24 de junho de 2011

You're every song I still sing, you're everything.

E tudo começou com dois sons: um da chuva caindo do lado de fora da janela, tão lentamente que não seria tão difícil contar as gotas; o outro do tic tac do relógio na parede da sala, logo depois das escadas. E então ela se lembrou da noite anterior, que agora era tão viva em sua cabeça que jurava ter acabado de acontecer. Cada detalhe, cada palavra, gosto, cheiro ou cor, tudo vinha a tona, tal como aqueles fogos de virada de ano, que a gente sempre se assusta, mesmo que nós mesmos o tenhamos lançado. De repente, não mais que isso, seus olhos encheram-se de lágrimas que, infeliz e tragicamente, a fizeram lembrar de que a noite anterior não fora nada que poderia deixá-la com o mínimo de felicidade possível. Talvez pudesse, no entanto, para ela, alguns copos espalhados pela casa, a tampa do vaso sanitário levantada ou o quarto desarrumado não era incomodo algum, não se ele estivesse ali para fazê-lo. Mas quando o viu com os olhos tristes, um sorriso de desculpas nos lábios e um adeus na mão, soube que não teria mais tantas coisas para reclamar. E desejou, meu Deus, como desejou, que nunca tivesse reclamado. Sentiria falta da casa pelo avesso, das brigas, das noites de farra ou das noites que dormiram abraçados. E até das que dormiram separados. Sentiria falta de tanto, de muito, de tudo. Agarrou o travesseiro e afundou a face, acho que para esconder dela mesma as lágrimas insistentes que caiam e caiam sem parar, e assim esconder, talvez, a dor de um fim que doeria, dói. Uma dor constante e infinita que ela sabe que jamais superará. E não é preciso mais que um ou dois anos para saber se é inesquecivel. A questão não é nem ser inesquecível, a questão é ter sido especial. E fora, ela tinha certeza, fora, talvez, a coisa mais especial e importante que poderia ter acontecido. E algo especial e com tamanha importancia a gente não esquece assim, depois de algumas doses de vodka. A gente esquece, sim, mas aí quando a vodka acaba, a gente lembra e sofre. Sofre porque voltou, sofre porque nunca vai passar e sofre por ter tentado esquecer. Acho que nem as inúmeras doses de vodka que tomara depois que ele fora a fizeram esquecer de se quer um terço da dor, da sua dor. Não tentou esquecer aqueles momentos bons que tiveram e, por favor, não ache que tentara esquecer os ruins, pois os ruins foram, e ela tinha certeza disso, talvez até melhor que os bons, pois foram com eles que eles se fortaleceram. Tentou esquecer a dor do seu adeus inesperado, do seu beijo na testa e o seu "se cuida". Palavras idiotas. Não há nada mais irônico que um "se cuida" depois de... de... Depois daquilo. Como, pensara, ele poderia ter sido tão sem coração? Se ele estivesse aqui, diria que porque ela-havia-o-roubado. Claro, ele sempre com seus clichês e provocações inúteis. Engula, ela gritava, engula todas as suas provocações propositais, os seus "eu te amo", as suas flores ridiculas que eu dizia que eram as minha preferidas (e eram, as lindas rosas), os seus "se cuida", os seus "boa noite" ao pé do meu ouvido, as coisas inúteis que você dizia-me ao telefone antes de dormir. Engula, agora ela mal conseguia falar, todas as mais belas coisas que você já me dissera, as noites que dormimos juntos, as noites que nos amamos ou as que passamos brigando, os seus beijos na testa, os seus carinhos. Engula, sussurrou, todos seus pedidos de casamento, sejam eles ao telefone, ao pé do ouvido, ou em sonhos. Engula aquilo que você disse ser amor, mas que não passou de um mero gostar. Agora se pegava olhando o porta retratos em cima da mesa de cabeceira, o que a fez pensar, repensar e se questionar: o que a gente espera do amor, além de amor? Não diga que esperamos, como amor, brigas, reclamações ou essas coisas que todos costumam dizer, pois no final das contas, esperamos receber o mesmo amor que damos.