23 de janeiro de 2010

anjos, humanos.

        Certo dia, eu caminhava ao redor da pracinha perto de minha casa. Algumas folhas laranjas no asfalto umedecido pela chuva da noite interior, grudavam em meu chinelo também laranja. Não liguei. Continuando a minha caminhada e reparando o menor o possível dos detalhes ao meu redor. Olhando de novo para o meu caminho vejo uma criança a centímetros de mim, puxando-me pela barra de minha blusa. Estranhamente a olhei e abaixei-me para ficarmos a altura. Ela perguntou-me algo que eu jamais imaginei ter um dia que responder em minha vida. Talvez por ser uma pergunta que não tenha valor, sentido ou valor. Talvez jamais pensei em respondê-la porque eu talvez não saberia responder. "Você acredita em anjos?". Perplexamente imóvel agachada à sua frente eu fiquei. A vi voltando, montando em sua bicicleta e sair pedalando pelas ruas à dentro.
        Raramente, ou melhor, acho que nunca havia parado para pensar se eu acreditava em anjos ou não. Acho que nunca tive interesse nesse fenômeno, talvez por ter muito a ver com Deus, e eu, sinceramente, não ter a mínima curiosidade de saber sobre Deus. Talvez por realmente não haver evidências de que existem anjos, ou talvez eu saberia a resposta. Ou não.         Certamente, sim, a resposta é simples e complexa. Certamente eu saberia responder para alguém não tão jovem quanto a menininha, ou talvez eu não saiba responder para ninguém.         Sim, eu acredito em anjos. Não aqueles anjos vestidos totalmente de branco, com caixinhos dourados, harpas, e o essencial para estes anjos fictícios, as asas. As asas brancas e magníficamente lindas, simetricamente perfeitas e irreais. Não estes anjos que sempre, em alguma historinha para ninar um bebê, aparecem. Acredito sim, em anjos. Mas os anjos humanos. Humanos como eu, simples e reais. Não usam necessariamente roupas brancas, nem com caixinhos dourados, e tocam qualquer outro instrumento, não sendo harpa. Não tem asas, e não podem voar, mas com o seu coração me trazem algo único, o dom de amar.         Não há motivos para os anjos serem lindos e perfeitos, eles podem ser como eu, e ser mais anjo do que os anjos das nossas historinhas da infância. Eles podem ser mais bonitos do que estes anjos que se dizem perfeitos. Não tem o dom da música, mas o dom de trazer a nós a amizade, a paz, a sinceridade, o amor. Podem não estar por perto, podem estar a quilômetros de nós, mas não deixam de ser anjos por isso. Os anjos das histórias não descem do céu ? Porque os anjos humanos não podem nos proteger com o corpo distante do nosso, mas com o coração mais junto do que nós pensamos ?
Porque não, anjos humanos ?