9 de outubro de 2011

Antes de o sol nascer em Copa.

"Esqueça, senhorita, entupir-se de culpa já não adianta nessa idade. Não querendo ofendê-la, pois nem sei se passa dos vinte e cinco, mas culpar-se por tudo é coisa de adolescente, não acha? Não se preocupe, pois tu não recebes fardo maior que o que podes carregar. Portanto, moça, pare de reclamar."
E foi isso que consegui dizer aquela moça de olhos cor de mel. Talvez ela estivesse um pouco embriagada, afinal, eram apenas cinco e meia da manhã quando ela apareceu no calçadão da minha linda Copa e sentou-se no banco, entre mim e Drummond. Ela não tinha uma aparência muito boa, de quem havia tomado banho ou simplesmente de alguém que havia vindo olhar o mar. Talvez fosse uma dessas adultas metidas a adolescentes que estivesse voltando de uma boa noite de balada. Talvez estivesse sido expulsa de casa por estar grávida. Ou talvez tivesse ido tentar afogar as mágoas de sempre e uns bons copos de vodka pura. É, acho que foi isso. No entanto, foi um tanto engraçado o jeito como chegara. Meio cambaleando e trocando as pernas, até deu bom dia para meu amigo Drummond. Para mim? Oh, não, não ganhei nem um "olá". E então pediu licença a ele e sentou-se de frente para o mar, assim como eu estava. Olhou para mim e metralhou um "a vida é uma merda". Ora, eu não merecia um bom dia? Tenho sempre que começar o dia com reclamações alheias? Por que diabos não recebo um bom dia? E então vi-me reclamando. Oras, eu não era de reclamar. 
"Acho que discordo." Disse mesmo, afinal, a vida não é uma merda, por favor, é até gentil de mais. 
"Meu amigo, você está, exatamente as cinco e trinta e dois, sentado no banco de Copa, olhando o mar, em vez de estar dormindo. Quer me dizer que a vida é boa para você?"
"Olhe, moça, não sou eu que cheiro a bebida, tenho uma má aparência e ainda disse bom dia a uma estátua."
"Olhe, moço," - Ora vejam, soltara, agora, uma sátira. - "talvez eu prefira dar bom dia a uma estátua, a dar bom dia a um ser humano medíocre."
E foi assim que ela me pegou. Ela estava certa, de certa, porém estranha, forma. O ser humano tornou-se algo tão... não-humano. 
"Perdoe-me, moça, pela ignorância. De onde vem?"
"Sou daqui mesmo, meu senhor."
"Oh, não sou tão velho assim, por favor. Porém quis dizer onde passou a noite, já que não fora em sua casa, permita-me dizer."
"Velho de alma tu és!"
"Sou nada, o que é isso? Não lhe estou ofendendo, moça."
"Nem eu, perdoe-me. Acho que bebi um bocado, sabe, acordei aqui perto. Não lembro de muita coisa, hoje ainda é terça-feira?"
"Contando que já tenha passado de meia-noite, senhorita, já é quarta."
"Oh! é verdade."
"Moras aqui perto?"
"Moro por aí, se é que me entende."
"Entendo em parte, todavia sei como se sente."
"Bem, meu rapaz, sinto-me bem."
"Está certa disso?"
"É tão visível assim?"
"Não, não se preocupe, só quem já passou por isso reconheceria."
"Ah, ainda bem."
"Se bem que nunca encontrei por esse Rio de Janeiro inteiro alguém que não tivesse passado por."
"Estou encrencada."
"Mas não se preocupe, moça, se passaram por isso, sabem das consequências, ninguém a julgará por isso."
"Sei não, o ser humano tem se tornado tão hipócrita, que é capaz de julgar até mesmo uma pessoa como ele."
"Verdade, não lhe tiro a razão. Mas fique tranquila, nesse quesito, não vejo quem há de se intrometer."
"Olhe, moço, não é querendo ser chata nem nada, porém estamos falando da mesma coisa?"
"Claro, sofres de amor, estou certo?"
"Não, sofro de distância."
"O que não deixa de ser a mesma coisa."
"É, pode ser que sim." Ela inclinou-se para trás e sorriu para Drummond. "Esse aqui sim, é feliz. Observa esse calçadão todos os dias, vinte e quatro horas por dia. Não sofre por nada."
"Às vezes tem seu óculos furtado e, assim, impedido de ver a linda Copa."
"Vê? Até dele, meu Deus, até de uma estátua. Já não sei onde esse mundo irá parar."
"Não se preocupe, se quiser segui-lo, não correrá muito, pois ele não vai muito longe."
"Ao menos se as pessoas sofressem menos por amor. Por distâncias. Como diz Caio, por lonjuras. Às vezes acho que não vou suportar, entende? É dolorido, moço, e é dor constante também. E queima! Arde! Pega fogo, e não há lágrimas que apague. Não há vodka, não há bebida alguma que seja capaz de apagar o fogo dessa dor que sinto por estar tão distante."
"E de quem estais tão distante, moça, que chega a doer desta maneira?"
"De mim, moço, ando tão distante de mim..."