Os olhos eram de um breu infinito, tal como fica meu quarto quando o coração dói. E até mesmo quando sorri. Nos lábios não tinha nada, nem o mínimo sinal de batom. Ou sorrisos. Até um cantarolar baixo procurei, como se na melodia possivelmente existente escondesse alguma dor - ou desamor . Mas não havia nada. Tinha o nariz arrebitado; a pele branca e quase sem nenhuma manchinha, e algumas pintas no pescoço, foi só o que pude notar. Estava vestida como algumas vezes anteriores que a vira. Calça, uma blusa escura e tênis. Algumas vezes mudava a cor da blusa para marrom, ou bege. Até já a vi de rosa, bem clarinho. Foi só uma vez. Mas não a vi muito mesmo, acho que não passou de quatro. Mas não precisou de mais que a primeira para deixar-me encantado. Seus cabelos eram longos, tinham a cor do meu brigadeiro de panela. Estavam quase sempre atrás da orelha, onde suspeito que além de esconder os cabelos, escondia os sorrisos perdidos e o coração. Menina esperta, essa.
Dias atrás
"Oi."
(Silêncio)
"Olá!"
(Silêncio)
"Estou falando com você."
(Silêncio)
"Ela é surda-muda." - Disse uma voz atrás de mim. Era o cobrador.
"Perdão?"
"Ela não escuta e não fala."
"Eu entendi."
Cutuquei-a e disse "Olá" na linguagem de sinais. Eu havia aprendido um pouco com uma ex-professora de geografia do colégio. Ela correspondeu, o que me fez sorrir. Disse que não sabia muitas coisas na linguagem de sinais. Ela só virou para a frente.
Poucos dias atrás.
No dia seguinte, lá estava ela. Disse "Olá" outra vez, mas dessa não obtive resposta.
Procurei alguns livros de sinais na biblioteca da faculdade. Não haviam muitos, mas eram o suficiente.
Dois dias atrás.
Sentei-me no ônibus e lá estava ela novamente, no mesmo lugar, com a mesma falta de sorriso. Disse "Olá" novamente e nada. Então perguntei se estava tudo bem. Ela disse sim. Perguntei seu nome. Acho que disse que era segredo. Perguntei quantos anos tinha, ela disse vinte e um.
Ontem.
Quando subi no ônibus e procurei por seus olhos negros, não os achei. Sentei-me e esperei que subisse na próxima parada. Nada. Havia aprendido mais algumas coisas. Na verdade, sabia bastabte para tão pouco tempo. Queria conversar com ela.
Hoje de manhã, às 08:46.
Subi e olhei. Lá estava ela. Sentei ao seu lado e disse o "Olá" dos outros dias. Mas não esperei que respondesse, fui falando várias coisas que aconteceram no dia anterior, ao menos o que eu podia, e perguntei porque não havia vindo ontem. Ela disse que foi ao médico. Perguntei se estava tudo bem e ela respondeu que sim. E então ela disse seu nome, sem que eu precisasse perguntá-lo. Era Carmem. "Bonito nome! Sabe, Carmem, esses teus olhos me encantam como a solidão. E não faz idéia do quanto essa moça solidão me encanta.". Nada, como eu já esperava. Quando ia descer, segurei seu dedo e disse, em sinais, que não esperava a hora de vê-la novamente. E foi aí que ela sorriu. E foi aí que a gravidade parou de me prender aqui e deixou que ela o fizesse.