E tudo começou com dois sons: um da chuva caindo do lado de fora da janela, tão lentamente que não seria tão difícil contar as gotas; o outro do tic tac do relógio na parede da sala, logo depois das escadas. E então ela se lembrou da noite anterior, que agora era tão viva em sua cabeça que jurava ter acabado de acontecer. Cada detalhe, cada palavra, gosto, cheiro ou cor, tudo vinha a tona, tal como aqueles fogos de virada de ano, que a gente sempre se assusta, mesmo que nós mesmos o tenhamos lançado. De repente, não mais que isso, seus olhos encheram-se de lágrimas que, infeliz e tragicamente, a fizeram lembrar de que a noite anterior não fora nada que poderia deixá-la com o mínimo de felicidade possível. Talvez pudesse, no entanto, para ela, alguns copos espalhados pela casa, a tampa do vaso sanitário levantada ou o quarto desarrumado não era incomodo algum, não se ele estivesse ali para fazê-lo. Mas quando o viu com os olhos tristes, um sorriso de desculpas nos lábios e um adeus na mão, soube que não teria mais tantas coisas para reclamar. E desejou, meu Deus, como desejou, que nunca tivesse reclamado. Sentiria falta da casa pelo avesso, das brigas, das noites de farra ou das noites que dormiram abraçados. E até das que dormiram separados. Sentiria falta de tanto, de muito, de tudo. Agarrou o travesseiro e afundou a face, acho que para esconder dela mesma as lágrimas insistentes que caiam e caiam sem parar, e assim esconder, talvez, a dor de um fim que doeria, dói. Uma dor constante e infinita que ela sabe que jamais superará. E não é preciso mais que um ou dois anos para saber se é inesquecivel. A questão não é nem ser inesquecível, a questão é ter sido especial. E fora, ela tinha certeza, fora, talvez, a coisa mais especial e importante que poderia ter acontecido. E algo especial e com tamanha importancia a gente não esquece assim, depois de algumas doses de vodka. A gente esquece, sim, mas aí quando a vodka acaba, a gente lembra e sofre. Sofre porque voltou, sofre porque nunca vai passar e sofre por ter tentado esquecer. Acho que nem as inúmeras doses de vodka que tomara depois que ele fora a fizeram esquecer de se quer um terço da dor, da sua dor. Não tentou esquecer aqueles momentos bons que tiveram e, por favor, não ache que tentara esquecer os ruins, pois os ruins foram, e ela tinha certeza disso, talvez até melhor que os bons, pois foram com eles que eles se fortaleceram. Tentou esquecer a dor do seu adeus inesperado, do seu beijo na testa e o seu "se cuida". Palavras idiotas. Não há nada mais irônico que um "se cuida" depois de... de... Depois daquilo. Como, pensara, ele poderia ter sido tão sem coração? Se ele estivesse aqui, diria que porque ela-havia-o-roubado. Claro, ele sempre com seus clichês e provocações inúteis. Engula, ela gritava, engula todas as suas provocações propositais, os seus "eu te amo", as suas flores ridiculas que eu dizia que eram as minha preferidas (e eram, as lindas rosas), os seus "se cuida", os seus "boa noite" ao pé do meu ouvido, as coisas inúteis que você dizia-me ao telefone antes de dormir. Engula, agora ela mal conseguia falar, todas as mais belas coisas que você já me dissera, as noites que dormimos juntos, as noites que nos amamos ou as que passamos brigando, os seus beijos na testa, os seus carinhos. Engula, sussurrou, todos seus pedidos de casamento, sejam eles ao telefone, ao pé do ouvido, ou em sonhos. Engula aquilo que você disse ser amor, mas que não passou de um mero gostar. Agora se pegava olhando o porta retratos em cima da mesa de cabeceira, o que a fez pensar, repensar e se questionar: o que a gente espera do amor, além de amor? Não diga que esperamos, como amor, brigas, reclamações ou essas coisas que todos costumam dizer, pois no final das contas, esperamos receber o mesmo amor que damos.
24 de junho de 2011
8 de junho de 2011
(lê-se amor)
Vezemquando penso em como teria sido se eu tivesse aprendido com meus outros desamores. Não que você seja um, não me entenda mal, é só que, talvez - se eu tivesse se quer aprendido um pouco - poderia ter sido diferente. Poderia ter sido mais animado, mais compreensivo, mais unido, mais tanta coisa, ah, tanta coisa, meu anjo. Preciso confessar-lhe que teria melhorado muito e, talvez, até nos salvado dessa distância espiritual que nós insistimos em manter, mesmo que sem querer. No entanto, talvez não seja por isso, talvez seja nós dois. Preciso, novamente, confessar-lhe uma coisa: por sua causa passei a acreditar nisso de signos, sabe. Você tão teimoso e possessivo e cheio de si, tão errado e convencido. Eu tão organizada e teimosa, tão calma e nervosa, tão ciumenta e querendo ter tudo de ti. Nós tão inseparáveis, ciumentos, teimosos, possessivos, orgulhosos, carinhosos sempre (lê-se às vezes) e, o melhor de todos, altamente incapazes de permanecermos muito tempo um sem o outro. Devo-lhe dizer, menininho, você roubou de mim aquilo que mais importa em alguém e, ao mesmo tempo, aquilo que queremos dar aos outros (lê-se a quem merece) o tempo todo. Talvez, se eu tivesse aprendido com meus antigos desamores, eu não teria chegado a você, logo, jamais teria encontrado o motivo do meu sorriso. Concluo, então, que não me arrependo de ter tido o coração quebrado inúmeras vezes se o resultado for você.
1 de junho de 2011
Enquanto você sorria.
Procurei em todos os cantos e você estava justamente no último lugar que eu procuraria. Lá estava você, com metade do corpo na grama verde e a outra no tronco da enorme macieira. Você sorria para mim como se pudesse me ver escondida em meio àquelas árvores. Talvez você estivesse mesmo vendo. Cada passo que eu dava, que eu me aproximava, seu sorriso aumentava. O seu sorriso era daqueles iluminados, tortos, bobos e encantadores. Daqueles que me fazem suspirar. Seu sorriso era seu, isso bastava. Como todos os seus defeitos que te faziam ser você. Essas coisas sempre bastaram pra mim. Nunca precisei de mais que um sorriso seu, ou um elogio ou até uma briguinha boba. Era seu? Vinha de você? Basta. Porque, preciso dizer-lhe, nunca fui suficiente pra ninguém, talvez nem pra mim. No entanto, tudo sempre foi o suficiente pra mim, exceto eu mesmo. Acontece que nunca percebi: nada nunca bastou pra mim. Eu aceitava e dizia "sim, senhor, obrigada". No fundo, eu gritava dizendo "não, dessa vez, não". Nunca nada bastou, nada nunca foi o suficiente, até você surgir. Não como algo inesperado. Você veio como a chuva, devagarinho, as nuvens foram escurecendo, um pingo ou outro foram surgindo e lá estava você. E você sempre sorrindo, com aquele seu ar de tudo-vai-se-acertar, fez eu sentir que algo era suficiente. Seus sorrisos, implicações, beijos, abraços, olhares, brigas, tudo era o suficiente pra me fazer feliz. E você sempre soube disso. Você sempre soube de tudo, antes até do que eu. Você adivinhava meus sorrisos e caras do outro lado do telefone e, muitas vezes, usava isso de propósito. Você me elogiava ou falava algo bobo só porque sabia que eu coraria e sorriria. Eu odiava e amava quando você fazia isso. Você se importava se eu me sentiria feliz ou não. Você se importava se me machucaria ou não. Você se importava, sabe, era o suficiente. Entretanto, a única coisa que era suficiente pra me fazer te amar, era que você me amava. Isso bastava, sempre bastou e vai ser sempre o suficiente. Não preciso dizer-lhe que são seus olhos ou seus sei lá quantos tipos de sorrisos. Ou o jeito como você fala, tão doce, ou até o jeito como você briga comigo. Ou como você sente ciúmes de mim ou me faz ter ciúmes de você. Não preciso dizer que são as músicas que você canta pra mim ou ou textos que você me escuta falar. Você me ama, isso é o suficiente, simplesmente porque eu nunca tive alguém aqui por mim, como eu tenho você. Você me ama e me fez amar você, isso é o bastante. Os seus sorrisos, olhares, bom, essas coisas fazem parte de você. E como o fato de você me amar está praticamente relacionado a todas essas coisas, bom, dá no mesmo. Pensei sobre tudo isso no simples segundo que eu olhei você sorrir pra mim, antes de me deitar ao seu lado e ficar ali o resto do dia.