30 de agosto de 2012

Olha, Vicente,

eu sei que já faz tempo. Sei que o céu, agora, é de um laranja sem fim. E o vento corre rápido. Como o tempo. Sei que lótus já nasceu. Lembra que você costumava dizer que era tal como nosso amor? Eu sei, eu sei. Já faz muito e só agora lhe escrevo. Acontece, Vicente, que por muito tempo fitei o papel em branco. De um branco puro, leve. A caneta negra em minhas mãos dançavam por meus dedos. E nada saía. Por muito criei diálogos, desculpas, saudades. Mas jamais pude exterioriza-los. Eu sei, Vicente, orgulhosa que sou, demoraria de qualquer jeito. Mas veja, Vicente, agora lhe escrevo. Não acho que devo pedir-te desculpas ou escrever-te como imaginei nosso reencontro. Escrevo-te coisas boas. Eu sei, eu sei. Logo eu, tão pessimista. Aprendi a ser melhor depois que se fora. E não pense que foi melhor assim, aprendi de forma tão doída. E ainda dói. Eu sei, Vicente, ainda não disse a que vim. A que lhe escrevo. Escrevo-te somente para relembrar do nosso amor infindo. Eu sei, Vicente, que você não crê nessas coisas espirituais. Mas veja que, mesmo depois de muito, escrevo-te minhas saudades. E que saudades, Vicente, que saudades.

23 de agosto de 2012

o tempo (que não) volta, amor

Quando perco
o tempo
Passa
o vento
Traz de volta
o tempo
que passou!

14 de agosto de 2012

poetamático

Procuro me perder nas boas lembranças de você. E quando o faço, num súbito ato de sanidade, desejo voltar. Seus olhos negros penetram em meu âmago, enchendo-me de vazio. E o seu sorriso torto e sem cor me divide em mil pedaços. Multiplica-me e, de súbito, querendo se redimir das dores dadas à mim, soma-me a si. Iguala meu coração antes partido ao seu que, embora não brilhe teus olhos, é mais feliz que o meu.

'a bailarina e a saudade de chumbo'

E então a chuva veio. As gotinhas - que mais pareiam de lágrimas - desputavam corrida na janela do carro. A música a penetrou a mente. Seu corpo balançava no ritmo do choro e seus pés remexiam na mesma sincronia que suas pálpebras. A bailarina chorou chuvas de saudade vendo as lágrimas escorrerem pelo vidro ao seu lado. A bailarina, que já não podia mais dançar, saltou pela janela como quem salta de um trampolim. Como quem salta para longe de si. A bailarina, que a única dança que sabia perfeitamente era a de seus olhos, apavorou-se ao senti-los sendo fechados. Junto com o coração. E então a chuva cessou, lá fora e lá dentro, no mesmo instante em que a música calou. A bailarina que só dançava saudade, enfim, findou seu espetáculo.

8 de agosto de 2012

doar-se, doer-se, domar-me

Me dou àquele que domou meu ser.
Cativo aquele que se deu à mim.
Sem ver, sem nem sentir,
domas-te o eu que já não reside em mim.
E se doeu de amores por alguém sem alma,
se doou à quem só se deu por carma
e se deixou domar por mim,
que só existo em ti.

7 de agosto de 2012

apague a luz, vamos fugir de nós

Ele acendeu as luzes e eu vi seus lábios formarem um sorriso lindo. Só de vê-lo sorrir, meu mundo se iluminava. Meus lábios formaram um sorriso que pude ver em seus olhos: não tinha tanta beleza quanto o seu. Mas ele o contemplava como se tivesse. Seus olhos brilhavam e as maçãs de seu rosto se elevavam a cada sorriso. Seu cabelo parecia mais claro com o Sol adentrando pela janela e seu abraço era tão bom quanto como à noite. O quarto transbordava paz. Seus olhos, amor. E os meus, quando refletidos nos seus, saudade de tê-lo pra mim. Ele apagou as luzes e me tomou nos braços. Dei meu mundo à ele naquele abraço; ele, seu amor.