11 de novembro de 2011

Desassossega-me.

E quem diria, moço, depois de tanto esperar, de tanto enganar-me, de tanto bater-me com o coração, você. Você, moço, que com esses olhos miúdos e um sorriso provocante, tomou-me o que chamam por aí de sanidade. Arrancou-me, pedaço por pedaço, o pouco que restava de qualquer coisa parecida com amor. Mas, primeiro, tomou-me em seus braços, beijou-me os lábios como se fossem doce, cantarolou músicas quase todas as noites em que dormimos abraçados. Demonstrou-me amor, planejou, comigo, um nós de um futuro que, ao meu ver, não demoraria para chegar. Só que sempre há uma coisa em que costumo - e é um costume um tanto quanto iconveniente - esquecer. Ao meu ver, tudo é fácil, bonito. Romantizo tudo ao meu redor, que é pra dar mais doçura à vida. Que é pra deixar tudo um pouco mais fácil, mais poético, mais fácil de se interpretar. Mas é aí que tudo se embola, se confunde, se desfaz. Quase sempre essa minha mania inconveniente desata algum nó que, junto com a vida, dei com o tempo. Atei bem apertado, que era pra não desfazer-se facilmente, assim, como tem acontecido por esses dias difíceis e amargos. Passei a tomar café sem açúcar, aliás, que é pra igualar à vida. Eu sei, eu sei. Café, para mim, só do vovô. Mas é que o vô se fora, lembra? Senti saudade do cafézinho dele e fiz um dia desses. Não ficou nada parecido, adimito, mas bateu uma nostalgia, anjo. Ah!, que saudade. Aquele velhinho faz falta, ein. Lembro bem de quando ele bebia uns copos a mais de cerveja e brincava comigo. Dizia para nunca arrumar um namorado, pois os homens não prestam. E depois, quando sóbrio, pedia desculpas e dizia o quanto queria ver-me casando. Velho doido! Saudades... Sinto saudade do teu sorriso também, moço, tanto tempo que não ganho o dia como quando ganhava com teus sorrisos matinais. Davam-me a mais pura e inocente felicidade, aqueles teus sorrisos. Tão doces, menino, tão cheios de amor. Faziam meus olhinhos brilharem, lembra-se? Eu lembro, quase sempre, de quando pegava-me no colo e corria pela casa. E então jogava-me na cama e fazia-me cócegas. Já não rio daquele jeito há tempos, viu? Percebe a falta que faz, meu rapaz? Roubaste de mim o que me restara da sobriedade, da inocência, do amor que, há muito - antes de trazer-me de volta e então me tirar, não havia nada. Há muito, meu coração pede por carinho, pelo mínimo afeto possível. E então apareceu-me você, moço bonito, do estrangeiro, com a barba por fazer e um par de olhos doces e escuros. Um sorriso encantador, um sotaque enlevador e um amor, rapaz, um amor inexistente. Posso resumir nossa história em algumas palavras, se me permitir. "Trouxe-me felicidade grande, um sorriso - quase sempre - presente. Um riso alto, escandaloso, feliz. Um amor, pela vida, inimaginável. E uma dor, rapaz, ah!". Ainda dói, moço, meu coração ainda anda se reconstruindo depois do estrago que fizera. Ele anda meio triste com você, moço, talvez devesse passar e dizer um "olá!". Talvez devesse passar, sentar, tomar um pouco do meu café sem açúcar - que ainda é para igualar-se à vida, e ficar. Você pode me ajudar a reconstituir o coração que quebrara tempos atrás. Trazer, de novo, aqueles sorrisos que me roubara. E o amor, menino, que roubaste de mim, pode trazer também. Talvez você se arrependa de ter ido, vendo como meu café é ruim e como meu sorriso não existe quando não está. É, você pode ficar, moço, mas só se não for partir de novo. Só se não for tirar de mim a paz que consegui mesmo sem você aqui.