Tem feito um frio encantador por esses dias que tem se esvaído por entre os rombos que a vida tem me causado. E só percebi agora, que também faz frio dentro de mim.
Talvez se eu me despir e for olhar o céu do lado de fora, não sentiria tanto frio, em vista que sinto mais frio quando estou só.
Não faz ideia de como o som da tua risada causa-me arrepios, principalmente quando vem acompanhada de um ou dois sorrisos doces deste que você dá quando me olha nos olhos. Tenho um apreço um tanto confortante por essa sua mania de encarar a vida como uma colher deliciosa de brigadeiro. Branco, que é o teu predileto. Encara a vida como quem encara uma criança recém-nascida, com aqueles olhos encantadores e aquele sorriso bobo. Clichê, não discordo, pois essas caras e bocas que o ser humano tem mania de fazer quando encara uma criança é um tanto problemática. Mas vê-se de perto que é um encanto danado. E é assim que enxergas a vida, menino, como uma criança. Gosto bastante do modo que canta p’ra mim quando nos deitamos. Porém gosto especialmente quando me abraça apertado, beija-me a nuca e dorme com o rosto cravado em meu pescoço. Por esse momento cujo passa tão depressa, sinto-me invencível. A vida é um tanto engraçada, em vista que nunca sabemos realmente como será o dia seguinte, por mais rotineiro que sejamos. Dormimos sabendo o que ocorrerá na manhã seguinte e no decorrer de todo o dia. E então nos deparamos com um acontecimento um tanto quanto desconfortante, que tira de baixo de nós o chão, e põe o mundo inteiro em nossas cabeças. E frágeis humanos como somos, não o suportamos e desabamos. E é assim que me sinto hoje, arruinada. Pensei muito antes de exteriorizar o que sinto, pois alguma parte de mim sabia que faltaria algua coisa quando o fizesse. E falta. Falta tanto nessas palavras fracassadas, com essa caligrafia um tanto quanto infantil. Não falta você ou eu. Nem falta amor. Falta nós. É, o nós que a vida nos deu, faz falta. Muita falta...
Já não há você ao amanhecer, ou ainda, quando chega a Lua. Já não há você pela tarde, reclamando do frio da cidade. Já não existe você em toda parte do meu quarto. Não há mais você sorrindo p'ra mim. Não há você mais, ou eu, ou nós. Penso que não haja nada que não tenha por nome solidão. Você trouxe p'a mim o anil do arco-íris, menino, mas levaste todo o resto. Quem diabos traz felicidade e depois pega de volta? A vida é um tanto injusta, penso, e tenho cada vez mais convicção disso.
Perdeu-se o sentido de tudo. Perdeu-se tudo. Mas não reclamo tanto, em vista que também perdi toda e qualquer chance de sentir. E sentir, embora seja bom e prazeroso, dói quando não se sabe o que sentir.