gritando alto. Mas o som estava preso bem aqui dentro.
Tudo ficou tão claro quanto os lencois limpos no armário. Diferente daqueles da cama no andar de cima. Ficou calmo, como a nossa cama. Nossa. Acho que, agora, minha. Mas é que vai ser sempre assim, pelo menos pra mim. Nossa. Como tudo ali. Como as musicas, os filmes, as frases e os momentos. Nossos. Pra sempre. E vazio, tão vazio quanto aquele apartamento. E tudo o que você disse, as coisas que você me falou pouco antes de fechar a porta pelas costas, de beijar minha testa e dizer que tudo iria ficar bemm um dia, aquelas coisas, eu não esqueci. Elas dormem comigo no sofá, porque já nao encosto na cama que costumava passar os dias e as noites atordoada por certas duas pessoas não se desgrudarem em cima dela. Aquelas coisas que você disse, bom, elas caem do sofá durante a noite quando minha mente ou sei la o que, insiste em trazer-me você nos meus sonhos. Você segura a minha mão e sorri. Aquelas três palavras saem da sua boca e então eu sei. Eu acordo. Aquelas coisas que você disse antes de fechar a porta pelas costas escalam o sofá e então eu lembro. Não adiantam os sonhos ou os sonos, elas sempre voltam. Como as contas pra pagar no fim do mês, como a noite e a manha, o sol e a lua, o vento e o calor. Tudo sempre volta. Ou talvez nem tudo. Mas tudo continua, nada espera. Nada nem ninguém vai permanecer esperando por mim sentado a beira da minha porta. Ninguém vai tocar a campainha ao fim de cada tarde e murmurar, Você já esta pronta? Você precisa continuar. Ate por que a vida não é assim. E eu aprendi isso com você. Os copos com restos de vodka não vão secar sozinhos, nem as xícaras com pó de café no fundo vão se limpar sem minha ajuda. O mundo inteiro continua sem mim, o que permanece comigo é aquele apartamento e tudo dentro dele. As plantas morrem se eu não as regar, a caixa de correio entope se eu não me importar em esvazia-la. A verdade é que não há muita importância em uma planta morrer ou um copo permanecer sujo. Talvez haja, eu só não tenho me importado muito, simplesmente por que não há motivo pra se importar. Não um motivo plausível. Não pra mim. A porta abriu devagar e eu pus meu corpo pra fora dali. Um dunhill carlton, por favor. Suguei todas aquelas coisas que tem ali dentro como se pudesse suga-lo pra mim de novo. E com você tudo o que se foi. Tudo o que você trouxe e que levou de volta quando fechou a porta pelas costas. E soltei a fumaça, como se soltasse tudo o que ficou depois que você fechou a porta pelas costas. A minha vida tem se resumido ao quando e ao depois que você fechou a porta pelas costas sem se importar muito em como eu conseguiria continuar, ou melhor, não conseguiria. Minha vida tem se resumido a lembrar do antes de você fechar. As memorias, sabe? Por que as memorias são as únicas coisas que me restam de uma vida que eu não sei se vai voltar. Simplesmente por que você não me deixa saber mais. Isso por causa do quando você fechou a porta pelas costas. E o depois de você te-la fechado me faz crer que nada é como antes e que nunca mais será. Simplesmente por que ainda te sinto aqui, sendo que não esta. Ainda sinto o perfume e escuto todas as coisas que você já me disse, mesmo que ao telefone, mesmo que num sussurro. Simplesmente por ser tão vivido, sendo que não é. E eu sei que não é, por que não é real. Não é real quando escuto a porta se abrindo e fechando atrás dos meus ouvidos. Não é real quando sinto o sofá afundar em uma ponta e quando sinto uma mão se arrastando desde o pé ao meu rosto. Não é real quando sinto uma voz dizendo que tudo não passou de um pesadelo. Não é real porque quando eu abro os olhos não te vejo. E não há coisa que doa mais do que acordar de manha e não encontrar seus olhos fechados ao meu lado, dormindo um sono tão pesado que não escutaria os meus mais altos gritos por ter tido um estranho sonho que você fechava a porta pelas costas, apenas deixando-me as palavras de que tudo ficaria bem. Mesmo sabendo que não.
"Bom dia!"
"Oi."
"Por que as lágrimas?"
"Eu estava aqui agora mesmo pensando em como é incrível o seu sono, você não acorda nem com meus gritos."
"Pesadelo?"
"Você fechava a porta pelas costas e dizia que tudo ia ficar bem."
"Mesmo sabendo que não?"
"Mesmo sabendo que não."
"Vai ficar tudo bem, eu não vou sair daqui. E nem você. Já percebeu como essa cama fica calma sem nos dois?"
"Já. Já sim."