E então a chuva veio. As gotinhas - que mais pareiam de lágrimas - desputavam corrida na janela do carro. A música a penetrou a mente. Seu corpo balançava no ritmo do choro e seus pés remexiam na mesma sincronia que suas pálpebras. A bailarina chorou chuvas de saudade vendo as lágrimas escorrerem pelo vidro ao seu lado. A bailarina, que já não podia mais dançar, saltou pela janela como quem salta de um trampolim. Como quem salta para longe de si. A bailarina, que a única dança que sabia perfeitamente era a de seus olhos, apavorou-se ao senti-los sendo fechados. Junto com o coração. E então a chuva cessou, lá fora e lá dentro, no mesmo instante em que a música calou. A bailarina que só dançava saudade, enfim, findou seu espetáculo.