Eu digo a mim mesma, numa tentativa frustrante e desesperada, que tudo vai ficar bem. Digo pra que meus sorrisos ao longo do dia pareçam mais persuasivos. Pra que meu olhar não denuncie tudo aquilo que eu tentei esconder de todos e de mim mesma. Durante um bom tempo eu venho acreditando nisso, que tudo vai ficar bem, simplesmente por que ultimamente eu tenho me sentido muito sozinha. Eu precisava provar, não para os outros, aqueles que não se importavam, mas pra mim. Olho-me no espelho na esperança de conseguir entender tudo isso. Como se o espelho pudesse entender, sem que eu precise dizer, talvez através dos olhos, o que me atormenta. Algumas vezes, não muitas, não comparado as vezes que quis dormir e não mais acordar, mas algumas, eu queria poder não ser nada alem do que um reflexo. Aquilo que transmite si próprio, mas que não é. Aquilo que mostra suas roupas, seu cabelo, seus tipos de sorrisos, seus olhares e suas poses, mas que não é você. Aquilo que não existe se você não estiver ali. Talvez eu seja mesmo um reflexo. Seu. Mas não por ter os mesmos olhos, ou o mesmo sorriso. Mas pela parte do existir. Ou melhor, do não existir. E eu me pergunto aonde isso tudo vai parar. Se eu posso esperar por qualquer coisa que me faca saber que tudo não passou de um sonho e que a hora de acordar já passou e que eu continuo aqui de intrometida. Ou talvez seja a realidade mesmo, nua e crua. Porque "nua e crua" não quer dizer que seja ruim. Quer dizer que é de verdade, que não esconde nada, que a realidade é a realidade, sem tirar nem por, com todas as dificuldades que todos dizem que encontraremos e que encontramos mesmo, com todas as decepções que dizem que teremos e que temos, e com os amores que todos dizem que quebrariam nossos corações. E, veja, aqui estou: eu, este apartamento, e o coração quebrado de quebra. Mas depois das dificuldades, das decepções e dos corações partidos, a gente sempre acredita que, no fim, tudo vai dar certo. Tudo pode dar certo. Durante um bom tempo eu venho acreditando nisso, do final feliz, simplesmente por que ultimamente eu tenho me sentido muito sozinha. E fingir pra mim mesma que tudo isso e apenas pra que eu possa provar pra mim mesma que eu posso, mas a verdade e que eu não sinto como se eu pudesse. Sinto como se eu fosse levantar e cair, e ninguém pudesse me ajudar. Ou como se eu estivesse andando, correndo talvez, em linha reta, e bem la na frente há uma precipício que eu não estou vendo, e que não há ninguém pra me avisar. E eu caio. E vou caindo.
Caindo
Caindo
Caindo
E no final eu continuo la, estirada no chão, sem nenhum arranhão no rosto, mas com milhões de pedacinhos de um coração que amou mais do que poderia. E o que mais doí é saber que eu permiti. Eu permiti que me quebrassem o coração, que me arrancassem os braços, as pernas e deixassem aquilo que não acredita em nada de bom. Aquela maquina que chamamos de cérebro, aquilo que comanda tudo, tudo, mas que não foi capaz de me impedir. Que não foi capaz de dizer, Ei, não deixe isso acontecer. Ei, eu digo agora pra você, você não é tão poderoso assim. E mais, sem aquilo que você deixou que me quebrassem e arrancassem e pusessem em lugar qualquer, você não serve. Preferia bilhões de arranhões no rosto e em todo o corpo a milhões de pedacinhos deste coração que eu já nem sei se da pra consertar. E se tiver, não há ninguém aqui que me ajude a conserta-lo. Durante um bom tempo eu venho acreditando nisso, ou melhor, não venho acreditando em nada, simplesmente porque eu estou mesmo sozinha. Eu já não sei mais em que acreditar. Ou em quem. Eu já nem sei mais de mim. E sabe o pior? Eu só não sei mais de mim porque não sei mais de você. Olhei de novo para o espelho e suspirei. Eu sou mesmo seu reflexo, então, por favor, não suma, não vá embora, continue aqui. Porque, bom, um reflexo não existe sem um objeto. E, felizmente, você é o meu.