28 de março de 2012

Falsas faltas fajutas.

Quando tudo o que sinto, o que guardo no fundo do peito e na garganta, preso à sabe-se lá o que dentro de mim, agarrado a cada órgão vital e a cada gota de sangue — quando tudo isso não pode ser exteriorizado por nada além de lágrimas e silêncio, resta-me pouco senão sentar frente à ti e desabar-me em rios de lágrimas e vazio. De ausências de prosa qualquer, de tristezas que tornariam-se tão fajutas quando em palavras. Resta-me quase nada a não ser olhar-te nos olhos e nos seus desenhar com os meus toda minha dor. Tentar mostrar à ti sem abrir a boca o quão doente é minha falta. Sentir falta de ti em cada canto obscuro do meu quarto, em cada lençol que forro a cama, em cada canal de televisão que ponho, em cada estação sintonizada no rádio. Sentir falta de ti em cada livro que tenho para ler mas não leio, nem por mil decretos, em cada peça de roupa que arrancaste com tamanha delicadeza, em cada peça íntima que fora capaz de tirar-me com dentes. Sentir falta de ti, mas não apenas sentir, e sim, ser falta. Ser o vazio que deixastes quando se foi. Ser o armário vazio de ti, a cama carente de nós. Ser o microondas sem ondas de amor, ser a geladeira vazia de verdes. Mas não apenas ser. Ou sentir. Mas sim, ter como refém toda e qualquer parte da casa que me lembre você. Guardar o cheiro do teu pescoço, da tua roupa, dos teus beijos. Guardar em mim pedaços vívidos de você. Tatuar em mim declarações feitas em meio a tantas e tantas noites de amor. Muitas e muitas súplicas para que ficasse. E ficava. Esse meu jeito fajuto de sentir falta. De não ir atrás, não ligar, não procurar, não gritar por seu nome. De não ser falta em você. De não te deixar buracos, perdas, ausências. Vazios em que eu me encaixaria sem o menor esforço. Essa minha falta medíocre, cretina, perdedora. Essa mania de sentir ausência, denominá-las falta e nem saber ao certo do que. Olhar-te nos olhos com os olhos cobertos de mares, arquear e baixar as sobrancelhas, entrelaçar os dedos e abaixar a cabeça. Suplicar por invisibilidade. E então, em um súbito ato do ápice da minha falta, beijar-te os lábios. E saber que teus olhos permaneceram fitando os meus, mesmo que fechados, mesmo que sonhando com nossas noites de pizza e filme. Mesmo que eles estivessem desejando imensamente que tudo acabasse. Que a distância imposta por você sumisse inteira e completamente. Que eu pudesse agarrar-te, beijar-te, arrastar-te até nossa cama. Que os vizinhos gritem, briguem, chamem a polícia. Que a cama quebre, a televisão pife, a comida acabe, a energia caia, a roupa rasgue. O tempo pare. Que as lágrimas fossem de felicidade. Que o silêncio tenha sido ocupado por sorrisos. Que minhas mãos estivessem entrelaçadas nas suas. Que nossas testas estivessem coladas e que nossos narizes estivessem gelados juntos. Que a falta fajuta e não fajuta que sinto cada segundo do meu dia, durante todos os dias, transformasse-se em horas ao seu lado. Que distância nenhuma tenha sido imposta ou que tempo nenhum tenha nos distanciado. Que eu possa falar-te um dia tudo o que eu disse outro dia apenas com lágrimas e um longo silêncio.