E os lugares, mesmo que não tenha sido nós a criá-los, são nossos.
Flexionou os joelhos e beijou as costas da mão da moça. Então sorriu, ingênuo, ao sentir seus olhos nos dele. Ergueu-se novamente, procurando em seu olhar qualquer sinal de espanto com seu ato, e então logo sorriu, dando espaço ao alívio que o preenchera ao vê-la sorrir grande. Quis desejar boa noite, mas apenas deixou que seu sorriso falasse por ele. Afastou-se, ainda de costas para a calçada, sorrindo para ela como criança. Acenou, mas ela já havia desaparecido porta à dentro. Fitou o chão e suspirou, não deixando que o sorriso desaparecesse. Olhou a praça à sua volta e percebeu que não estava muito longe de casa. Sentou-se em um dos bancos desocupados e pôs-se a observar as crianças correndo de um lado para o outro, divertindo-se, enquanto divertia-se com seus sorrisos jogados ao vento e sendo trocados por risadas. Balões voavam por todo o lugar. No lugar do céu negro havia centenas de pontos coloridos e as estrelas, imperceptíveis aos olhos das pessoas. Havia pais desesperados correndo atrás de suas crianças, enquanto casais de idosos passeavam, calmamente, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Casais de namorados jovens amassavam-se em todo canto deserto que olhava. Ria divertida. Havia carrinhos de bebês, babás, meninos e meninos, velhos e velhas e solitários, assim como ele. Mas ao contrário de muitos solitários encontrados por aí, ele era um solitário contente. Não passavam das seis e trinta da noite e acabara de deixar sua acompanhante em casa. Certo de que era cedo, mas se quisesse levar aquilo a diante, deveria respeitar as regras impostas. Não ligava muito, afinal, pois gostava de ficar a sós à noite, tomando como aprendizado - ou inspiração - o que acontecia à sua volta. E o fazia quase sempre, pois vez ou outra gostava de jogar pedrinhas à janela de sua bela moça, mandá-la beijos escondidos e sorrisos repletos de amor. E quando não fazia nada disso, Vicente, o moço dos costumes antiquados, gostos suspeitos e enormes e diversos jeitos de amar, atrevia-se a desenhar. E seus desenhos não eram tão ruins, a propósito, eu mesmo já vi centenas. A maioria era de lugares. Cidades, praças, casas, jardins, terrenos baldios - que de acordo com ele eram mais cheios que nós mesmos -, países, lugares conhecidos e proibidos. Certa vez desenhara Nothing Hill, em Londres, fiquei tão extasiado que pedi que fizesse um para mim. E então me deu aquele, disse-me que não há repetições de desenhos, que os lugares não devem ser inúmeras vezes desenhados. Vicente tinha adoração pelo mundo, pelos lugares que foram criados e paridos, sabe-se lá pelo que. Gostava de admirar e desenhar tudo que via menos as pessoas que habitavam o lugar que via. Não gostava muito de pessoas, apesar de achá-las adoráveis e encantadoras. Pessoas, disse-me ele certa vez, tem a capacidade de mudar si próprias, outras pessoas e os lugares que tanto amo, enquanto esses lugares apenas existem. Foram criados, muitas vezes por pessoas, outras eu não sei, mas foram paridos e só, não há necessidade de mudança constante. E isso é o que as pessoas fazem com o mundo. A mudança do mundo não é necessária, o que é necessário é a mudança das pessoas. Para Vicente, cada pessoa no mundo tinha um lugar só seu, e esse lugar não poderia ser de mais ninguém. Perguntei a ele certa vez qual era seu lugar predileto. Ele continuou a me mostrar seus inúmeros desenhos. Vicente gostava de ser só e de ter a capacidade de amar tão imensamente aquela moça dos olhos azuis. Tratava-a como seus pais o ensinaram a tratar uma moça. Seu amor por ela, certamente menos que os lugares, o inspirava. Via beleza em todos os lugares que fosse, mas tendo-a em seu coração, conseguia ver muito mais que amor. Vicente via vontade de viver, alegria, tristeza, sorrisos, tudo isso em lugares distintos e muitas vezes inusitados. Vicente enxergava o que muitas pessoas não enxergariam nem em sonhos. Vicente enxergava além da aparêcia dos lugares, enxergava sua história e tudo o que já foi vivido ali. Extraia desses lugares sua inspiração, vontade e razão de vida. Vicente sentia amor e fazia amor com a vida, com seus inúmeros lugares. Seu namoro havia sido oficializado, agora poderia beijá-la algumas vezes e andar de mãos dadas. Poderia levá-la à sua casa meia hora mais tarde e ficar mais dez minutos assistindo a televisão. Vicente tinha o que muitos custavam a encontrar, e quando encontravam, perdiam fácil. Tinha uma bela moça amando-o e recebendo amor dele, tinha seu emprego e seu amor pelos lugares. Vicente tinha tudo o que já pôde querer, talvez até mais. Só havia um problema.
_ E então, qual seu lugar?
Vicente suspirou pesado, derrotado. Sua moça havia despencado do alto da montanha, junto com seu amor por lugares e todas suas conquistas.
_ Não sei.
_ Será possível?
_ Achei que fosse meu coração, até descobrir que não era o meu lugar, mas sim o dela.
_ Qual será o seu, então?
Olhou para o céu estrelado, suspirou algumas vezes e piscou algumas outras. Olhou-me com um sorriso derrotado, mas contente. Acho que seu amor pelos lugares não era maior que seu amor por ela, mas não me atrevi a dizê-lo, quem sabe ele não descubra sozinho.
_ Ela.
Flexionou os joelhos e beijou as costas da mão da moça. Então sorriu, ingênuo, ao sentir seus olhos nos dele. Ergueu-se novamente, procurando em seu olhar qualquer sinal de espanto com seu ato, e então logo sorriu, dando espaço ao alívio que o preenchera ao vê-la sorrir grande. Quis desejar boa noite, mas apenas deixou que seu sorriso falasse por ele. Afastou-se, ainda de costas para a calçada, sorrindo para ela como criança. Acenou, mas ela já havia desaparecido porta à dentro. Fitou o chão e suspirou, não deixando que o sorriso desaparecesse. Olhou a praça à sua volta e percebeu que não estava muito longe de casa. Sentou-se em um dos bancos desocupados e pôs-se a observar as crianças correndo de um lado para o outro, divertindo-se, enquanto divertia-se com seus sorrisos jogados ao vento e sendo trocados por risadas. Balões voavam por todo o lugar. No lugar do céu negro havia centenas de pontos coloridos e as estrelas, imperceptíveis aos olhos das pessoas. Havia pais desesperados correndo atrás de suas crianças, enquanto casais de idosos passeavam, calmamente, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Casais de namorados jovens amassavam-se em todo canto deserto que olhava. Ria divertida. Havia carrinhos de bebês, babás, meninos e meninos, velhos e velhas e solitários, assim como ele. Mas ao contrário de muitos solitários encontrados por aí, ele era um solitário contente. Não passavam das seis e trinta da noite e acabara de deixar sua acompanhante em casa. Certo de que era cedo, mas se quisesse levar aquilo a diante, deveria respeitar as regras impostas. Não ligava muito, afinal, pois gostava de ficar a sós à noite, tomando como aprendizado - ou inspiração - o que acontecia à sua volta. E o fazia quase sempre, pois vez ou outra gostava de jogar pedrinhas à janela de sua bela moça, mandá-la beijos escondidos e sorrisos repletos de amor. E quando não fazia nada disso, Vicente, o moço dos costumes antiquados, gostos suspeitos e enormes e diversos jeitos de amar, atrevia-se a desenhar. E seus desenhos não eram tão ruins, a propósito, eu mesmo já vi centenas. A maioria era de lugares. Cidades, praças, casas, jardins, terrenos baldios - que de acordo com ele eram mais cheios que nós mesmos -, países, lugares conhecidos e proibidos. Certa vez desenhara Nothing Hill, em Londres, fiquei tão extasiado que pedi que fizesse um para mim. E então me deu aquele, disse-me que não há repetições de desenhos, que os lugares não devem ser inúmeras vezes desenhados. Vicente tinha adoração pelo mundo, pelos lugares que foram criados e paridos, sabe-se lá pelo que. Gostava de admirar e desenhar tudo que via menos as pessoas que habitavam o lugar que via. Não gostava muito de pessoas, apesar de achá-las adoráveis e encantadoras. Pessoas, disse-me ele certa vez, tem a capacidade de mudar si próprias, outras pessoas e os lugares que tanto amo, enquanto esses lugares apenas existem. Foram criados, muitas vezes por pessoas, outras eu não sei, mas foram paridos e só, não há necessidade de mudança constante. E isso é o que as pessoas fazem com o mundo. A mudança do mundo não é necessária, o que é necessário é a mudança das pessoas. Para Vicente, cada pessoa no mundo tinha um lugar só seu, e esse lugar não poderia ser de mais ninguém. Perguntei a ele certa vez qual era seu lugar predileto. Ele continuou a me mostrar seus inúmeros desenhos. Vicente gostava de ser só e de ter a capacidade de amar tão imensamente aquela moça dos olhos azuis. Tratava-a como seus pais o ensinaram a tratar uma moça. Seu amor por ela, certamente menos que os lugares, o inspirava. Via beleza em todos os lugares que fosse, mas tendo-a em seu coração, conseguia ver muito mais que amor. Vicente via vontade de viver, alegria, tristeza, sorrisos, tudo isso em lugares distintos e muitas vezes inusitados. Vicente enxergava o que muitas pessoas não enxergariam nem em sonhos. Vicente enxergava além da aparêcia dos lugares, enxergava sua história e tudo o que já foi vivido ali. Extraia desses lugares sua inspiração, vontade e razão de vida. Vicente sentia amor e fazia amor com a vida, com seus inúmeros lugares. Seu namoro havia sido oficializado, agora poderia beijá-la algumas vezes e andar de mãos dadas. Poderia levá-la à sua casa meia hora mais tarde e ficar mais dez minutos assistindo a televisão. Vicente tinha o que muitos custavam a encontrar, e quando encontravam, perdiam fácil. Tinha uma bela moça amando-o e recebendo amor dele, tinha seu emprego e seu amor pelos lugares. Vicente tinha tudo o que já pôde querer, talvez até mais. Só havia um problema.
_ E então, qual seu lugar?
Vicente suspirou pesado, derrotado. Sua moça havia despencado do alto da montanha, junto com seu amor por lugares e todas suas conquistas.
_ Não sei.
_ Será possível?
_ Achei que fosse meu coração, até descobrir que não era o meu lugar, mas sim o dela.
_ Qual será o seu, então?
Olhou para o céu estrelado, suspirou algumas vezes e piscou algumas outras. Olhou-me com um sorriso derrotado, mas contente. Acho que seu amor pelos lugares não era maior que seu amor por ela, mas não me atrevi a dizê-lo, quem sabe ele não descubra sozinho.
_ Ela.