3 de janeiro de 2011

deixa o céu unir o amor meu e seu

Olhei a forma como aquilo ia alto. Vi como os cabelos daquelas pessoas balançavam. Senti nelas o que eu queria sentir em mim. Sorri ao ver as pernas de um menininho balançando, seus cabelos bagunçados e suas mãos esticadas para os lados, como se pudesse voar. Como se pudesse voar, pensei. Dei o pequeno papel amarelo ao senhor e subi. Acomodei-me em um daqueles balanços que, ao ponto de vista de qualquer pessoa sã, parecia um passaporte para morte, ou para um hospital, pelo menos. Mas eu nunca me importei em morrer. Ate gostava dessa ideia. Um jeito mais fácil de não ter que encarar a vida de frente. Fechei a grade a minha frente e coloquei um pé sobre o outro. Fechei os olhos. Respirei fundo, perguntando-me se era mesmo necessário. Alias, eu nem sabia mesmo o por que de eu estar fazendo aquilo. Não era como voar, eu sabia disso. Sabia que o máximo que conseguiria seria um cabelo bagunçado, alguns gritos nos ouvidos ou um chinelo perdido. Na verdade, eu queria mais que a sensação de voar. Eu queria poder espantar toda a angustia, toda a dor, a saudade, todas as lágrimas para bem longe de mim. Como se eu pudesse purificar minha alma, tirar tudo o que tem me incomodado, tudo o que sei la quantos litros de agua bem gelada não purificou. Eu queria sentir menos saudade, menos dor, menos tristeza, menos falta-de-você. Se eu pudesse fazer aquele balanço voar de verdade, o faria voar quase trezentos quilômetros. E ele voaria. E ai, tudo passaria. Qualquer coisa passaria com um par de olhos castanhos, com um sorriso pequeno e um cabelo engraçado. Tudo seria mais fácil, tudo ia se ajeitar, eu sei. E ai, no fim da tarde, meu coração não ia ficar mais pequenininho. Meus olhos não ficariam marejados e minhas mãos não tremeriam mais. Eu teria você ali, protegendo-me e dizendo que tudo ia ficar bem. E tudo ficaria. Se eu pudesse voar, ou se eu só pudesse estar ai. Abri os olhos ao perceber que havia começado. O céu sob minha cabeça era convidativo. Havia estrelas. Muitas delas. Elas sorriam pra mim, e eu para elas. Eu estava tão perto delas, e elas de mim. Era o mesmo céu que estava sob sua cabeça. As mesmas estrelas. Ate elas estavam perto de você, menos eu. Eu as odiei, por uma fração de segundos, ate perceber que meus pés tocavam no chão novamente. Minha aparência não deveria ser das melhores, mas eu não me importei. Eu queria sair dali, deitar na minha cama e chorar como se pudesse traze-lo ate mim. Mas eu não podia. Corri o máximo que pude sem me importar com milhares de pares de olhos me observando, perguntando-se o que diabos uma garota fazia correndo feito louca. Louca. Era o que eu era. Abri a porta depressa, como se houvesse alguém me esperando, mesmo sem saber. E havia. E estava sentado a beira da minha cama, com uma almofada cheia de letras escritas nas mãos, balançando de um lado para o outro, como se pudesse entender o por que de aquela almofada estar sobre a cama, e não jogada no fundo do armário. Me olhou, de cima a baixo, como se procurasse alguma coisa. Algum defeito, talvez. Seus olhos encontraram os meus que estavam espantados. Minha bolsa estava no chão em segundos, somente com o susto. Abriu a boca.
- Eu estava olhando o céu noite passada e percebi que era o mesmo céu que você observava todas as noites. Tive raiva dele por estar com você, e eu não. Mas ai eu vi que eu poderia estar, e ainda mais perto que ele.
- E você acha o que? Que era só chegar aqui, dizer meia dúzia de palavras que você achou que me faria sorrir feito idiota, ir se aproximando, me segurar pelos ombros, me fazer chorar histericamente e depois me beijar e estaria tudo bem?
- Sim, só não precisa chorar histericamente.
- Precisa sim.
Aproximou-se Tao depressa que não pude impedir. Talvez não queria. Segurou-me pelos ombros e sorriu pra mim. Chorei tão histericamente quanto achei que choraria. Beijou-me os lábios. Tudo ficou bem como num passe de mágica.