas. Quem jura, mente! Nunca esquecerei-me disto, prometo. Então, a partir disso, prometo, não juro, prometo, nunca deixarei que outra habite nosso quarto, senão você. E teus armários permanecerão assim, vazios, do mesmo modo como deixara. Ainda falta um minuto, não me apresse, por favor. Mas olhe, seria bom se você colocasse um casaco, e frio no meio do nada. E frio sem meu corpo no teu. Tudo bem, desculpe-me, vou me comportar. Eu queria poder dizer-lhe que tudo ficaria bem. Quero dizer, tudo ficara. Apenas sentirei saudades. Saudades daqueles tempos só nosso, vividos a dois de uma tal forma encantadora. Tudo bem, pode subir, vou terminando de falar pela janela mesmo. Sentou? Ótimo lugar e, ah, essa criança deve dormir durante o caminho, não se preocupe. Ouça, o trem já esta partindo, e eu ainda não disse nem metade do que pretendia. Mas olhe, bom, escute bem, ok? Preste atenção. Não se perca de mim. Tudo bem, eu lhe escrevo. Não, não escrevo, não. Vai machucar mais meu coração. Ei, ei, espere! Eu amo você. Eu-amo-você. Eu-amo. Eu.

14 de abril de 2011

No-happy ending.

                   Tenho estado muito ocupada juntando pedaços de mim que caíram sob terra quando declarastes o fim. Daqueles fins assim, tão doces que fazia-me querer um não tão doce. Amargo, talvez fosse a palavra certa. Daqueles que choras por doer no coração, mas que depois de umas quatro ou cinco doses de vodka passa. Porque tudo passa. Mas esse doce-final-triste corrói por dentro, e depois de meses continua nos despedaçando lentamente. Prefiro viver com palavras cortantes na cabeça, a viver com doces frases sobre um adeus que não queria ter dado.
                   E aquele sorriso fraco, de lado, mas que ainda faziam meus olhos brilharem. Daqueles brilhos que iluminam a alma, sabe? Aquela alma que nem mais alma é, só tem corpo, espírito - o que é? Daqueles fins de amigos, não-quero-machucar-te-mais. Daqueles fins assim, que nos fazem querer dormir e acordar quando tudo tiver mesmo um fim. Daqueles fins definitivos, que doem, que mostram pra alma que acabou, que é preciso continuar vivendo. Aqueles fins de verdade, com adeus e lágrimas, ou um "a gente se vê por ai", mesmo sabendo que nunca nos veremos outra vez. 
                   Precisamos mais destes fins. Fins doces não são fins. Fim é uma coisa pra doer, pra marcar na alma e pra passar depois de algumas noites afogada em lágrimas e copos de vodka, e engasgada com comprimidos pra dormir. Esses fins doem constantemente, e não há vodka que o faca passar. Esses fins de namorados doces, bem assim como você, esses doem tanto, anjo. Dói por não saber o que fazer, como agir ou o que falar. Dói quando o encontro na rua, dois sorrisos e um aceno. Que tipo de fim é o nosso? Daqueles fins que doem pra sempre. Um pra sempre tão longo que, puxa, parece que não vai haver fim. E talvez dessa vez não haja mesmo. 
                   Eu sentia profunda falta dos fins que machucaram e passaram, assim, num bater de asas de um beija-flor. Porque, afinal, doeram, porém passaram. Esse fim que fica, que demora, assim como a terra demora pra girar em torno de si mesma. Trezentos e sei la quantos dias e uns quebradinhos de horas. Só que multiplicado por mil. Faz a conta ai, é tanto tempo que eu poderia salvar o mundo desse caos todo. Mas nem a maior ocupação do mundo faria deixar de doer essa constante lembrança do adeus que você deu. 
                   Já tentei por vezes esquecer, mas quanto mais eu tento, fica tão mais nítido. Aquele fim assim, tão de súbito como foi, como aqueles fins de verão, que você nunca quer que acabe. Ou como eu prefiro, os fins de inverno. Daqueles invernos gélidos e cinzas, tais como Londres. Ah, Londres, traga-me um pouco dessa sua melancolia, desse seu ar feliz-barra-melancólico, desse seu céu cor de adeus. Das suas árvores cor de esperança e seus fins de tarde cor de saudade. 
                   Ah, Londres, quisera eu ter tudo isso. Um dia chuvoso, cinza, uma pitada de esperanças e fins de tardes. Uma mistura de cores que até me faria sorrir. Na verdade, acho que o fim é meio isso, uma mistura de cores confusas que doem, não importa se for doce ou amargo, sempre dói. Aqueles fins que são pra sempre, todos eles.