E a moça, que de forma alguma chamava-se Capitu, roubou-lhe um beijo nos lábios. Seus olhos fecharam-se por um milésimo de segundos e, mesmo antes de abri-los, a moça já tinha disparado, deixando-lhe apenas o gosto dos teus lábios rosados. E então passou a sonhar, dia e noite, com aqueles lábios da moça-que-não-sabia-o-nome, mas que não era sua Capitu. E essa moça, ele acreditava, gostava das coisas boas da vida. De sair por aí alegrando o dia de todo coitado que visse à sua frente. Não que saísse beijando qualquer um que visse, mas acreditava que o fazia com os menos coitados que encontrava. Essa moça era dona de um belo par de olhos negros, um sorriso emoldurado por lindos lábios rosados e um beijo de encantar qualquer um. E ele, moço carente, com certa saudade no peito de tempos que talvez não voltariam, de certa moça que, com certeza, não voltaria. Encantar-se por tal sorriso e tal beijo tão doce era de se esperar. O que não era de se esperar foi o fato de esquecer, quase por completo, a moça que, essa sim, chamava-se Capitu. Seus sonhos, agora, eram da moça dos lábios cor-de-rosa. Do par de olhos breu e de sorriso enlevador. E a moça, a não-Capitu, voltou no dia seguinte e roubou-lhe mais um beijo. E no outro, e no outro. Sempre em milésimos de segundos. Sempre sem deixá-lo que visse nada além do que seus olhos e boca. Como pôde se apaixonar por um beijo, Deus!, um beijo. Ou em um beijo. Não sabia ao certo. Talvez os dois. O que sabia era que já não pensava tanto na moça que também já não recordava mais o nome, mas que não era a de lábios rosados. O que sabia, mas só passou a saber depois do beijo que o encantou, era que amores só se vão com novos amores, e os que dizem que vão com o tempo são pessoas chatas e que não se permitem amar. Mas o que não sabia, também, era se a moça, que de forma alguma tinha lábios rosados e, sim, carmim, tinha o esquecido. Talvez não tivesse. Talvez trocar carmim por rosa nem sempre seja uma boa escolha. E vai saber o nome daquela moça, que só o que tinha eram seus beijos vez ou outra. Mas não da moça de lábios carmim. Dela tinha tudo, até seu amor. Eu, a única coisa que sei, é que amor não se esquece com um beijo diferente, afinal, amores não são esquecidos. O que se esquece são suas características, e até nomes. Mas não creio que o tenha esquecido. Esse moço carente, que sentia tanta saudade de sentir a saudade dela por ti, não gosta, nem nunca gostou, de rosa. Ele sentia saudade dos seus lábios carmim. Da moça, que de forma alguma chamava-se não-se-sabe-o-nome, mas sim, Capitu.