24 de janeiro de 2012

Lugares proibidos.

E os lugares, mesmo que não tenha sido nós a criá-los, são nossos.

Flexionou os joelhos e beijou as costas da mão da moça. Então sorriu, ingênuo, ao sentir seus olhos nos dele. Ergueu-se novamente, procurando em seu olhar qualquer sinal de espanto com seu ato, e então logo sorriu, dando espaço ao alívio que o preenchera ao vê-la sorrir grande. Quis desejar boa noite, mas apenas deixou que seu sorriso falasse por ele. Afastou-se, ainda de costas para a calçada, sorrindo para ela como criança. Acenou, mas ela já havia desaparecido porta à dentro. Fitou o chão e suspirou, não deixando que o sorriso desaparecesse. Olhou a praça à sua volta e percebeu que não estava muito longe de casa. Sentou-se em um dos bancos desocupados e pôs-se a observar as crianças correndo de um lado para o outro, divertindo-se, enquanto divertia-se com seus sorrisos jogados ao vento e sendo trocados por risadas. Balões voavam por todo o lugar. No lugar do céu negro havia centenas de pontos coloridos e as estrelas, imperceptíveis aos olhos das pessoas. Havia pais desesperados correndo atrás de suas crianças, enquanto casais de idosos passeavam, calmamente, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Casais de namorados jovens amassavam-se em todo canto deserto que olhava. Ria divertida. Havia carrinhos de bebês, babás, meninos e meninos, velhos e velhas e solitários, assim como ele. Mas ao contrário de muitos solitários encontrados por aí, ele era um solitário contente. Não passavam das seis e trinta da noite e acabara de deixar sua acompanhante em casa. Certo de que era cedo, mas se quisesse levar aquilo a diante, deveria respeitar as regras impostas. Não ligava muito, afinal, pois gostava de ficar a sós à noite, tomando como aprendizado - ou inspiração - o que acontecia à sua volta. E o fazia quase sempre, pois vez ou outra gostava de jogar pedrinhas à janela de sua bela moça, mandá-la beijos escondidos e sorrisos repletos de amor. E quando não fazia nada disso, Vicente, o moço dos costumes antiquados, gostos suspeitos e enormes e diversos jeitos de amar, atrevia-se a desenhar. E seus desenhos não eram tão ruins, a propósito, eu mesmo já vi centenas. A maioria era de lugares. Cidades, praças, casas, jardins, terrenos baldios - que de acordo com ele eram mais cheios que nós mesmos -, países, lugares conhecidos e proibidos. Certa vez desenhara Nothing Hill, em Londres, fiquei tão extasiado que pedi que fizesse um para mim. E então me deu aquele, disse-me que não há repetições de desenhos, que os lugares não devem ser inúmeras vezes desenhados. Vicente tinha adoração pelo mundo, pelos lugares que foram criados e paridos, sabe-se lá pelo que. Gostava de admirar e desenhar tudo que via menos as pessoas que habitavam o lugar que via. Não gostava muito de pessoas, apesar de achá-las adoráveis e encantadoras. Pessoas, disse-me ele certa vez, tem a capacidade de mudar si próprias, outras pessoas e os lugares que tanto amo, enquanto esses lugares apenas existem. Foram criados, muitas vezes por pessoas, outras eu não sei, mas foram paridos e só, não há necessidade de mudança constante. E isso é o que as pessoas fazem com o mundo. A mudança do mundo não é necessária, o que é necessário é a mudança das pessoas. Para Vicente, cada pessoa no mundo tinha um lugar só seu, e esse lugar não poderia ser de mais ninguém. Perguntei a ele certa vez qual era seu lugar predileto. Ele continuou a me mostrar seus inúmeros desenhos. Vicente gostava de ser só e de ter a capacidade de amar tão imensamente aquela moça dos olhos azuis. Tratava-a como seus pais o ensinaram a tratar uma moça. Seu amor por ela, certamente menos que os lugares, o inspirava. Via beleza em todos os lugares que fosse, mas tendo-a em seu coração, conseguia ver muito mais que amor. Vicente via vontade de viver, alegria, tristeza, sorrisos, tudo isso em lugares distintos e muitas vezes inusitados. Vicente enxergava o que muitas pessoas não enxergariam nem em sonhos. Vicente enxergava além da aparêcia dos lugares, enxergava sua história e tudo o que já foi vivido ali. Extraia desses lugares sua inspiração, vontade e razão de vida. Vicente sentia amor e fazia amor com a vida, com seus inúmeros lugares. Seu namoro havia sido oficializado, agora poderia beijá-la algumas vezes e andar de mãos dadas. Poderia levá-la à sua casa meia hora mais tarde e ficar mais dez minutos assistindo a televisão. Vicente tinha o que muitos custavam a encontrar, e quando encontravam, perdiam fácil. Tinha uma bela moça amando-o e recebendo amor dele, tinha seu emprego e seu amor pelos lugares. Vicente tinha tudo o que já pôde querer, talvez até mais. Só havia um problema.
_ E então, qual seu lugar?
Vicente suspirou pesado, derrotado. Sua moça havia despencado do alto da montanha, junto com seu amor por lugares e todas suas conquistas.
_ Não sei.
_ Será possível?
_ Achei que fosse meu coração, até descobrir que não era o meu lugar, mas sim o dela.
_ Qual será o seu, então?
Olhou para o céu estrelado, suspirou algumas vezes e piscou algumas outras. Olhou-me com um sorriso derrotado, mas contente. Acho que seu amor pelos lugares não era maior que seu amor por ela, mas não me atrevi a dizê-lo, quem sabe ele não descubra sozinho.
_ Ela. 

17 de janeiro de 2012

Àquele que planta sorrisos em mim.

À você,
de não-importa-o-meu-nome.

Também não importa o quão inoportuna estou sendo mandando-lhe esta, pois lembro-me bem de quando disse "você nunca incomoda". Pois bem, cá estou. Poderia estar aí, no entanto, contento-me com essa distância que nossos corpos sempre gostaram de manter. Poderia acariciar-lhe o rosto e beijar-te os lábios, e então não seria necessária nenhuma carta como esta. Mas não há problema, como sabe, gosto mesmo de escrever-te coisas, sejam elas boas ou... nem tanto. Ontem à noite fez falta. Não, não, não. Não fora seus braços envolta de mim, ou sua boca percorrendo meu pescoço fazendo-me arrepiar. Sua voz, seu cantarolar ao meu ouvido, seus pés gelados e inexistentes junto aos meus. Você. É, fez falta. Não compreendo somente como consegui adormecer. Oh, espere!, adormeci logo depois do que pensei que fosse minhas lágrimas secando, mas acordei hoje e elas continuavam a escapar por meus olhos. Traiçoeiros, esses meus olhos castanhos. Também fora difícil acordar sem o seu bom dia habitual, e a sua mentira de cada dia dizendo-me o quão bonita sou, mesmo quando acabo de ter acordado. Mentiroso! Gostava dessa sua mentira, confesso-lhe. Ainda estou em meus pijamas, escrevendo-te, não sei bem o que será de mim esta tarde. Talvez eu faça algo de diferente, ou então continue olhando para os lados e pedindo silêncio para que eu possa escutar qualquer música tocando. Quem sabe não é você? Preciso continuar, não é mesmo? Mesmo sem você. Talvez você esteja fazendo o mesmo. Espere, o telefone tocou. Ah, não, não é você. Não sei bem como terminar esta, afinal ainda não sei nem o porquê comecei. Fez falta, a propósito, e ainda faz, ter-te em mim.

Bonitos sorrisos à você, pois só assim poderei sorrir também.

Au revoir, menino, au revoir. 

14 de janeiro de 2012

Coração adoentado, causado pela dor de amar errado.

Fez-se silêncio. Todo o quarto azul e branco pareceu tão grande a ponto de deixá-la perdida, mesmo que as outras pessoas estivessem ali presente. E lá estavam, em sua companhia, uma moça inteiramente vestida de verde claro, com o rosto apreensivo mas calmo; e a outra, vestida de branco, com as sobrancelhas franzidas e os lábios apertados. Essa última segurava sua mão, calma, como se pudesse passá-la um pouco de toda essa serenidade. Mas ela não podia. Ninguém podia. Ela arqueou as sobrancelhas, e então levantou apenas uma. E riu. Riu tão alto, tão exageradamente, que qualquer pessoa que ali passasse pensaria que ela tinha escutado uma piada, mas não. Ela havia escutado um diagnóstico. As duas outras pessoas a olharam, perplexas, sem saber, exatamente, do que estava rindo. E foi então que parou.
- Lúpus? O que é isso? É de comer?
- É uma doença autoimune, ou seja, em que o seu próprio sistema imunológico causa danos ao seu organismo.
- Sei o que é uma doença autoimume. Há cura, certo?
E então a doutora olhou a enfermeira, que repetiu o gesto. As três entreolharam-se até que a médica segurou ainda mais a mão do corpo feminimo deitado sob a cama de hospital. 
- Infelizmente, não. Mas há o controle da doença, o que pode permití-la ter uma vida normal.
Fez-se silêncio, desta vez mais longo.
- Quero ficar sozinha, se não se importarem.
E então a enfermeira saiu, deixando as outras duas sozinhas.
- Por favor.
- Já irei sair, apenas quero que saiba que tudo pode ficar bem. Caso precisa, é só chamar a infermeira. 
E então saiu, deixando sua paciente sozinha. Sorriu torto, como quem tenta dizer para si que está tudo bem. Mas está tudo bem, ela pensa, tudo bem. Talvez assim não tenha que viver, dia-a-dia, com a morte precoce do seu coração. E não importava o quão cedo sua morte física viria, ou tão tarde, seu coração já havia parado de bater há muito. Talvez não fosse certo, talvez. Mas ela agradeceu, em múrmurios, e desejou que não demorasse para que seus olhos se fechassem, dessa vez, para sempre.

9 de janeiro de 2012

Amor de flor, de dor, de fim.

Dos olhos ele lembrava bem, eram como o céu estrelado, e parecia que a noite não acabaria nunca. O sorriso era calmo, leve, andava devagar, exatamente como ele costumava fazer quando o dia estava bonito. Hoje já não o faz mais. E ela já não sorri. E seus sonhos, aqueles em que a via linda, elegante, descendo uma enorme escadaria, sorrindo devagar, grandiosa, já não existiam mais. E se pensas que era do teu sorriso e olhos que ele mais sentia saudades, está certo. Não há no mundo inteiro olhos e sorriso como os dela. Não há, em hipótese alguma, em qualquer lugar que seja, alguém como ela. E não há lugar no mundo - e você pode escolher qualquer um - que haja amor feito o dele. E não importa o quão clichê isso possa parecer, amor feito o dele não há. E não há nada que se possa fazer quando os olhos de uma moça lhe fazem sorrir e seu sorriso iluminam seus olhos. Apenas aceite que é tão humano quanto qualquer outro bobo apaixonado, pois estás amando, agora. E foi o que ele fez quando caiu, enlevado, por seus olhos profundos, cor de breu, mas imensamente encantadores. E quando ela sorriu seu melhor sorriso, talvez até de propósito, ele soube que quando diziam sobre amor, não era brincadeira. Piadas sobre amor são para os que não sabem amar, pensou. Pensou o quão idiota era de fazer piadas assim. Mas hoje, não. Hoje ele sorri a cada dia que amanhece, a cada sol que se põe e a cada noite que cai. Sorri só por saber que seus olhos e sorriso estarão sempre em seus sonhos, e não importa o quanto isso doe no dia seguinte, ele continuará amando-a, independente de haver, ou não, amor em troca. Pois amor, ele pensou, não requer reciprocidade em amar. Amor mesmo é quando você ama acima de qualquer coisa, mesmo que a pessoa não o ame, também. E era assim que ele a amava. Talvez ela nem soubesse de sua humilde existência. Tudo bem, ela sabia. E sabia de seu amor e talvez até o amasse, também. Nunca trocaram sequer uma palavra. Ele ficava de longe observando-a sorrir, observar os lugares, iluminar o mundo com seus olhos. Ela o observava observá-la, sorria quando ele olhava e piscava os olhos, encantada, quando ele sorria, vez ou outra sem querer. Vezenquando seus olhares se encontravam, seus rostos coravam e nenhuma palavra era dita. Novamente. Não foi preciso palavras para que o amor surgisse. Não foram necessários beijos ou amassos. Certa vez, suas mãos encostaram-se quando passaram um perto do outro, mas não houve um pedido de desculpas, ou um aceno qualquer. Houve uma troca de sorrisos discreta, brilho nos olhos e amor. Muito amor. E talvez isso parecesse insano aos olhos dos outros, do mundo exterior. Mas entre os dois, que nem seus nomes sabiam, era surpreendente. Pois amor, mesmo que seja algo tão indescritível, é amor. E o amor tem suas qualidades e defeitos, assim como tudo na vida. Mas eles enxergavam o amor de um jeito diferente, único, a dois, e que eu não me atrevo a tentar descobrir. Era estranho vê-los longe, de longe, trocando sorrisos pequenos, tortos, felizes. Certa vez quis apresentá-los um ao outro. Dizer seus nomes, fazer com que trocassem abraços ou apertos de mão. Mas quem sou eu, afinal, além de um mero ser invisível? Não o fiz. Deixei que se encontrassem, se sentissem. E talvez até se amassem. Disseram-me, certa vez, que para ele era indiferente tocá-la, beijá-la ou amá-la. Disse que a ama só pelo jeito que sorri, que pisca os olhos, que anda, tão calma, que finge que não o vê. Não sei se para ela é assim também, mas não acho que seja muito diferente. Era impossível não notar as faíscas que seus olhares transmitiam quando se encontravam. E como o lugar, qualquer que fosse ele, iluminava-se mais quando eles sorriam. E se alguém ousar dizer-me que isso não é amor, não saberei o que dizer ou fazer. Talvez eu sorria e diga para ele que se aquilo não é amor, não há amor. 

Dia desses, enquanto observava o meu casal mais estranho e predileto que eu tinha - talvez único -, pensei em como seria se continuassem com toda essa distância, mesmo podendo quebrá-la. Há tanta gente por aí, pensei, que deseja uma distância mínima como a que eles têm, podendo tocar-se a qualquer momento, e eles a desprezam. E quando o pensei, meu bom e velho amigo fofoqueiro me disse que o meu outro amigo apaixonadinho não vê a hora de abraçá-la, mas que prefere isso: distâcia, sorrisos e olhares. E eu, que não gosto nada de coisa complicada, disse que tudo bem. Tudo bem?, ele perguntou. Tudo bem, eu disse, tudo bem. Mas o senhor não está indignado com essa distância dispensável?, meu amigo velho e bobo perguntou. Claro!, disse, mas não sou eu quem irá acabar com ela.
Eles continuavam em sua troca de olhares abtual, sorrindo vez ou outra e vezenquando baixando os olhos, corados. O apaixonado chamou o garçom, pediu-lhe um guardanapo e uma caneta. Escreveu sabe-se lá o que. Mandou que o garçom entregasse à bela moça do outro lado do estabelecimento, com as pernas cruzadas e sorriso encantador. Foi-se. A moça leu, surpresa com a ousadia encantadora do moço de olhos azuis, sorrindo. Sorrindo, pensou ele, ela está sorrindo por causa do meu bilhete. Logo o garçom voltou com um pedacinho de lenço um tanto quanto elegante. Tinha uns rabiscos em letra redondinha, pequena, e um beijo em seu canto, cor de carmim. Ele sorriu grande, encantado, parecia flutuar. Agora, além de sorrisos, olhares e bochechas coradas, tinham também bilhetes trocados e passados por um garçom um tanto quanto gentil. E o que parecia parado demais, perto mas distante demais, agora é um pouco mais vívido, bonito, com cara de amor. Passaram a trocar bilhetes todos os dias, vezenquando um apenas não era o suficiente. Falavam sobre a música do ambiente, sobre o clima, sobre como política é entediante e até mesmo sobre eles. Mas nunca perguntaram seus nomes. Não é necessário, pensei, assim que descobri que nomes não existiam em seus bilhetes secretos. Vez ou outra eu os pegava rindo enquanto liam o bilhete do outro. Às vezes faziam uma cara triste, mas logo se transformava em uma que dizia "Vai ficar tudo bem.". Certas vezes trocavam elogios, e eu só soube disso porque suas bochechas coravam e ficavam tão vermelhas quanto as cerejas que a moça beliscava. Tolos. Sim, tolos. Afinal, quem já conseguiu amar sem deixar de ser tolo? Todos tolos, inclusive eu. Certo dia, enquanto trocavam seus variados bilhetes - já que agora pareciam bem íntimos e apaixonados -, vi o rosto da moça espantar-se e sua mão elevar-se até a boca, tampando-a em sinal de espanto. Seus olhos arregalaram-se e seu rosto corou, completo, perplexa. Fez uma feição um tanto quanto desconfiada e confusa, talvez não soubesse muito bem o que dizer, ou pensar. Ele havia dito seu nome, calculei. Por que será que isso a espantaria, afinal? É só o nome do rapaz, ora bolas, não há com o que se preocupar. Não entendi, não no momento. Ela respondeu o bilhete que continha um nome próprio, com um elogio. "Bonito nome, Frederico.", e então disparou porta afora. Frederico, meu amigo apaixonado e tolo, não sabia muito bem o que ocorrera para que ela fugisse assim, tão depressa, como quem foge da solidão. No dia seguinte, em seu lugar e horário habitual, sentou-se em seu canto e pôs-se a observar o dela. Não havia sua silhueta sentada ao banco, nem teu sorriso iluminando o ambiente e muito menos seus olhos o tirando o foco. Calculou que não haveriam bilhetes, nem rabiscos exteriorizados por letras tão bonitas, ou um beijo na ponto do lenço. Escutou um estrondo. Não vinha de dentro do estabelecimento, então logo viu todo o lugar esvaziar-se. Quando chegou ao lado de fora, tudo já havia acontecido. Havia polícia, ambulâncias e bombeiros e uma multidão que mal o deixava passar. "Carolina, Carolina!", era só o que pôde escutar. "Ela não tem cara de Carolina", pensou Frederico, enfiando-se em meio a multidão. Quando conseguiu passar, viu sua silheta preferida estendida ao chão, com os olhos entreabertos, uma mão sobre o estômago e a outra perdida ao lado da cabeça. Parecia estar adormecendo, sua amada. Viu-se ajoelhado ao seu lado, segurando sua mão e puxando a outra para si. Acariciou-lhe o rosto. Que fascinante era tocar-lhe, sentir sua pele na dele e, finalmente, poder dizer que não há nada mais macio no mundo. Ela abriu um sorriso pequeno, miúdo, fraco. Antes mesmo de virar-se para ele, sabia que era ele, mesmo nunca tendo o tocado. Diziam, ao redor, que ela vinha caminhando quando dois carros bateram e a atropelaram na calçada. Pobre moça, diziam. 
- Perdoe-me minha reação noite passada. Não era necessário saber seu nome, Frederico.
- E por que não?
- Pois posso pensar em que nome tens apenas o observando. 
- E que nome achava que eu tinha?
- Frederico.
- Sim?
- Frederico, achava que seu nome fosse Frederico.
- Acertou, então.
- É, acertei.
- Sei o seu nome.
- Qual acha que é?
- Carolina.
- Tenho cara de Carolina?
- Na verdade, não. Tem cara de Margarida.
- Gosta de flores?
- Adoro flores.
- De qual gosta mais?
- Gosto das margaridas.
- Oh, são minhas prediletas. 
Fez-se silêncio. O moço apaixonado apertou sua mão, suplicante, enquanto a olhava nos olhos, com os olhos cobertos de lágrimas.
- Eu o amo, Frederico.
- Eu a amo, eu a amo, eu a amo.
(Silêncio)
- Hannah. Chamo-me Hannah, meu amor. 
E então a moça fechou os olhos, tendo em suas mãos as dele. Logo seu peito foi coberto por ele, que recostou sua cabeça. Com os olhos cobertos pelo mar agitado, o rapaz, que tinha jeito de Frederico, beijou a moça com pele de margarida nos lábios. Eu a amo, minha amada, desde o teu primeiro sorriso até o meu último suspiro. 

8 de janeiro de 2012

Repleta de ausências, despida de amor.

"Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar."

Suspirou pesado, lento, quase parou e desistiu. Respirar era involuntário e ela adorava esse fato - simplesmente porque se respirar dependesse de sua boa vontade, não o faria nunca. Suspirar, no entanto, precisava um pouco mais de sua vontade, e gostava tanto de fazê-lo, mas ultimamente não o tem conseguido com muito sucesso. Era necessário uma certa motivação para tal feito, o que ela não tinha há muito. Seja para suspirar por aí feito uma apaixonada desorientada, seja para seguir em frente. E seguir em frente, embora pareça fácil se nossa interpretação for apenas a de caminhar em frente, é tão difícil quanto ficar uma vida sem fechar os olhos. E ter motivação para seguir em frente engloba todo um mundo. Motivação para dormir, acordar, levantar. Viver. Lembro bem quando levaram-na seu motivo de viver, sua razão. Seu ar. 

Fazia frio na manhã de domingo em que ela se levantara e não o encontrara ao seu lado. Ele deveria estar ali, tal como todos os outros domingos. E não importava o quão rotineiro isso possa ter soado - ou em como as pessoas diriam que suas vidas eram chatas por sempre saberem o que fariam ou onde estariam - ele deveria estar ali. Mas ele não estava. E nem seus sapatos prediletos ao pé da cama ou seu casaco, que deveria estar sobre a cadeira. Ele odiava aquele casaco, mas não saia sem, pois sabia que ela reclamaria e diria que ele não havia gostado. Acho que ele gostava daquele jeito que ela tinha, tão complicado, difícil, irritane. Ele gostava daquele jeito dela, só dela, e acho que era isso que o fazia amá-la tanto. Mas, talvez, também tenha sido isso que o tenha feito sair mais cedo naquela manhã de domingo, calçando seus sapatos que tinha mais apreço e carregando seu casaco que tanto odiava. Ela o procurou por toda a casa, e nada. Nenhum vestígio dele. Voltou ao quarto, sentou-se na cama e pôs-se a observar o quarto por inteiro. Nada, a não ser a porta do armário entreaberta. Abriu. Nada. Esse foi o grande problema. Onde deveria estar as roupas de seu amado, nada. E então, além de não haver se quer um vestígio dele, também não havia nenhum de que ele voltaria. Levou todos seus perfumes, cadernos, livros, roupas. No entanto, havia levado algo que talvez não tenha cabido dentro da mala ou dentro de sua bolsa de mão. Havia levado consigo algo que ela não encontraria olhando por aí em sua casa ou de baixo da cama ou até mesmo dentro das gavetas. Não encontraria nem mesmo nos lugares mais escondidos, pois amor é algo que não se guarda em qualquer lugar assim. Ele guardava consigo todo seu amor por ele. Para que você não esqueça nunca, ela disse, certa vez. Ele pode não ter esquecido, mas preferiu não lembrar. Com tudo o que levou, mais seu amor e o casaco que ela havia dado, carregou, assim que saiu do quarto pela madrugada, toda chance e vestígio de esperança e razão de viver. E então ela ficou ali, fitando aquele vazio constante que se estendia por todo o quarto até dentro de si. O vazio que ele deixou quando foi embora.

Talvez ela devesse sentir falta dele, de como ele era e como a amava. Ele fazia de tudo para deixá-la feliz, desde levá-la uma rosa todo fim de tarde até acordá-la com um café-da-manhã na cama. Talvez ele fosse seu príncipe torto, cheio de defeitos e repleto de amor. Mas ela não sentia falta dele ou de como ela a tratava, nem mesmo dos seus beijos e amassos que davam tarde da noite. Sentia falta de suspirar leve, grande, sem doer o peito. Sentia falta de respirar devagar, de sentir o ar sendo inspirado e, então, expirado. Sentia falta de caminhar em frente sem medo do que pudesse segui-la. Sentia falta do seu eu completo, longe daquele vazio constante, mas não dele. Dele não sentia nada, apenas inúmeras interrogações de um amor que se fora, e que ela nunca mais teria. Nem ele, nem qualquer outro. Sentia mais falta de si quando ele estava ali. Na verdade, ela era uma mulher de faltas, ausências, principalmente quando se tratava de ausências próprias. Dessas, ela era cheia. E, assim como tinha todo o corpo composto por ausências, no lugar do coração, tinha uma falta imensa de amor. Do seu amor que ele carregara, para sempre.