24 de janeiro de 2010

além das nuvens

        Garotinha, não seja tão deprimente (...) É, é realmente isso que me dizem. Às vezes tenho raiva, não por me chamarem de garotinha, mas por me pedir algo que eu não sei controlar. Acordo em uma manhã ensolarada, sem nenhuma nuvem no céu. E assim que me aproximo da janela, aquele sol impossivelmente brilhante some e as nuvens se expõem. A Chuva. Lentamente ela cai sobre a grama seca - agora já não tão seca assim - molhando o pequeno e amarelo balanço do jardim, onde eu costumava balançar-me quando pequena. Minhas defesas rapidamente são jogadas à grama, juntamente com as milhares de gotas de chuva, destruindo o mini-mundo que há em toda a extensão da grama verdinha. Olhando a chuva tomar conta de todo o céu e de todo o jardim, lembrando-me de minha infância, assim que um raio aparece de súbito no céu, de imediato volto ao presente, e aos meus problemas.         (...) Eu sei pelo que você está passando. Certamente, não. Vendo todas aquelas nuvens cinzas e medonhas no céu, e toda aquela chuva barulhenta, caindo sobre a grama, fui verificar. Chegando ao jardim, pisando descalço em toda a grama molhada, sentindo a chuva cair sobre minha cabeça, e num instante, encharcar toda a minha roupa, abri meus braços e olhei para o céu. De olhos fechados, eu vi a chuva cair sobre mim, e sem poder sentir, senti em meu rosto centenas de lágrimas amargas vindas, apenas, de meus olhos. De braços abertos e face molhada, não só pela chuva, ajoelhei-me apoiando as mãos na grama. Olhando para cada pedacinho verde, cada formiga, cada inseto insignificante, minhas lágrimas cessavam lentamente.         O céu sabe que ganhar cicatrizes só fazem de você o que você é. A cada mini-ser explorado na grama, a cada gota de chuva caída sobre minhas costas e a cada barulho de raios no céu, minhas lágrimas diminuíram ainda mais. Como se em toda a dor que eu sentia por deixar uma lágrima cair, como se na dor de ver o sol ir embora, e toda a tempestade invadir o dia, como se sobre tudo isso, eu encontrasse força, beleza. Não importava o quanto meu coração nublado estivesse doendo, eu via beleza em toda essa dor. Como se eu precisasse da dor para poder enxergar uma vida além da que eu conhecia, como se cada lágrima tivesse um motivo para existir, como se todas as lágrimas unidas, me fizessem não parar de acreditar em mim, de poder enxergar além do que as coisas aparentam ser. Como se as lágrimas me fizessem ver que além da dor, além das nuvens, sempre há um céu azul.              Música em itálico ( Broken - Lindsey Haun )