24 de outubro de 2011

Amor de liquidificador.

Com as fotos amareladas, foram-se os sorrisos roubados nas noites de chuva infinita. E junto deles meu amor, que já tão ferido andava por seus descuidos em breves noites de dor. E, perdoe-me a ignorância, mas causaste em mim ânsias de felicidade constantes. No entanto, meu bem, como toda ânsia, estas não duravam tanto quanto as sensações em que eu buscava. E buscava quase sempre em meio as noites de lágrimas, que era quando mais precisava de afeto. E sabes que não é qualquer um. O seu, meu amor, era – ou ainda é – o único de que preciso. E o tive toda vez em que precisei, não posso negar, mas temos que concordar em ao menos uma coisa, meu menino, afeto não é amor. Mas talvez houvesse amor em meio a tantos sentimentos no liquidificador. Talvez, digo, pois tão confuso eras, meu príncipe – e devo dizer que amo recordar-te desta forma -, que fazia dos nós que a vida nos dava, nós cegos. Tão cegos que já não podíamos enxergar o amor em meio a tanta coisa. E então, perdeu-se tudo. Lembra-se das fotos que se amarelaram com o tempo e que com o tempo se foram? Foi-se com elas toda a minha capacidade de sentir quaisquer pontinha de afeto-barra-amor. E então vi-me despida de sentimentos e, de repente, meu benzinho, despir-me de roupas em noites perdidas com você e para você pareceu-me muito simples e fácil diante da falta de sentimentos que tem me rondado por noites a fora. E então peguei-me desejando uma daquelas noites de calor infinito, um sofá pequeno e o céu coberto de estrelas. O breu tomando conta de cada canto do nosso cantinho. E o único som presente seria o da sua voz rouca cantando-me minha canção predileta do mês ao pé do ouvido. Seu sorriso destacado em meio a escuridão se misturava com o meu em meio aos beijos que me dava certas vezes. E lá estaríamos nós, enroscados no sofá feito nós que não desatam. Provando cada pedacinho de cada dia que ganhamos. Amando-nos como a primeira vez que o fizemos. Dormindo, sonhando. Lembrando de que noites como esta nunca mais aconteceriam, simplesmente porque já não existe mais nós na vida. O nós que havia, desatara. E não sobrara nada, exceto meu amor infinito e atado p'ra sempre em meu coração. 

21 de outubro de 2011

Por onde anda minha pequena arco-íris?

Tem feito um frio encantador por esses dias que tem se esvaído por entre os rombos que a vida tem me causado. E só percebi agora, que também faz frio dentro de mim. 

Talvez se eu me despir e for olhar o céu do lado de fora, não sentiria tanto frio, em vista que sinto mais frio quando estou só.

Não faz ideia de como o som da tua risada causa-me arrepios, principalmente quando vem acompanhada de um ou dois sorrisos doces deste que você dá quando me olha nos olhos. Tenho um apreço um tanto confortante por essa sua mania de encarar a vida como uma colher deliciosa de brigadeiro. Branco, que é o teu predileto. Encara a vida como quem encara uma criança recém-nascida, com aqueles olhos encantadores e aquele sorriso bobo. Clichê, não discordo, pois essas caras e bocas que o ser humano tem mania de fazer quando encara uma criança é um tanto problemática. Mas vê-se de perto que é um encanto danado. E é assim que enxergas a vida, menino, como uma criança. Gosto bastante do modo que canta p’ra mim quando nos deitamos. Porém gosto especialmente quando me abraça apertado, beija-me a nuca e dorme com o rosto cravado em meu pescoço. Por esse momento cujo passa tão depressa, sinto-me invencível. A vida é um tanto engraçada, em vista que nunca sabemos realmente como será o dia seguinte, por mais rotineiro que sejamos. Dormimos sabendo o que ocorrerá na manhã seguinte e no decorrer de todo o dia. E então nos deparamos com um acontecimento um tanto quanto desconfortante, que tira de baixo de nós o chão, e põe o mundo inteiro em nossas cabeças. E frágeis humanos como somos, não o suportamos e desabamos. E é assim que me sinto hoje, arruinada. Pensei muito antes de exteriorizar o que sinto, pois alguma parte de mim sabia que faltaria algua coisa quando o fizesse. E falta. Falta tanto nessas palavras fracassadas, com essa caligrafia um tanto quanto infantil. Não falta você ou eu. Nem falta amor. Falta nós. É, o nós que a vida nos deu, faz falta. Muita falta...

Já não há você ao amanhecer, ou ainda, quando chega a Lua. Já não há você pela tarde, reclamando do frio da cidade. Já não existe você em toda parte do meu quarto. Não há mais você sorrindo p'ra mim. Não há você mais, ou eu, ou nós. Penso que não haja nada que não tenha por nome solidão. Você trouxe p'a mim o anil do arco-íris, menino, mas levaste todo o resto. Quem diabos traz felicidade e depois pega de volta? A vida é um tanto injusta, penso, e tenho cada vez mais convicção disso. 

Perdeu-se o sentido de tudo. Perdeu-se tudo. Mas não reclamo tanto, em vista que também perdi toda e qualquer chance de sentir. E sentir, embora seja bom e prazeroso, dói quando não se sabe o que sentir. 

9 de outubro de 2011

Antes de o sol nascer em Copa.

"Esqueça, senhorita, entupir-se de culpa já não adianta nessa idade. Não querendo ofendê-la, pois nem sei se passa dos vinte e cinco, mas culpar-se por tudo é coisa de adolescente, não acha? Não se preocupe, pois tu não recebes fardo maior que o que podes carregar. Portanto, moça, pare de reclamar."
E foi isso que consegui dizer aquela moça de olhos cor de mel. Talvez ela estivesse um pouco embriagada, afinal, eram apenas cinco e meia da manhã quando ela apareceu no calçadão da minha linda Copa e sentou-se no banco, entre mim e Drummond. Ela não tinha uma aparência muito boa, de quem havia tomado banho ou simplesmente de alguém que havia vindo olhar o mar. Talvez fosse uma dessas adultas metidas a adolescentes que estivesse voltando de uma boa noite de balada. Talvez estivesse sido expulsa de casa por estar grávida. Ou talvez tivesse ido tentar afogar as mágoas de sempre e uns bons copos de vodka pura. É, acho que foi isso. No entanto, foi um tanto engraçado o jeito como chegara. Meio cambaleando e trocando as pernas, até deu bom dia para meu amigo Drummond. Para mim? Oh, não, não ganhei nem um "olá". E então pediu licença a ele e sentou-se de frente para o mar, assim como eu estava. Olhou para mim e metralhou um "a vida é uma merda". Ora, eu não merecia um bom dia? Tenho sempre que começar o dia com reclamações alheias? Por que diabos não recebo um bom dia? E então vi-me reclamando. Oras, eu não era de reclamar. 
"Acho que discordo." Disse mesmo, afinal, a vida não é uma merda, por favor, é até gentil de mais. 
"Meu amigo, você está, exatamente as cinco e trinta e dois, sentado no banco de Copa, olhando o mar, em vez de estar dormindo. Quer me dizer que a vida é boa para você?"
"Olhe, moça, não sou eu que cheiro a bebida, tenho uma má aparência e ainda disse bom dia a uma estátua."
"Olhe, moço," - Ora vejam, soltara, agora, uma sátira. - "talvez eu prefira dar bom dia a uma estátua, a dar bom dia a um ser humano medíocre."
E foi assim que ela me pegou. Ela estava certa, de certa, porém estranha, forma. O ser humano tornou-se algo tão... não-humano. 
"Perdoe-me, moça, pela ignorância. De onde vem?"
"Sou daqui mesmo, meu senhor."
"Oh, não sou tão velho assim, por favor. Porém quis dizer onde passou a noite, já que não fora em sua casa, permita-me dizer."
"Velho de alma tu és!"
"Sou nada, o que é isso? Não lhe estou ofendendo, moça."
"Nem eu, perdoe-me. Acho que bebi um bocado, sabe, acordei aqui perto. Não lembro de muita coisa, hoje ainda é terça-feira?"
"Contando que já tenha passado de meia-noite, senhorita, já é quarta."
"Oh! é verdade."
"Moras aqui perto?"
"Moro por aí, se é que me entende."
"Entendo em parte, todavia sei como se sente."
"Bem, meu rapaz, sinto-me bem."
"Está certa disso?"
"É tão visível assim?"
"Não, não se preocupe, só quem já passou por isso reconheceria."
"Ah, ainda bem."
"Se bem que nunca encontrei por esse Rio de Janeiro inteiro alguém que não tivesse passado por."
"Estou encrencada."
"Mas não se preocupe, moça, se passaram por isso, sabem das consequências, ninguém a julgará por isso."
"Sei não, o ser humano tem se tornado tão hipócrita, que é capaz de julgar até mesmo uma pessoa como ele."
"Verdade, não lhe tiro a razão. Mas fique tranquila, nesse quesito, não vejo quem há de se intrometer."
"Olhe, moço, não é querendo ser chata nem nada, porém estamos falando da mesma coisa?"
"Claro, sofres de amor, estou certo?"
"Não, sofro de distância."
"O que não deixa de ser a mesma coisa."
"É, pode ser que sim." Ela inclinou-se para trás e sorriu para Drummond. "Esse aqui sim, é feliz. Observa esse calçadão todos os dias, vinte e quatro horas por dia. Não sofre por nada."
"Às vezes tem seu óculos furtado e, assim, impedido de ver a linda Copa."
"Vê? Até dele, meu Deus, até de uma estátua. Já não sei onde esse mundo irá parar."
"Não se preocupe, se quiser segui-lo, não correrá muito, pois ele não vai muito longe."
"Ao menos se as pessoas sofressem menos por amor. Por distâncias. Como diz Caio, por lonjuras. Às vezes acho que não vou suportar, entende? É dolorido, moço, e é dor constante também. E queima! Arde! Pega fogo, e não há lágrimas que apague. Não há vodka, não há bebida alguma que seja capaz de apagar o fogo dessa dor que sinto por estar tão distante."
"E de quem estais tão distante, moça, que chega a doer desta maneira?"
"De mim, moço, ando tão distante de mim..."