23 de setembro de 2010

I'm closing

your blinds
I'm shutting your eyes
And now I
I'm afraid I have to go (Not A Second To Waste - A Rocket To The Moon)
        A chuva estava forte, mas não tão forte que pudesse tirar seu sorriso. E então eu vi seus olhos olhando os meus, desejando encontrar uma resposta qualquer. Entre, vamos!, dizia você a beira do táxi amarelo, tão amarelo quanto a parede da nossa casa. Ou pelo menos da casa que queríamos ter. Olhei para o relógio, marcava 23pm. A chuva nem esta tão forte assim, eu disse. Talvez, se eu tivesse pensado uma ou duas vezes antes de falar isso, tudo estaria bem.
Apenas vi quando o táxi e você pulavam e pulavam e pulavam e pulavam, destruindo tudo pela frente. Tudo. Meu coração quis não acreditar nos meus olhos. Eu quis não acreditar. Eu quis. As vezes, querer não e o suficiente. As vezes, você tem que querer mais que tudo, e fazer.
        Um bip do monitor do quarto azul do hospital nunca me deixou tão aflito. E todo aquele azul, eu nunca quis tanto sair de um lugar tão azul assim. Você dormia um sono tão profundo, que, se o mundo caísse, você não acordaria. E você não acordou.
        Pela primeira vez em anos eu não enxerguei um chão sob meus pés. Eu não sentia um coração batendo aqui dentro, uma veia pulsando, uma respiração acelerada. Nada. Eu não vi brilho nos olhos ou uma reclamação por ter deixado a toalha em cima da cama. Não vi ninguém ao meu lado dormindo tao lindamente que eu poderia passar o resto dos meus dias assim, observando-te dormir. Eu não vi mais nada, ate que acordei.
        Você dormia tranquilamente ao meu lado, e faltou pouco para eu pular da cama, como se houvesse visto um fantasma, como se não fosse você ali, ao meu lado, dormindo. Eu devo ter sonhado, pensei, mas e claro. Que sonho mais louco. Mas parecia tão real, tão doloroso. E eu lembro do começo, do meio e do final. Todo sonho que se preze, esconde seu inicio. Sempre.
        Você acordou e me olhou assustada, como se perguntasse, com os olhos, o que tinha acontecido. Estou bem, ou pelo menos vou ficar bem, prometi. Talvez não tivesse prometido. Seria melhor. E o dia ocorreu normalmente, ou talvez, quase. Era realmente incrível, eu havia vivido tudo aquilo. Tudo. Peguei um táxi assim que sai do escritório e reconheci o taxista. Era o mesmo que havia levado Anne no dia do acidente do meu sonho. Ou do meu deja vu. Seja la o que tenha sido aquilo. Ele me olhava como se... como se soubesse. Então ele começou a falar...
       "Sabe, em alguns momentos em nossa vida, nos tomamos decisões que... nos fazem repensar, e, infelizmente, repensamos quando e tarde demais. Corra atrás do que você quer. Se você tiver a oportunidade, desejada oportunidade, de fazer tudo outra vez. Faca. Porem faca diferente. Faca melhor, faca o que seu coração mandar."
        O senhor simpático, porem estranho, piscou pra mim e sorriu. Eram 16pm, eu deveria fazer tudo diferente. Então fui para casa, peguei você pelo braço e nos saímos andando pelas ruas de New York. Você sorria aquele seu sorriso radiante, que me fazia sorrir também. Você me abraçava e me beijava como se fosse a primeira vez. Eu desejei que isso nunca tivesse fim. Andamos, conversamos como nunca, nos amamos e fomos felizes. Tao felizes como temos sido por anos.
        Voltamos aquela rua, aquela calcada. E a chuva, tão forte como da primeira vez, a fez levantar a bolsa sobre a cabeça. Olhei a minha volta. Estava acontecendo de novo, eu estava tendo uma chance de mudar o meu futuro. O seu, o nosso. Olhei você a beira do táxi. Entre, vamos!, você disse, rindo. Entrei. O taxista era o mesmo. Olhei no relógio do painel, 23pm. Olhei o retrovisor do taxista, ele me olhava. E fez um gesto com a cabeça que eu não entendi. Mas como se eu tivesse entendido, abracei a Anne, abracei-a forte, o mais forte que pude. Joguei-me por cima dela. E não vi mais nada.
        O monitor do quarto amarelo do hospital da esquina da Primeira com Amistad, nunca me deixou tão aflita. Você dormia um sono tão profundo, que se o mundo caísse, você continuaria dormindo. E assim foi. Você dormiu um sono eterno. E, pela primeira vez em anos, eu me vi sem chão. Me vi sem as toalhas sobre a cama, sem suas risadas, seus beijos e carinhos. Pela primeira vez em anos, eu me vi sem você. E eu odiei isso. E odeio ate hoje. Mas eu prometo, Nick, eu vou continuar vivendo. Ou melhor, sobrevivendo. Mas eu nunca, eu disse nunca, Nick, eu nunca vou amar, nem vou rir, ou sorrir, ou brigar por uma toalha sobre a cama, ou vou ficar sem chão como desta vez. Porque, Nick, eu passei tudo isso com voce. E nada disso faz sentido se nao for com voce. E, Nick... você foi, e, e sempre será o amor da minha existência.
Baseado no filme "Antes Que Termine O Dia.".