Faltavam cinco minutos para meia-noite. As pessoas já começaram a correr para lá e para cá, procurando os parentes mais próximos. Algumas já até desejavam felicidades. Outras, apenas continuavam o que estavam fazendo. E, assim como eu, haviam aquelas que saiam andando, quase correndo, para qualquer lugar vazio que houvesse. Chorar, talvez, fosse o que eu precisava. Mas não o faria, não para depois ter que dar explicações desnecessárias e - aos olhos dos outros - sem motivos. Percebi que já era meia-noite quando ouvi o que parecia uma multidão dizendo "Feliz Natal", quase em coro. E essas duas palavrinhas iam se repetindo e repetindo e repetindo. Eu abaixei minha cabeça e coloquei-a entre os joelhos. As lágrimas foram completamente impossíveis de serem barradas. Logo toda a minha perna estava enxarcada e a maqueagem - que fora colada a força em meu rosto - desmanchada. Coloquei-me de pé e escapei para a rua. O posto de gasolina da esquina estava fechado, assim como a padaria e o bar da frente. Haviam muitos carros e nenhuma pessoa. Via luzes piscando e vozes ao longe. Arranquei os saltos cor-de-rosa dos pés e corri.
Corri
Tropecei
Caí. E lá fiquei. Não havia quem me ajudasse e, absurdamente desesperada por solidão, não quis que houvesse. Levantei e continuei, agora caminhando, minha jornada à qualquer lugar distante por aí. Em uma mão havia meus sapatos; na outra, um ralado da queda. Continuei andando até perceber que eu não estava tão sozinha como o imaginado. E então parei. Virei para que pudesse ver com clareza e lá estava, um indivíduo andando a poucos metros de mim. E que também parou, assim que parei.
- Com licença? - disse ele - Está toda suja e machucada. Está tudo bem?
Claro! Em plena madrugada de Natal, eu, que tinha nos joelhos e mãos e braços pequenos arranhões e o resto do corpo sujo pela calçada molhada, agora em companhia de um indivíduo aparentemente educado. Só não me venham com espírito de Natal.
- Sim, está tudo bem. Obrigada. - E então eu continuei a caminhar, e acho que ele também. Parei novamente. - Olhe só, moço, eu estou à procura de um lugar e eu, realmente, queria procurar este lugar sozinha, se não se importa.
- E que lugar seria, senhorita?
- Aho que não lhe diz respeito. - Ora essa, rapaz metido.
- Tem certeza de que não quer companhia, moça? A rua está escura e vazia e tem acontecido muita violência por essas áreas, na verdade. - E então ele parou ao meu lado e me olhou. Sorriu pequeno, desses sorrisos que gente apaixonada se encanta de primeira. Gente como eu.
- Eu não o conheço e eu, realmente, queria continuar minha caminhada sem ser importunada.
- Não irei importuná-la, senhorita, apenas acompanhá-la. - E então ele levantou os olhos em direção aos meus. Eram pretos e grandes. Tinham um brilho parecido com... com... Ora essa, era brilhoso, apenas.
- Tudo bem, então. Se não irá perturbar-me, tudo bem. - E então continuei minha caminhada, agora nem tão sozinha assim. Era desconfortável andar com um estranho ao meu lado, ainda mais quando sentia seus olhos nos meus.
- Qual seu nome, senhorita? - Quebrou o silêncio. Eu gostava daquele silêncio.
- Não acho que importa, rapaz.
- Chamo-me Vicente, moça.
- Gostaria muito de lhe dizer que é um prazer conhecer-te, Vicente, mas não o conheço.
- Não importa, senhorita. É um prazer estar aqui e fazer-te companhia.
- Tudo bem. - E então parei. Por que é que ele não estava com a família, assim como quase todos os que acreditam? - O que fazes aqui, Vicente, não deveria estar com a família?
- Eu sou ateu, moça, não há significado para mim. - Ele parou a minha frente e olhou para mim. - E a senhorita, também?
- Não, não. Eu não sou atéia, mas também não tenho religião. Eu só não... gosto muito dessa coisa de Natal e abraços e, enfim... essa coisa toda.
E então ele ficou quieto, pensativo. Sentou-se na calçada e fitou o outro lado da rua. Não havia nada lá para ser observado. Sentei-me ao seu lado.
- Chamo-me Carolina, a propósito. - E então sorri para ele. Ele olhou-me com um sorriso torto nos lábios, um tanto discreto. Fitou meus olhos e não o vi piscar por quase um minuto, juro. Seus olhos eram doces e, por um momento, sem querer, imaginei qual seria o gosto dos teus lábios. Doces ou amargos? Eu queria, realmente, saber.
- Bonito nome, o seu, moça. Bonito nome. - E ele continuou repetindo a última frase, só que agora um pouco mais baixo, até parar de vez.
- O seu também, Vicente, muito bonito.
- Obrigado, moça. Por que está toda machucada?
- Ah, isso? Eu caí pouco tempo atrás, enquanto corria por aí.
- Brincando de pega-pega, moça?
- É, só que na brincadeira só estava eu e essa maldita sensação de que tudo vai ter fim, e logo. E acho que perdi, na verdade, quando caí.
- Não perdeu, não, moça. Está aí, viva. Com alguns ralados, claro, mas nada que um bom banho não cure. Aliás, o que estava procurando?
- Bom, não sei bem, na verdade. Um lugar calmo e seguro, talvez. Prefiro estar sozinha que estar em meio a uma multidão e continuar sozinha.
- Concordo com a senhorita. Na verdade, gosto dessa coisa de solidão.
- Eu também! Sabe, sinto-me mais feliz quando estou só.
- É, mas... Sabe, moça, certas vezes, solidão demais não faz bem.
- É, concordo. Eu estaria sozinha agora, se não fosse você, Vicente.
- E ainda não queria minha companhia... - Então ele sorriu, de novo. Olhou-me, agora bem no fundo dos olhos.
- Obrigada pela companhia, Vicente. Muito obrigada.
Sorri para ele e saiu como quando a gente pisca, sem querer. Acho que foi um sorriso bonito, só sei que foi doce. E sei que os lábios dele eram doces, também, pois assim que sorri ele me beijou. E foi, de longe, o beijo mais estranho que tive. Mas foi, de longe, o mais triste e bonito. Ele se levantou, pegou minha mão direita e a beijou. Disse que já podia ir, pois eu já havia encontrado meu local seguro e calmo.
- Feliz Natal! - Disse ele.
E então ele se foi e desapareceu no breu da rua quase que em um bater de asas do beija-flor. Eu fiquei lá, sentada na calçada. E ainda não tinha encontrado meu lugar calmo e seguro como havia dito, mas eu estava bem. Já não haviam lágrimas em meus olhos e nem vontade de sair correndo. Voltei para a festa onde estava e todos perguntaram o que havia acontecido. Inventei uma mentira qualquer. No dia seguinte, quando peguei o jornal para ler, havia, na primeira página, a foto de um procurado pela polícia. Ele havia assassinado cinco mulheres. Ninguém sabia seu nome. Apenas eu. Era Vicente e o seu sorriso doce que, como eu já havia dito, qualquer apaixonada se encantaria.