25 de setembro de 2011

Enquanto o Sol se punha.

Caminhava pela areia sem rumo, sem destino, sem vontade, tal como alguém sem vida. Mas tinha, e muita. E tinha tudo para ser uma vida daquelas de novela, de se invejar. Tinha tudo para ser, caso fosse de outra pessoa. No entanto, era dele, e ele não gostava nem um pouco disso. Seria tudo tão mais fácil se só o que tivesse fosse o necessário. Não queria mansões, carros do ano ou empregos respeitáveis de acordo com a sociedade. Não queria dinheiro, mulheres, tudo aos seus pés. A vida era tão fácil a seu ponto de vista, e seria muito mais se as pessoas fizessem dela um hobbie, e não obrigação. Afinal, a vida tinha se tornado isso, uma obrigação inútil e tão desesperadamente cruel, como se isso fosse levar sentido a alguma coisa. O que mais gostava era de caminhar a beira do mar assim que o Sol sussurrava que ia se esconder até o outro dia. Saía do trabalho, afrouxava a gravata e tirava os sapatos. Sentia-se ele mesmo quando o fazia. E raramente podia fazê-lo. Sentar e observar o Sol se por era como assistir ao mais belo teatro de todos os tempos. No entanto, o único ator presente, ao atuar, era verdadeiro, não tinha isso de atuação, de fingimento. Era o seu papel diário, e poucas pessoas ousam parar, assistir e aplaudir seu espetáculo. Entretanto, ele o fazia. Adimirava com os olhos fixos no céu, como uma criança ao assistir seu desenho preferido, ou uma senhora ao assistir sua novela de todo o dia. Ou até mesmo um casal apaixonado olhando um ao outro. Era isso que ele era, apaixonado por esses mistérios da vida. E como todo apaixonado, era tolo, bobo. 
"Posso me sentar?" Ele mal sabia de onde havia saído aquela voz doce até olhar para cima. Lá encontrou um par de olhos azuis e um sorriso encantador que mal conseguiu falar. Talvez houvesse outras maravilhas nas quais ele não havia sido apresentado até ali. E então ele teve a certeza de como era apaixonar-se a primeira vista. Talvez fosse o brilho dos olhos, a doce voz ou até mesmo o misterioso sorriso. Ele não sabia muito bem, só sabia que havia acontecido algum tipo de transe. Sei lá.
"Claro, sente-se." Conseguiu falar antes que o coração saísse pela boca. Você é adulto, homem, haja como tal. 
"Gosto de vir aqui a tarde observar o Sol se por. É como algum tipo de mistério, sabe. Ele vai, mas a gente sempre sabe que ele volta. Mas eu me pergunto porquê. Você não?" Ela começou a falar de súbito e a única reação repentida - e retardada - que ele teve, foi sorrir. 
"É, eu também." Pergunte o nome dela ao menos, seu idiota, onde está o seu tamanho, a sua maturidade?! Seja homem. "Desculpe-me a ignorância, como se chama?" Sorriu de novo. 
"Para que? Para quando o Sol se esconder por completo, levantar, ir embora e eu nunca mais o ver? Prefiro ficar no anonimato, se é que me entende." Ele havia ficado confuso, a ignorante agora havia sido ela. 
"Puxa, eu só queria saber seu nome. E já que foi a senhorita mesmo quem disse, já que vamos ficar aqui até que o Sol se ponha, acho que mereço saber." Pronto, agora havia jogado o tal clichê. Senhorita? 
"Senhorita?"
"Você não tem aliança na mão esquerda, então..."
"Entendo. Então já olhou para a minha mão. Logo, se interessou por mim." Ela estava brincando com a cara dele. E acho que ele não se encomodou muito devido ao seu sorriso idiota no rosto novamente. Homens...
"Na-não. Perdoe-me se a ofendi ou algo parecido. Olhei sem querer, perdoe-me." E agora havia ficado vermelho. Acho que de trinta e poucos só a idade, a cabeça... Ou melhor, o coração.
"Não se preocupe. Então, você vem sempre aqui?"
"Uau, partimos para as cantadas ruins."
"Não! Quis saber se vem sempre assistir ao pôr-do-sol. Meu Deus, eu não estava te cantando!" E ele riu, aquelas risadas pequenas e gostosas de se escutar. Tão gostosa que a fez sorrir.
"Eu entendo, só queria deixá-la sem graça. Bom, venho sempre que posso. Sabe como é, trabalho e tudo mais."
"Perdoe-me a intromissão, mas deixa teu trabalho o impedir de presenciar esse espetáculo maravilhoso?" Ela estava certa. Ele era um idiota. Ele gostava tanto e como pode ser tão idiota a ponto de deixar de assistir algo tão estonteante por causa do seu trabalho estúpido?
"Tudo bem. Mas é complicado. Mas veja, estou aqui agora."
"Mas sabe-se lá quando irá voltar."
"Mas e você, vem sempre aqui?"
"Agora é você com as cantadas ruins." Ela sorriu e olhou para o mar. Seus cabelos começaram a voar de acordo com o vento, o que não deixou que ele tirasse os olhos dela. "Venho sim."
"Nunca a vi por aqui."
"Talvez não esstivesse olhando direito."
"E por que hoje a encontrei?"
"Eu vim falar com você, não esqueça."
"E por que?"
"Talvez porque hoje deixou que eu o visse. Talvez esteja precisando que alguém o veja." Sorriram.
"É, mais ou menos isso."
E então, em questão de segundos, o Sol se foi. Ficaram ali olhando o céu escurecer.
"Na verdade, eu já havia o visto antes."
"E por que nunca falou comigo?"
"Não pareceu precisar de companhia."
"Sempre estou precisando de companhia."
"Por que?"
"Será porque todo mundo sempre precisa?!"
"Não, não creio que seja por isso."
"Muita gente reclama de não ter o que quer e, muitas vezes, o  que desejam é sempre mais. É errado querer um pouco menos do que se tem?"
"Não há nada de errado em querer sempre mais. Nunca vi ninguém querer de menos, mas confesso que te entendo."
"Mesmo?"
"É. Algumas vezes a gente precisa perder o que temos, seja para mais ou para menos, para aprender o valor do que tínhamos."
"Eu sei. Sinto-me mal por isso. Acredite, sou grato e muito. Mas queria que minha vida fosse de outro alguém, de alguém que realmente a aproveitasse e fosse feliz com ela."
"Eu entendo, mas talvez não esteja desfrutando do que tem da maneira correta. Olhe a sua volta, veja o que tem, o que pode ter. E aprenda a olhar não só com os olhos, mas com o coração."
"Acho que por isso a vi hoje."
"Por que?"
"Acredita em amor à primeira vista?"
"Hã?"
"Olhe, eu nunca havia acreditado, não até agora."
"Eu nem sei seu nome."
"Olá, meu nome é alguém-apaixonado-pelo-seu-sorisso. E o seu?"
"Alguém-que-te-observa-a-tempos-e-gosta-do-que-vê."


I'll sing it one last time for you
Then we really have to go
You've been the only thing that's right
In all I've done
(Run - Snow Patrol)