A luz se apaga e o que fica são apenas restos de certa lucidez. Os olhos demoram a se acostumar com tamanho breu, enquanto o coração fica aliviado de estar, enfim, em casa. Os braços tremem de frio e as pernas se encolhem. Os olhos, antes perdidos, agora veem um vulto ou outro de saudade vagando pela casa. E então, em um súbito ato de medo do contágio, vê-se correndo de vestígios de lembranças de um tempo que, em seu âmago, sabia que não voltaria. Seus olhos fecharam depressa, com pressa de eliminar qualquer possibilidade de um rosto surgir à sua frente. No entanto, quem já conseguiu dominar a mente? Fechá-la depressa, mesmo antes de um beija-flor bater suas asas, mesmo antes de qualquer memória vir à tona? Inútil a tentativa de abortar más lembranças e memórias inconsequentes. Inúteis são, pois, em toda a existência do ser humano, não há aquele que realmente viveu sem ter o coração dilacerado ou enterrado ainda vivo. Não há aquele em que não teve os olhos marejados por infelicidades ou infidelidades, seja quais forem. Em toda a existência, não houve sequer um coração intacto, sem dores. Por que, então, seria o dela impermeável? O dela - o coração - é, no mínimo e no limite que posso ousar entender, resto do que realmente fora, um dia. Quando o sol a encorajava a ver o mar e celebrar a vida. Quando a chuva era motivo de êxtase, não de tristeza. Quando os sorrisos faziam-se presentes e os abraços eram aconchego. Quando as noites davam a impressão, não de que um dia se fora, mas, sim, de que um outro estaria por vir. O coração dela era resto de tudo o que poderia continuar sendo - se não fosse o maldito amor -, mas não foi. Coração que, agora, vê-se mais à vontade no breu do teu âmago ao clarão de seus olhos.