Isso, ou melhor, tudo começa com uma ou qualquer coisa. As vezes um sorriso, outras um abraço. Certas vezes um riso, outras um amasso. Um beijo, um olhar. Outras com um cheiro, um sussurrar. De coisas infinitas à limitadas. De limitadas a tudo-o-que-eu-sempre-quis. Dessas coisas que eu sempre almejei, acabar tendo nada. Ou duas mãos vazias por tanto querer e nada ter, nunca. E pensar, questionar, sinto que algumas vezes nem a mim mesmo eu tenho. E penso, outra vez - adoro pensar, imaginar, questionar, lembrar, seja lá o que for que mantenha-me longe da realidade, mais perto de você - há alguma coisa esperando-me do outro lado da porta? Um vai-ficar-tudo-bem. Ou até mesmo um está-na-hora-de-desistir. Eu desistiria, se fosse realmente pra desistir. Porém creio que não seja, não sinto como se fosse. Sinto que queres tanto quanto eu. Tanto quando nós. Eu e ele. Sei que tu gostas disso que chamam de amor. A vista deve ser linda daí de cima, não é? Imagino como seria ver tudo daí, os casais à beira do mar à meia noite; as estrelas-do-mar de manhãzinha na praia; os beijos apaixonados que eles dão, como se fosse ser pra sempre. Disse que me amava. Sim, ele. A senhora sabe, machucou-me tanto que eu não sei. Explica-me, por favor, o que está acontecendo. Quando fecho os olhos e penso em seguir em frente dói como se tivesse deixando para trás parte de mim. Vivi tanto tempo sem parte de mim, que creio que não suporte mais. A senhora sabe, tão bem quanto eu ou qualquer outro, não aguentaria conviver como se metade do meu corpo, incluindo coração e outros órgãos vitais, não estivessem comigo. Concorde comigo, não há vida sem um coração. Digo-lhe, baseando-me nisso, não viveria sem ele. Por isso e por tantas outras coisas encontro-me aqui, deitada nessa grama verdinha do meu jardim, olhando o céu como se a noite nunca fosse ter fim, como se isso nunca fosse ter fim. As estrelas artificiais do meu quarto já nem brilham mais, apaguei a luz faz tempo. Logo, vim pra cá, as de verdade brilham, não aos meus olhos, posso garantir, mas talvez nos dele. Nos meus, bom, já nem cores existem mais. Tudo tão preto e branco, nem cinza, preto e branco. Tudo tão confuso. Penso que a uns cinquenta ou sessenta anos atrás tudo seria mais fácil, sei lá, só acho. Não, não pergunte-me porquê, sinto como se tivesse sido. Talvez se minha época fosse aquela, poderia observar mais as estrelas que tanto venero. Ah, não é por causa dessa poluição toda, não, talvez até seja, só que pela poluição dos meus olhos marejados de pensamentos tão bons, menina, tão bons que chega à uma nostalgia tão grande. Dói tanto se quer pensar em momentos que tive, que vivi e revivi em minha mente e que nunca mais terei de volta. Vou adormecer aqui, menina lua, diário das minhas madrugadas, tudo naquele quarto lembra momentos tão bons que creio que não conseguirei ao menos fechar os olhos. Faça-me companhia, lua, tenho me sentido muito sozinha sem o causador da minha alegria, das minhas lágrimas e utopias. Fique aqui, lua, cuide de mim só essa noite, talvez ele volte amanhã pela manhã. Só espere comigo. Não se importa de esperar, não é mesmo? Mesmo que dure para sempre? Mesmo que esperar signifique escutar-me, todas as noites, questionar por quê ele nunca voltou? Mesmo que esse esperar seja eterno, lua? Mesmo que...
"At night when the stars
Light up my room
I sit by myself
Talking to the moon"
(Talking to The Moon - Bruno Mars)