25 de dezembro de 2011

Vicente e seu sorriso de luzes de Natal.

Faltavam cinco minutos para meia-noite. As pessoas já começaram a correr para lá e para cá, procurando os parentes mais próximos. Algumas já até desejavam felicidades. Outras, apenas continuavam o que estavam fazendo. E, assim como eu, haviam aquelas que saiam andando, quase correndo, para qualquer lugar vazio que houvesse. Chorar, talvez, fosse o que eu precisava. Mas não o faria, não para depois ter que dar explicações desnecessárias e - aos olhos dos outros - sem motivos. Percebi que já era meia-noite quando ouvi o que parecia uma multidão dizendo "Feliz Natal", quase em coro. E essas duas palavrinhas iam se repetindo e repetindo e repetindo. Eu abaixei minha cabeça e coloquei-a entre os joelhos. As lágrimas foram completamente impossíveis de serem barradas. Logo toda a minha perna estava enxarcada e a maqueagem - que fora colada a força em meu rosto - desmanchada. Coloquei-me de pé e escapei para a rua. O posto de gasolina da esquina estava fechado, assim como a padaria e o bar da frente. Haviam muitos carros e nenhuma pessoa. Via luzes piscando e vozes ao longe. Arranquei os saltos cor-de-rosa dos pés e corri. 
Corri
Tropecei
Caí. E lá fiquei. Não havia quem me ajudasse e, absurdamente desesperada por solidão, não quis que houvesse. Levantei e continuei, agora caminhando, minha jornada à qualquer lugar distante por aí. Em uma mão havia meus sapatos; na outra, um ralado da queda. Continuei andando até perceber que eu não estava tão sozinha como o imaginado. E então parei. Virei para que pudesse ver com clareza e lá estava, um indivíduo andando a poucos metros de mim. E que também parou, assim que parei. 
- Com licença? -  disse ele -  Está toda suja e machucada. Está tudo bem?
Claro! Em plena madrugada de Natal, eu, que tinha nos joelhos e mãos e braços pequenos arranhões e o resto do corpo sujo pela calçada molhada, agora em companhia de um indivíduo aparentemente educado. Só não me venham com espírito de Natal.
- Sim, está tudo bem. Obrigada. - E então eu continuei a caminhar, e acho que ele também. Parei novamente. - Olhe só, moço, eu estou à procura de um lugar e eu, realmente, queria procurar este lugar sozinha, se não se importa.
- E que lugar seria, senhorita?
- Aho que não lhe diz respeito. - Ora essa, rapaz metido.
- Tem certeza de que não quer companhia, moça? A rua está escura e vazia e tem acontecido muita violência por essas áreas, na verdade. - E então ele parou ao meu lado e me olhou. Sorriu pequeno, desses sorrisos que gente apaixonada se encanta de primeira. Gente como eu. 
- Eu não o conheço e eu, realmente, queria continuar minha caminhada sem ser importunada.
- Não irei importuná-la, senhorita, apenas acompanhá-la. - E então ele levantou os olhos em direção aos meus. Eram pretos e grandes. Tinham um brilho parecido com... com... Ora essa, era brilhoso, apenas.
- Tudo bem, então. Se não irá perturbar-me, tudo bem. - E então continuei minha caminhada, agora nem tão sozinha assim. Era desconfortável andar com um estranho ao meu lado, ainda mais quando sentia seus olhos nos meus. 
- Qual seu nome, senhorita? - Quebrou o silêncio. Eu gostava daquele silêncio.
- Não acho que importa, rapaz.
- Chamo-me Vicente, moça.
- Gostaria muito de lhe dizer que é um prazer conhecer-te, Vicente, mas não o conheço. 
- Não importa, senhorita. É um prazer estar aqui e fazer-te companhia.
- Tudo bem. - E então parei. Por que é que ele não estava com a família, assim como quase todos os que acreditam? - O que fazes aqui, Vicente, não deveria estar com a família?
- Eu sou ateu, moça, não há significado para mim. - Ele parou a minha frente e olhou para mim. - E a senhorita, também?
- Não, não. Eu não sou atéia, mas também não tenho religião. Eu só não... gosto muito dessa coisa de Natal e abraços e, enfim... essa coisa toda. 
E então ele ficou quieto, pensativo. Sentou-se na calçada e fitou o outro lado da rua. Não havia nada lá para ser observado. Sentei-me ao seu lado. 
- Chamo-me Carolina, a propósito. - E então sorri para ele. Ele olhou-me com um sorriso torto nos lábios, um tanto discreto. Fitou meus olhos e não o vi piscar por quase um minuto, juro. Seus olhos eram doces e, por um momento, sem querer, imaginei qual seria o gosto dos teus lábios. Doces ou amargos? Eu queria, realmente, saber. 
- Bonito nome, o seu, moça. Bonito nome. - E ele continuou repetindo a última frase, só que agora um pouco mais baixo, até parar de vez. 
- O seu também, Vicente, muito bonito.
- Obrigado, moça. Por que está toda machucada?
- Ah, isso? Eu caí pouco tempo atrás, enquanto corria por aí.
- Brincando de pega-pega, moça?
- É, só que na brincadeira só estava eu e essa maldita sensação de que tudo vai ter fim, e logo. E acho que perdi, na verdade, quando caí. 
- Não perdeu, não, moça. Está aí, viva. Com alguns ralados, claro, mas nada que um bom banho não cure. Aliás, o que estava procurando?
- Bom, não sei bem, na verdade. Um lugar calmo e seguro, talvez. Prefiro estar sozinha que estar em meio a uma multidão e continuar sozinha.
- Concordo com a senhorita. Na verdade, gosto dessa coisa de solidão.
- Eu também! Sabe, sinto-me mais feliz quando estou só. 
- É, mas... Sabe, moça, certas vezes, solidão demais não faz bem.
- É, concordo. Eu estaria sozinha agora, se não fosse você, Vicente. 
- E ainda não queria minha companhia... - Então ele sorriu, de novo. Olhou-me, agora bem no fundo dos olhos.
- Obrigada pela companhia, Vicente. Muito obrigada. 
 Sorri para ele e saiu como quando a gente pisca, sem querer. Acho que foi um sorriso bonito, só sei que foi doce. E sei que os lábios dele eram doces, também, pois assim que sorri ele me beijou. E foi, de longe, o beijo mais estranho que tive. Mas foi, de longe, o mais triste e bonito. Ele se levantou, pegou minha mão direita e a beijou. Disse que já podia ir, pois eu já havia encontrado meu local seguro e calmo. 
- Feliz Natal! - Disse ele.
E então ele se foi e desapareceu no breu da rua quase que em um bater de asas do beija-flor. Eu fiquei lá, sentada na calçada. E ainda não tinha encontrado meu lugar calmo e seguro como havia dito, mas eu estava bem. Já não haviam lágrimas em meus olhos e nem vontade de sair correndo. Voltei para a festa onde estava e todos perguntaram o que havia acontecido. Inventei uma mentira qualquer. No dia seguinte, quando peguei o jornal para ler, havia, na primeira página, a foto de um procurado pela polícia. Ele havia assassinado cinco mulheres. Ninguém sabia seu nome. Apenas eu. Era Vicente e o seu sorriso doce que, como eu já havia dito, qualquer apaixonada se encantaria. 

21 de dezembro de 2011

Certa noite, enquanto eu sonhava com você...

Coloriu os lábios com batom avermelhado. Pintou os olhos de cor de céu à noite e contornou os olhos de breu. Pôs seu mais bonito pijama, deitou-se na rede da varanda e pôs-se a ler teu melhor livro. 

(talvez não fosse o melhor, mas era o que lhe cabia naquela noite)

Ouvia de longe uma melodia tão doce, tão confortável que teve seus olhos fechados. Não conseguia abri-los, então entregou-se à noite. As estrelas iluminavam o céu juntamente da lua nova. A chuva caia devagar, leve, fina. Seu corpo inteiro se arrepiou com o vento que batia leve. Puxou as pernas para si, abraçando-as. Em outras noites, teria tido o corpo coberto por cobertores. Inúmeros deles. Mas tal época se fora. Hoje tens que dormir ao relento, ou então em sua cama, em seu quarto aconchegante, mas que a levaria lembranças desconfortáveis. Dormir ao relento, talvez, não fosse tão ruim. Dormir sob estrelas e ao lado da chuva, também não. E assim foi, por noites seguidas. E em uma dessas noites, tal como a anterior, enquanto dormia ao relento, sob lua cheia e poucas estrelas e nenhuma chuva, quando teve seu corpo tomado por arrepios causados pelo frio fino, teve teu corpo levado para dentro. Coberto por outro corpo, tão quente, esse, que a fez agarrá-lo. E disse, ainda de olhos fechados, talvez até mesmo dormindo: não vá embora outra vez. 

8 de dezembro de 2011

Se eu não tivesse olhos ou um coração batendo, ainda seríamos nós dois.

If I lay here, If I just lay here,
would you lie with me and just forget the world?

Talvez o fim seja apenas um começo. Ou talvez seja mesmo o fim. De nós, do que somos e quem somos. E a continuidade de todo o resto, sem nós.

Quando os olhos se fecham, o que nos dão, a princípio, é nada. Tolos, aqueles que acham isso. Quando os olhos se fecham, o que nos dão, a princípio e todo o resto, é o mundo. Fechar os olhos não é apenas adormecer ou uma ação involuntária do nosso corpo. É querer conhecer o que não nos é permitido com estes abertos. Ao fechar os olhos, temos tanto que nada enxergamos com medo do que há a nossa espera. Somos tão estúpidos e arrogantes que, ao fechar os olhos, sentimos como se não houvesse nada. E imaginamos, quase todos os dias, o que há de ser de nós quando chegar o fim. "Será tudo escuro!". Talvez devêssemos agradecer se for, realmente, tudo um breu danado. Há coisa melhor que fechar os olhos? Permitem-me reformular a pergunta. Há coisa melhor que fechar os olhos e ter o mundo com estes fechados? Mas é claro. Tolos, são os que disseram que não. Não somos loucos de permanecer de olhos fechados o resto da vida. Sozinhos. Fechar os olhos, ter o mundo com estes fechados e poder dividi-lo. Isso, não há coisa melhor que isso. Deitar à beira do mar à meia-noite de um dia qualquer. Observar as estrelas até que as pálpebras ganhem força e caiam sobre nossos olhos. Arrastar a mão até uma mais próxima e agarrá-la com a força de um alguém desesperado por companhia eterna. E, de alguma forma que minha capacidade não permite ousar explicar, dividir com ela todo o seu mundo, de olhos fechados. Abrí-los, se for mesmo necessário fazê-lo, só tarde do dia seguinte. Não há o que perder quando estamos aprendendo a sobreviver num mundo em que não conhecemos, pois ainda habitamos um mundo onde é preciso abrir os olhos para vê-lo. Para vive-lo. 

No entanto, lá está o dia onde vemos se aprendemos tudo suficientemente bem, para então podermos exercer tudo aquilo que nos foi ensinado, de olhos fechados. Quando os olhos se fecham, agora num período mais longo, nos dão o nosso mundo, aquele que construímos cada vez que tivemos nossos olhos fechados, voluntaria ou involuntariamente. Lá está ele, do jeito em que construímos, com aquela pessoa em que escolhemos construir. Entende o porquê de ser quase necessário uma mão sobre a nossa? Não há quem habite um mundo só e sobreviva. Não há quem viva uma vida inteira de olhos abertos sozinha e viva uma vida inteira de olhos fechados tendo uma mão para segurar e caminhar no fim de tarde. 

Talvez o fim seja mesmo o fim, do mundo de olhos abertos. E seja a continuidade de um mundo às escuras para os que vêem de fora, mas cheio de cor para os que o habitam. 

6 de dezembro de 2011

Seja rosa ou carmim, senti saudades de ti.

E a moça, que de forma alguma chamava-se Capitu, roubou-lhe um beijo nos lábios. Seus  olhos fecharam-se por um milésimo de segundos e, mesmo antes de abri-los, a moça já tinha disparado, deixando-lhe apenas o gosto dos teus lábios rosados. E então passou a sonhar, dia e noite, com aqueles lábios da moça-que-não-sabia-o-nome, mas que não era sua Capitu. E essa moça, ele acreditava, gostava das coisas boas da vida. De sair por aí alegrando o dia de todo coitado que visse à sua frente. Não que saísse beijando qualquer um que visse, mas acreditava que o fazia com os menos coitados que encontrava. Essa moça era dona de um belo par de olhos negros, um sorriso emoldurado por lindos lábios rosados e um beijo de encantar qualquer um. E ele, moço carente, com certa saudade no peito de tempos que talvez não voltariam, de certa moça que, com certeza, não voltaria. Encantar-se por tal sorriso e tal beijo tão doce era de se esperar. O que não era de se esperar foi o fato de esquecer, quase por completo, a moça que, essa sim, chamava-se Capitu. Seus sonhos, agora, eram da moça dos lábios cor-de-rosa. Do par de olhos breu e de sorriso enlevador. E a moça, a não-Capitu, voltou no dia seguinte e roubou-lhe mais um beijo. E no outro, e no outro. Sempre em milésimos de segundos. Sempre sem deixá-lo que visse nada além do que seus olhos e boca. Como pôde se apaixonar por um beijo, Deus!, um beijo. Ou em um beijo. Não sabia ao certo. Talvez os dois. O que sabia era que já não pensava tanto na moça que também já não recordava mais o nome, mas que não era a de lábios rosados.  O que sabia, mas só passou a saber depois do beijo que o encantou, era que amores só se vão com novos amores, e os que dizem que vão com o tempo são pessoas chatas e que não se permitem amar. Mas o que não sabia, também, era se a moça, que de forma alguma tinha lábios rosados e, sim, carmim, tinha o esquecido. Talvez não tivesse. Talvez trocar carmim por rosa nem sempre seja uma boa escolha. E vai saber o nome daquela moça, que só o que tinha eram seus beijos vez ou outra. Mas não da moça de lábios carmim. Dela tinha tudo, até seu amor. Eu, a única coisa que sei, é que amor não se esquece com um beijo diferente, afinal, amores não são esquecidos. O que se esquece são suas características, e até nomes. Mas não creio que o tenha esquecido. Esse moço carente, que sentia tanta saudade de sentir a saudade dela por ti, não gosta, nem nunca gostou, de rosa. Ele sentia saudade dos seus lábios carmim. Da moça, que de forma alguma chamava-se não-se-sabe-o-nome, mas sim, Capitu.