Entao, bem atenta, eu olhei para o ceu escuro bem a cima de mim. Olhei bem fundo, olhei como nunca havia olhado antes. Olhei com cautela e um certo desespero. Olhei preocupada e calmamente. Olhei com o coracao. Entao, em minha mente, me veio voce. Lembrei-me de quando nos saimos de noite para caminhar ao redor da pracinha, onde eu cresci. Onde eu aprendi a andar de bicicleta. Onde eu cai pela primeira vez. Onde eu brinquei com meu primeiro amiguinho. Onde dei meu primeiro beijo. Ah, lembro-me do nosso primeiro beijo. Voce segurou a minha mao e me olhou com ternura e, entao, me beijou. Pode ter sido ha muito tempo atras, porem, eu me lembro como se fosse hoje. Talvez tenha sido o melhor beijo da minha vida. Mesmo que depois tenhamos nos beijados mais vezes. Afinal, aquele havia sido o nosso primeiro beijo. Nosso. Naquela pracinha eu vivi momentos unicos da minha vida. Todo dia antes e depois da escola, nos nos encontravamos la. Conversavamos por horas a fio depois da aula. As vezes matavamos aula para ficarmos juntos. Lembro-me da vez em que voce gravou as nossas iniciais em uma arvore, dentro de um coracao flechado. A mais bela arte que eu ja vira. O mais belo desenho. As mais belas letras, escritas pela mais bela pessoa q'eu ja vira antes. Quando sua mao tocava a minha, tudo parecia perfeito, tudo parecia unico e o tempo parava. O tempo parava quando eu estava ao teu lado. Eu tinha voce. Mas nao para sempre.
Como eu sempre fazia, estava indo para a pracinha lhe encontrar, para passarmos mais uma tarde juntos, conversando, admirando as arvores, catando e comendo macas. Gostaria que pudesse ser assim, outra vez. Cheguei e, entao, eu nao o vi. Estava na mesma hora que nos encontravamos todos os dias. Eram exatamente 13:00. Sentei-me no banco que costumavamos nos sentar, e me pus a esperar. Duas horas. Tres. Quatro. Entao, eu vi que nao iria aparecer. Caminheiro calmamente ate a nossa arvore - onde voce havia gravado nossas iniciais - e vi. Um papel. Deveria ser uma carta, ou um bilhete. Meu coracao deveria estar para sair de minha boca. Abri e me pus a ler.
"Perdoe-me, minha amada. Todos os momentos que passei ao teu lado, jamais esquecerei. Todas as nossas conversas, eu jamais conversarei com outro alguem. Todos os seus beijos, jamais serao de outra. Mas e nesta pequena e humilde carta, que eu lhe digo adeus. Perdoe-me por nao ser tao perfeito como voce merece. Perdoe-me por nao ter lhe dado todo o amor que eu deveria lhe dar. Perdoe-me pelas vezes que fui impertinente, grosseiro e insensivel. Perdoe-me, mais do que tudo, por te deixar agora. Minha pequena, eu para sempre lhe amarei. Para sempre lembrarei do teu sorriso de encontro ao meu. Nosso amor e como o vento. Nao posso ver, mas posso senti-lo.
De seu amado, ou nao tao amado assim. "
Acordei e estava deitada sobre a raiz de uma enorme arvore. Ela parecia nao ter fim. Dentre as folhas eu via quase nada dos raios do sol. Mal enxergava direito, mas me levantei mesmo assim. Entao me lembrei. O tempo o esperando. A arvore. O bilhete. Meu coracao. Escuro. Fui me lembrando vagamente do que ocorrera. Assim que consegui me lembrar. Lagrimas. Lagrimas saim de meus olhos como uma cachoeira. E assim foram por dias, meses e anos. Ele se fora. Havia me deixado. Ele foi e nao tive nem a chance de lhe dizer que eu precisava dele. Nem a chance de dizer-lhe que ele era, para mim, as estrelas brilhando no escuro da noite. Meu raio de sol. Meu canto do passarinho ao amanhecer. Ele se fora, e me deixara apenas um bilhete, sem uma despedida frente a frente. Nem um abraco, nem um 'Volto assim que puder.'. Nem uma explicacao mais detalhada. Mas, como toda mulher apaixonada, eu o esperei. Namorei, casei, tive filhos e netos. Estou quase tendo um bisneto. Mas ainda o espero. E quando ele voltar, estarei de bracos abertos. E lhe darei uma bronca por ter ido embora e nao ter me levado consigo. Ainda nao sei o motivo pelo qual me deixou. Mas eu o entendo. Ele tinha um mundo a conhecer. Ele tinha planos, e eu nao queria sair de minha pequena cidadezinha. O perdoo, e tambem pesso-lhe perdao por nao ter tido tamanha coragem. Muitos anos se passaram e eu estava sentada no mesmo banco da pracinha que costumavamos sentar. Era noite, e eu observava o ceu estrelado. As luzes neon nos bares e os farois vindo dos carros, iniciam uma melodia dentro de mim, aquela melodia que eu so escutava quando estava perto de perto. Quando voce tocava minhas maos e me beijava. Olhei mais a fundo do ceu e entao, em minha mente, me veio todos os momentos ao teu lado. Todas as lembrancas, os sorrisos iluminados. Os olhares cautelosos. Os beijos cheios de desejo. Entao, nesta noite, o ceu la em cima me lembra voce, amor.
Musica em italico - This Time ( August Rush )