29 de novembro de 2011

Próxima Parada, Encontro.

Os olhos eram de um breu infinito, tal como fica meu quarto quando o coração dói. E até mesmo quando sorri. Nos lábios não tinha nada, nem o mínimo sinal de batom. Ou sorrisos. Até um cantarolar baixo procurei, como se na melodia possivelmente existente escondesse alguma dor - ou desamor . Mas não havia nada. Tinha o nariz arrebitado; a pele branca e quase sem nenhuma manchinha, e algumas pintas no pescoço, foi só o que pude notar. Estava vestida como algumas vezes anteriores que a vira. Calça, uma blusa escura e tênis. Algumas vezes mudava a cor da blusa para marrom, ou bege. Até já a vi de rosa, bem clarinho. Foi só uma vez. Mas não a vi muito mesmo, acho que não passou de quatro. Mas não precisou de mais que a primeira para deixar-me encantado. Seus cabelos eram longos, tinham a cor do meu brigadeiro de panela. Estavam quase sempre atrás da orelha, onde suspeito que além de esconder os cabelos, escondia os sorrisos perdidos e o coração. Menina esperta, essa. 

Dias atrás 
"Oi."
(Silêncio)
"Olá!"
(Silêncio)
"Estou falando com você."
(Silêncio)
"Ela é surda-muda." - Disse uma voz atrás de mim. Era o cobrador. 
"Perdão?"
"Ela não escuta e não fala."
"Eu entendi."
Cutuquei-a e disse "Olá" na linguagem de sinais. Eu havia aprendido um pouco com uma ex-professora de geografia do colégio. Ela correspondeu, o que me fez sorrir. Disse que não sabia muitas coisas na linguagem de sinais. Ela só virou para a frente. 

Poucos dias atrás.
No dia seguinte, lá estava ela. Disse "Olá" outra vez, mas dessa não obtive resposta. 
Procurei alguns livros de sinais na biblioteca da faculdade. Não haviam muitos, mas eram o suficiente. 

Dois dias atrás.
Sentei-me no ônibus e lá estava ela novamente, no mesmo lugar, com a mesma falta de sorriso. Disse "Olá" novamente e nada. Então perguntei se estava tudo bem. Ela disse sim. Perguntei seu nome. Acho que disse que era segredo. Perguntei quantos anos tinha, ela disse vinte e um. 

Ontem.
Quando subi no ônibus e procurei por seus olhos negros, não os achei. Sentei-me e esperei que subisse na próxima parada. Nada. Havia aprendido mais algumas coisas. Na verdade, sabia bastabte para tão pouco tempo. Queria conversar com ela.

Hoje de manhã, às 08:46.
Subi e olhei. Lá estava ela. Sentei ao seu lado e disse o "Olá" dos outros dias. Mas não esperei que respondesse, fui falando várias coisas que aconteceram no dia anterior, ao menos o que eu podia, e perguntei porque não havia vindo ontem. Ela disse que foi ao médico. Perguntei se estava tudo bem e ela respondeu que sim. E então ela disse seu nome, sem que eu precisasse perguntá-lo. Era Carmem. "Bonito nome! Sabe, Carmem, esses teus olhos me encantam como a solidão. E não faz idéia do quanto essa moça solidão me encanta.". Nada, como eu já esperava. Quando ia descer, segurei seu dedo e disse, em sinais, que não esperava a hora de vê-la novamente. E foi aí que ela sorriu. E foi aí que a gravidade parou de me prender aqui e deixou que ela o fizesse. 

11 de novembro de 2011

Desassossega-me.

E quem diria, moço, depois de tanto esperar, de tanto enganar-me, de tanto bater-me com o coração, você. Você, moço, que com esses olhos miúdos e um sorriso provocante, tomou-me o que chamam por aí de sanidade. Arrancou-me, pedaço por pedaço, o pouco que restava de qualquer coisa parecida com amor. Mas, primeiro, tomou-me em seus braços, beijou-me os lábios como se fossem doce, cantarolou músicas quase todas as noites em que dormimos abraçados. Demonstrou-me amor, planejou, comigo, um nós de um futuro que, ao meu ver, não demoraria para chegar. Só que sempre há uma coisa em que costumo - e é um costume um tanto quanto iconveniente - esquecer. Ao meu ver, tudo é fácil, bonito. Romantizo tudo ao meu redor, que é pra dar mais doçura à vida. Que é pra deixar tudo um pouco mais fácil, mais poético, mais fácil de se interpretar. Mas é aí que tudo se embola, se confunde, se desfaz. Quase sempre essa minha mania inconveniente desata algum nó que, junto com a vida, dei com o tempo. Atei bem apertado, que era pra não desfazer-se facilmente, assim, como tem acontecido por esses dias difíceis e amargos. Passei a tomar café sem açúcar, aliás, que é pra igualar à vida. Eu sei, eu sei. Café, para mim, só do vovô. Mas é que o vô se fora, lembra? Senti saudade do cafézinho dele e fiz um dia desses. Não ficou nada parecido, adimito, mas bateu uma nostalgia, anjo. Ah!, que saudade. Aquele velhinho faz falta, ein. Lembro bem de quando ele bebia uns copos a mais de cerveja e brincava comigo. Dizia para nunca arrumar um namorado, pois os homens não prestam. E depois, quando sóbrio, pedia desculpas e dizia o quanto queria ver-me casando. Velho doido! Saudades... Sinto saudade do teu sorriso também, moço, tanto tempo que não ganho o dia como quando ganhava com teus sorrisos matinais. Davam-me a mais pura e inocente felicidade, aqueles teus sorrisos. Tão doces, menino, tão cheios de amor. Faziam meus olhinhos brilharem, lembra-se? Eu lembro, quase sempre, de quando pegava-me no colo e corria pela casa. E então jogava-me na cama e fazia-me cócegas. Já não rio daquele jeito há tempos, viu? Percebe a falta que faz, meu rapaz? Roubaste de mim o que me restara da sobriedade, da inocência, do amor que, há muito - antes de trazer-me de volta e então me tirar, não havia nada. Há muito, meu coração pede por carinho, pelo mínimo afeto possível. E então apareceu-me você, moço bonito, do estrangeiro, com a barba por fazer e um par de olhos doces e escuros. Um sorriso encantador, um sotaque enlevador e um amor, rapaz, um amor inexistente. Posso resumir nossa história em algumas palavras, se me permitir. "Trouxe-me felicidade grande, um sorriso - quase sempre - presente. Um riso alto, escandaloso, feliz. Um amor, pela vida, inimaginável. E uma dor, rapaz, ah!". Ainda dói, moço, meu coração ainda anda se reconstruindo depois do estrago que fizera. Ele anda meio triste com você, moço, talvez devesse passar e dizer um "olá!". Talvez devesse passar, sentar, tomar um pouco do meu café sem açúcar - que ainda é para igualar-se à vida, e ficar. Você pode me ajudar a reconstituir o coração que quebrara tempos atrás. Trazer, de novo, aqueles sorrisos que me roubara. E o amor, menino, que roubaste de mim, pode trazer também. Talvez você se arrependa de ter ido, vendo como meu café é ruim e como meu sorriso não existe quando não está. É, você pode ficar, moço, mas só se não for partir de novo. Só se não for tirar de mim a paz que consegui mesmo sem você aqui.

7 de novembro de 2011

O reflexo do amor contido em silêncio.

Procura encantar - quase sempre - tudo que a envolta. E quase tudo a confunde, menino, pois vive com a cabeça nas nuvens. Mas encanta, devo-lhe dizer, meu bom moço. Encanta maravilhosa e encantadoramente. Teus olhinhos de um azul cor do céu, de um brilho como duas estrelas e de uma grandeza como a Lua. Olhinhos não, são duas pedras, portas, portais, para o paraíso. É só piscá-los e pronto, enfentiça o mundo. O pequeno e complexo mundinho dele. Ela o enleva, o gira, o envolta. Bagunça teu quarto, cabelo, vida. Bagunça tudo até você se acostumar com a bagunça. E, meu bem, quando acostuma-se com a bagunça dessa moça, não há limpeza que a conserte. Mantenha teus olhos fechados pra que teu encanto não o encante, encanto. Mantenha teus lábios selados para que sua voz não o agonize de prazer; tuas mãos nos bolsos pra que as dela não o puxe para o amor. Amor, esse, que arranca de ti sorrisos notáveis, risos estonteantes, abraços sufocantes, lágrimas duradouras. E tristes, devo ressaltar. Quando joga aqueles cabelos ao vento, meu rapaz, corra e os prenda. São como cordas, como laços. São como nós cegos, difíceis de desatar quando o enlaça e o ata em si, em ti, na cama. Tem cheiro de chuva, de grama molhada, de manhã de domingo sem compromissos. Tem cheiro de comida de mamãe, do café do vovô. Tem cheirinho de bebê após o banho, de fim de tarde, de amor. E aquela pele, Deus!, aquela pele cheia de manchinhas engraçadas, de pintinhas bonitinhas e agradáveis. Repleta de arrepios constantes, de prazeres contidos, de amor revelado.


(Guarda, em cada mancha, um pedacinho quebrado do coração.)


Ele beija cada mancha que pode, que se pode ver ou tocar. Sorri para ela como se fosse o último e único modo de demonstrá-la amor. Sorri com os olhos, com o coração, com amor. E não há nada que faça que não venha seguido por um beijo, daqueles que mal se encosta os lábios, porém o que mais lhe faz tremer as pernas. Ele sabe amá-la, moço, vê-se pelo olhar. Os olhos dele brilham feito águas cristalinas do mar quando ela sorri. É, moço, tem amor de sobra, esse menino. Tem amor p'ros dois, e não vá duvidar. Mas sabe de uma coisa, moço? Creio que ela também o ame. Veja esses olhos - sim, as portas para o paraíso - veja como se exaltam e repuxam nos cantos quando sorri. Veja como aquelas covinhas ressaltam teu sorriso quando o vê. Ela tem amor imenso por ele, moço, vê-se pelo olhar. E pelas mãos trêmulas que, mesmo quando ele as segura, parece que faz um tremendo frio dentro dela. Olhe, moço, olhe o modo como ela põe a mão em sua perna, como se pudesse prendê-lo a ela para sempre. Acho que, se pudesse, viveria segurando-o pelas roupas para que não fugisse. Dá para ver que ama recostar a cabeça em seu peito, veja como o faz com graciosidade. Tão sutil, essa menina. Ele ri da meiguice dela, tão doce, ela. Tanta doçura pra tanta dor. Vê-se de longe que ele é algum tipo de porto seguro, sabe? Como se a qualquer momento ela pudesse desabar, mas não aconteceria, pois ali estaria ele. Talvez seja isso mesmo, nunca parei para pensar. Mas sabe de uma coisa que sei, meu rapaz? Eles se amam, vê-se pelo espelho.

4 de novembro de 2011

Candura de cantar amor.

Remanescer, talvez, seja o mesmo que rarear. Quando se trata de amar, quase tudo ganha-se o mesmo sinônimo. 

Remanesce ainda, pequena, meu amor jogado aos lençóis, para não dizer ao vento, esperando você voltar e dizer: remanesce você em mim. E de toda candura que te cerca, menina, tens, por cerca, o coração gelado pra te proteger. Então nada diz. 

Leve esse sorriso leve pra longe do vento molhado, pra longe da água que lava a alma. Pois ela lava sorrisos inocentes também.

Eu compro a tinta que quiser, mudo a cama de lugar, faço tua comida predileta pro jantar. Assisto o teu time perder, beijo você pra te consolar. Fico quieto pra você dormir, acordo-te com beijos ao amanhecer, prendo-lhe na cama só mais um pouquinho antes de trabalhar. Rio das suas piadas, só pra não te deixar sem graça. Eu pinto o teu rosto com beijos, faço uma escultura do teu corpo com o meu. Invento uma arte diferente, aquela que todo mundo sente, que tem por nome amar. Então vem e diz, minha menina, que o que remanesce em você é o amor que tens por mim. Que espera que eu volte e te puxe p'ro meu peito toda noite, que lhe cante uma canção de ninar impovisada e misturada com teu teatro de carência. Que te ame a noite inteira e todo o resto. Tudo bem amar, menina, então tudo bem sonhar também. Não sinta-se acanhada por sentir amor por mim, e não é querendo me gabar nem nada, mas teus olhos tem um brilho encantador quando me olha. Eu posso até me acostumar com o teu jeito meio louco, com quando passa a mão na cabeça quando está nervosa. Posso até me acostumar com teu ciúme bobo, mas, por Deus!, menina, não irei, jamais, acostumar-me com a falta que me faz. Então não se preocupe, a saudade faz parte do pacote amor. Amor é como música. Ora nos fazem chorar, ora nos fazem rir. E talvez choremos mais que sorrimos, qual o problema? Lágrima é melodia, é aroma de flor. Lágrima é aquilo que acontece quando se tem, no sorriso, amor. 

E te canto um sorriso doce, feito o som do seu olhar. Canto-te meu abraço, tão presente em meu sonhar. E a música, talvez, eu fale ao pé do teu ouvido, bem baixinho, abraçando-te apertado, fazendo-te sorrir com os olhos e cantar, com os olhos fechados e um sorriso nos lábios, nossa canção de amar. E canto, vez ou outra também, teu mais belo pensar, que quando pensa em mim, flutua feito pena. Mas pena é estar tão distante quando o que preciso, é do teu pensar. Do teu achar, do teu amor. Pena é estar tão longe, mesmo logo aqui ao lado, enquanto beijo-te o ombro, mas com a cabeça lá. Sabe-se lá onde, menina, mas um lá maior. Tão enorme, tão gigante. Tão lá, tão pouco mim. Tão lá, tão só. Tão sem dó de mim aqui, menina, cantando-te canções de ninar, sem ter você p'ra embalar, p'ra errar a letra, p'ra dormir depressa, sem pressa de sonhar. Sem você aqui p'ra olhar, em mim, paz gigante, estonteante calma que me cerca, mas só quando estais acerca de mim.

(E, moça, tudo é vazio - perdoe-me o clichê - sem você.)


Cá estou, moça bonita, com meus olhos marejados de lágrimas, com meu coração afogando-se em amor. Amor esse que sorri p'ro mundo, canta p'ro vento, embala teu corpo e te põe p'ra dormir. Amor que faz encantar, com o olhar, todo um mundo. O meu mundo.  Amor esse que te puxa p'ra perto, enche-te de beijo, ama-te e ama-te. Amar-te é fácil, menina, como cantarolar uma música bonita qualquer, que me faça lembrar do teu riso em meio a noites de dor, quando digo, — seja o que Deus quiser. Saudade é a pétala de flor murcha na mesa de cabeceira. É o último segundo da música predileta tocando na rádio, é o cinco minutinhos quando se tem que acordar. Saudade é gozo do amor sentido, que quando não a tem, é nulo.

Saudade é sintoma de amor sussurrado, bem quietinho, trancado no quarto, sorrindo p'ro céu. Saudade é a inocência de amar errado, de querer o pouco, de contentar-se com o nada, é candura de cantar amor.

Não cante, não grite, não fale. Sussurre teu amor só p'ra mim, menina. Tudo ganhou ouvidos e mentes maldosas. Não fale, não grite, não cante. Sussurre teu amor ao pé do meu ouvido, grito em ti tudo o que sinto, sem deixar que ninguém escute. Sussurre, em meio aos nossos beijos, teu amar por mim, que canto bem baixinho, madrugada a fora, dentro de ti, todo o meu achar sobre o amor que tens por mim. Que canto, num sussurro miúdo, minha canção de amor por ti.