Eu olho a minha volta e o que eu vejo são luzes por toda a parte. Crianças correndo, todas cobertas por dezenas de agasalhos. Ao contrário de algumas pessoas que passam pelas ruas com rostos nem um pouco satisfeitos, sempre gostei do frio de Londres. E aquela cidade cinza, com um tom de saudade e solidão, acho que foi feita pra mim. Especialmente. As árvores secas e branquinhas por causa da neve enchem meus olhos de brilho. Sentada bem ali, vi um senhor sentar-se ao meu lado. Ele mantinha um pacote que continha, na minha cabeça e ali dentro também, pedacinhos de pão. Ele abriu e acho que começou a esperar por alguém. Ou alguma coisa.
- Você sabe que os pombos só passam por aqui durante o dia, não é? – Perguntei, curiosa pra saber sua resposta.
- Sim. – Foi só o que ele disse, e nem olhou para mim.
- Mas então, por que o senhor tem esse pacote de pão?
- Você é metida assim mesmo, garota?
- Não. Quero dizer, eu só queria entender. – Virei-me para frente. Ele estava mais do que certo. – Desculpe.
- Você não é daqui, não é mesmo? – Ele continuava sem olhar para mim.
- Não, não sou.
- E a quanto mora aqui?
- Desde, bom... não tem muito tempo. – Abracei-me, como se meu abraço pudesse me tirar dali e levar-me para minha cama, onde eu pudesse chorar em paz.
- Desculpe, eu que estava sendo curioso demais agora.
- Tudo bem. – Consegui sorrir um pouco. - Por que sempre as coisas têm que dar errado? Eu queria saber o porquê essas luzes me deixam tão aflita e por que casais que passam por aqui de mãos dadas me fazem chorar. Eu queria entender por que eu terei que passar este natal sozinha. Eu e o vinho debruçados na janela, observando essa cidade linda aos meus olhos sem nenhum habitante. Pensar que todos estarão com suas famílias e eu, com meu vinho. Aí lágrimas vão descer por meus olhos, sem ao menos pedir permissão. Depois um louco qualquer vai passar com uma garrafa de bebida lá em baixo e vai olhar pra mim com olhos de pena. Vai querer me chamar para beber também e dividir meus problemas com ele. Mas ele não vai dizer nada. Ele vai dar um sorriso melancólico assim como tudo nessa cidade, e vai continuar seu trajeto de bêbado solitário. Talvez eu devesse ir com ele, mesmo sem ser chamada. Mas eu sou tímida demais, sem graça demais. Talvez tenha sido por isso. A vida ao meu lado não tem tanta graça. Sair todos os dias e ir a festas todas as noites, com certeza, é melhor do que passar os dias em casa ou passeando pelas pracinhas e assistir filmes as noites, ou só dormir juntinho. Uma festa, com certeza, é melhor do que sentar em um bar com música ao vivo de noite, conversar e, quando chegar em casa, trocar carinhos e amar. Fiz bem, eu acho, vindo para cá. Todos aqui dão a impressão de solidão, mesmo não sendo. Quando olho estas pessoas, sinto como se eu fosse a única solitária daqui. Eu e meu apartamento, as vezes, parecemos intrusos, aos meus olhos. Talvez eu devesse pegar o primeiro avião amanhã e voltar para onde eu vim. Mas como? Encontrar aqueles olhos castanhos brilhando por outro sorriso? Encontrar aquele sorriso que eu tanto amo sorrindo para outros olhos? Encontrar aquelas mãos que se encaixavam tão bem nas minhas, balançando outras? Encontrar aquele cabelo engraçado mudado? Encontrá-lo feliz? Egoísmo meu, eu sei. Eu quero mesmo que ele seja feliz, de coração, mas por que não comigo? Por que não com meus olhos, meu sorriso, minhas mãos? Por que não deitar ao meu lado toda noite? Por que não me acordar toda manhã com beijos pelo rosto? Nós costumávamos ser felizes. Nós riamos um do outro e sorriamos também. Nós nos amávamos como nunca achei que outro casal poderia amar. Nós dormíamos juntos e passávamos horas conversando e fazendo planos para o amanhã. Um amanhã que nunca veio. Nós costumávamos ser um casal feliz, que passeava nos dias ensolaradas, que via filmes de todos os tipos à noite e que dormia junto. Que ia a festas algumas vezes, mas que preferia um barzinho com musica ao vivo. E agora, o que nós somos? Somos o sinal ruim de uma televisão chiando? Somos as luzinhas de natal apagadas durante todo o ano? Somos as praias vazias nos dias de inverno? Somos a lembrança de um beijo que nunca foi dado? Depois de tudo, o que nós somos? Só lembranças? – Eu chorava, sem nem perceber. O senhor continuava sentado ao meu lado, com os olhos fixos em alguma coisa. Vi um pombo chegar e para à sua frente. Suas mãos pegaram alguns pedacinhos de pão e deram para ele. Ele se virou para mim.
- Nada na vida acontece como a gente quer. Vai viver a vida que uma hora sua vez chega. As coisas acontecem quando você menos espera. – Então, aquele senhor simpático e curioso levantou e foi embora. Eu continuei ali, observando as crianças, que agora quase todas já tinham ido embora, correndo. Guardei minhas mãos no casaco ao perceber as lojas começando a fechar. Levantei e fui pra casa. Meu vinho me esperava. No caminho de casa, que não era muito longe, as pessoas iam diminuindo o passo, como se perdessem a pressa de chegar em casa. Vi sorrisos que pareciam ser sinceros. Vi olhos brilhando que me fez lembrar de como os meus olhos brilhavam. Entrei no elevador e esperei. Havia uma moça com um bebê lindo nos braços. Ele sorriu para mim da forma que ninguém sorria mais. Abri a porta e tranquei. Peguei o vinho na mesa que já gritava de saudades de mim. Sentei na minha cama e juro que tomei a garrafa inteira de vinho. De madrugada, não sei se foi sonho ou não, escutei meu telefone tocar em cima da mesinha.
- Alô? – Disse com uma voz de sono que eu até duvidei que fosse minha.
- Meus olhos já não brilham mais, meus sorrisos já não fazem mais nenhum par de olhos castanhos brilharem, nem lábios sorrirem. Minhas mãos não se encaixam mais como se encaixavam nas suas.
- Hã?
- Eu te amo.
- Eu te amo. E eu estou bêbada.