Eis que surge o som. As luzes se acendem lentamente, deixando seus olhos em todo lugar. A mente se afasta de si e viaja para todo e qualquer canto, mesmo os não vistos. Os olhos veem casais se beijando, crianças brincando ou roubando docinhos, velhinhos que não sabem dançar. Ou não lembram. Adultos que mais parecem quando pequenos e meninos e meninas tão maduros quantos seus avós. Há a moça de azul turquesa e o rapaz de lilás. Há um bebê chorando por peito e uma criança puxando a barra do vestido da mãe. Há olhos arregalados e risadas escandalosas. Há sorrisos discretos e abraços sem jeito. Há um copo meio cheio de vinho e outro que não para vazio. Há cerveja derramada na toalha e refresco fingindo ser bigode. Há dança que finge existir. Há o balanço tímido dos pés e pernas que não sossegam. Há aqueles que se vão, tão cedo, e os que parecem ali morar. Há os que acabam de chegar. O menino que deixou o pirulito cair e a moça que não para de querer um. Há amassos escondidos que deveriam ser censurados. Há sorrisos. E gritos. Há a preocupação no rosto da senhora de marfim e zelo no do senhor de cinza. Há luzes. E velas. E flores que mais parecem borboletas. E mais luzes. Há o som ensurdecedor e a música que toca devagar, mesmo sem existir. Há o som dos sorrisos e das risadas. Há o som dos sapatos batendo no chão e dos tapinhas nas costas. Há lágrimas. Despedidas de até breve que parecem ser eternas. Há as que deveriam parecer. Há acenos e beijos no rosto. Muito mais na boca. Há discussões que parecem luta livre e há as que parecem declarações de amor. Há um rapaz de terno, gravata azul marinho e um sorriso branco de dar inveja. Seus olhos marejam acompanhando o andar da moça. Há a moça de branco, que tem os olhos marejados vendo os do rapaz acompanhá-la. Há um buquê azul. Há sinos tocando em suas cabeças. Há a vontade de dar as mãos, os pés, os braços e sair correndo. Há a vontade de se jogar no colo dele e a vontade de que ele aguente. Há os olhos se encontrando ao mesmo tempo em que as bocas. Há aplausos. Há risadas e choros que mais parecem risadas. Há uma chuva de sorrisos. E arroz. E coisas coloridas. Há uma chuva de amor. Há o buquê voando alto, cheio de pressa de cair. Há a felicidade voando para o colo de outro alguém. Há o contágio, a necessidade de compartilhar. Há tudo e não há nada. Há a moça cega que quer ver através de pequenos óculos negros. Mal sabe ela que a felicidade está chegando. E vem voando. E é azul.