Dos olhos ele lembrava bem, eram como o céu estrelado, e parecia que a noite não acabaria nunca. O sorriso era calmo, leve, andava devagar, exatamente como ele costumava fazer quando o dia estava bonito. Hoje já não o faz mais. E ela já não sorri. E seus sonhos, aqueles em que a via linda, elegante, descendo uma enorme escadaria, sorrindo devagar, grandiosa, já não existiam mais. E se pensas que era do teu sorriso e olhos que ele mais sentia saudades, está certo. Não há no mundo inteiro olhos e sorriso como os dela. Não há, em hipótese alguma, em qualquer lugar que seja, alguém como ela. E não há lugar no mundo - e você pode escolher qualquer um - que haja amor feito o dele. E não importa o quão clichê isso possa parecer, amor feito o dele não há. E não há nada que se possa fazer quando os olhos de uma moça lhe fazem sorrir e seu sorriso iluminam seus olhos. Apenas aceite que é tão humano quanto qualquer outro bobo apaixonado, pois estás amando, agora. E foi o que ele fez quando caiu, enlevado, por seus olhos profundos, cor de breu, mas imensamente encantadores. E quando ela sorriu seu melhor sorriso, talvez até de propósito, ele soube que quando diziam sobre amor, não era brincadeira. Piadas sobre amor são para os que não sabem amar, pensou. Pensou o quão idiota era de fazer piadas assim. Mas hoje, não. Hoje ele sorri a cada dia que amanhece, a cada sol que se põe e a cada noite que cai. Sorri só por saber que seus olhos e sorriso estarão sempre em seus sonhos, e não importa o quanto isso doe no dia seguinte, ele continuará amando-a, independente de haver, ou não, amor em troca. Pois amor, ele pensou, não requer reciprocidade em amar. Amor mesmo é quando você ama acima de qualquer coisa, mesmo que a pessoa não o ame, também. E era assim que ele a amava. Talvez ela nem soubesse de sua humilde existência. Tudo bem, ela sabia. E sabia de seu amor e talvez até o amasse, também. Nunca trocaram sequer uma palavra. Ele ficava de longe observando-a sorrir, observar os lugares, iluminar o mundo com seus olhos. Ela o observava observá-la, sorria quando ele olhava e piscava os olhos, encantada, quando ele sorria, vez ou outra sem querer. Vezenquando seus olhares se encontravam, seus rostos coravam e nenhuma palavra era dita. Novamente. Não foi preciso palavras para que o amor surgisse. Não foram necessários beijos ou amassos. Certa vez, suas mãos encostaram-se quando passaram um perto do outro, mas não houve um pedido de desculpas, ou um aceno qualquer. Houve uma troca de sorrisos discreta, brilho nos olhos e amor. Muito amor. E talvez isso parecesse insano aos olhos dos outros, do mundo exterior. Mas entre os dois, que nem seus nomes sabiam, era surpreendente. Pois amor, mesmo que seja algo tão indescritível, é amor. E o amor tem suas qualidades e defeitos, assim como tudo na vida. Mas eles enxergavam o amor de um jeito diferente, único, a dois, e que eu não me atrevo a tentar descobrir. Era estranho vê-los longe, de longe, trocando sorrisos pequenos, tortos, felizes. Certa vez quis apresentá-los um ao outro. Dizer seus nomes, fazer com que trocassem abraços ou apertos de mão. Mas quem sou eu, afinal, além de um mero ser invisível? Não o fiz. Deixei que se encontrassem, se sentissem. E talvez até se amassem. Disseram-me, certa vez, que para ele era indiferente tocá-la, beijá-la ou amá-la. Disse que a ama só pelo jeito que sorri, que pisca os olhos, que anda, tão calma, que finge que não o vê. Não sei se para ela é assim também, mas não acho que seja muito diferente. Era impossível não notar as faíscas que seus olhares transmitiam quando se encontravam. E como o lugar, qualquer que fosse ele, iluminava-se mais quando eles sorriam. E se alguém ousar dizer-me que isso não é amor, não saberei o que dizer ou fazer. Talvez eu sorria e diga para ele que se aquilo não é amor, não há amor.
Dia desses, enquanto observava o meu casal mais estranho e predileto que eu tinha - talvez único -, pensei em como seria se continuassem com toda essa distância, mesmo podendo quebrá-la. Há tanta gente por aí, pensei, que deseja uma distância mínima como a que eles têm, podendo tocar-se a qualquer momento, e eles a desprezam. E quando o pensei, meu bom e velho amigo fofoqueiro me disse que o meu outro amigo apaixonadinho não vê a hora de abraçá-la, mas que prefere isso: distâcia, sorrisos e olhares. E eu, que não gosto nada de coisa complicada, disse que tudo bem. Tudo bem?, ele perguntou. Tudo bem, eu disse, tudo bem. Mas o senhor não está indignado com essa distância dispensável?, meu amigo velho e bobo perguntou. Claro!, disse, mas não sou eu quem irá acabar com ela.
Eles continuavam em sua troca de olhares abtual, sorrindo vez ou outra e vezenquando baixando os olhos, corados. O apaixonado chamou o garçom, pediu-lhe um guardanapo e uma caneta. Escreveu sabe-se lá o que. Mandou que o garçom entregasse à bela moça do outro lado do estabelecimento, com as pernas cruzadas e sorriso encantador. Foi-se. A moça leu, surpresa com a ousadia encantadora do moço de olhos azuis, sorrindo. Sorrindo, pensou ele, ela está sorrindo por causa do meu bilhete. Logo o garçom voltou com um pedacinho de lenço um tanto quanto elegante. Tinha uns rabiscos em letra redondinha, pequena, e um beijo em seu canto, cor de carmim. Ele sorriu grande, encantado, parecia flutuar. Agora, além de sorrisos, olhares e bochechas coradas, tinham também bilhetes trocados e passados por um garçom um tanto quanto gentil. E o que parecia parado demais, perto mas distante demais, agora é um pouco mais vívido, bonito, com cara de amor. Passaram a trocar bilhetes todos os dias, vezenquando um apenas não era o suficiente. Falavam sobre a música do ambiente, sobre o clima, sobre como política é entediante e até mesmo sobre eles. Mas nunca perguntaram seus nomes. Não é necessário, pensei, assim que descobri que nomes não existiam em seus bilhetes secretos. Vez ou outra eu os pegava rindo enquanto liam o bilhete do outro. Às vezes faziam uma cara triste, mas logo se transformava em uma que dizia "Vai ficar tudo bem.". Certas vezes trocavam elogios, e eu só soube disso porque suas bochechas coravam e ficavam tão vermelhas quanto as cerejas que a moça beliscava. Tolos. Sim, tolos. Afinal, quem já conseguiu amar sem deixar de ser tolo? Todos tolos, inclusive eu. Certo dia, enquanto trocavam seus variados bilhetes - já que agora pareciam bem íntimos e apaixonados -, vi o rosto da moça espantar-se e sua mão elevar-se até a boca, tampando-a em sinal de espanto. Seus olhos arregalaram-se e seu rosto corou, completo, perplexa. Fez uma feição um tanto quanto desconfiada e confusa, talvez não soubesse muito bem o que dizer, ou pensar. Ele havia dito seu nome, calculei. Por que será que isso a espantaria, afinal? É só o nome do rapaz, ora bolas, não há com o que se preocupar. Não entendi, não no momento. Ela respondeu o bilhete que continha um nome próprio, com um elogio. "Bonito nome, Frederico.", e então disparou porta afora. Frederico, meu amigo apaixonado e tolo, não sabia muito bem o que ocorrera para que ela fugisse assim, tão depressa, como quem foge da solidão. No dia seguinte, em seu lugar e horário habitual, sentou-se em seu canto e pôs-se a observar o dela. Não havia sua silhueta sentada ao banco, nem teu sorriso iluminando o ambiente e muito menos seus olhos o tirando o foco. Calculou que não haveriam bilhetes, nem rabiscos exteriorizados por letras tão bonitas, ou um beijo na ponto do lenço. Escutou um estrondo. Não vinha de dentro do estabelecimento, então logo viu todo o lugar esvaziar-se. Quando chegou ao lado de fora, tudo já havia acontecido. Havia polícia, ambulâncias e bombeiros e uma multidão que mal o deixava passar. "Carolina, Carolina!", era só o que pôde escutar. "Ela não tem cara de Carolina", pensou Frederico, enfiando-se em meio a multidão. Quando conseguiu passar, viu sua silheta preferida estendida ao chão, com os olhos entreabertos, uma mão sobre o estômago e a outra perdida ao lado da cabeça. Parecia estar adormecendo, sua amada. Viu-se ajoelhado ao seu lado, segurando sua mão e puxando a outra para si. Acariciou-lhe o rosto. Que fascinante era tocar-lhe, sentir sua pele na dele e, finalmente, poder dizer que não há nada mais macio no mundo. Ela abriu um sorriso pequeno, miúdo, fraco. Antes mesmo de virar-se para ele, sabia que era ele, mesmo nunca tendo o tocado. Diziam, ao redor, que ela vinha caminhando quando dois carros bateram e a atropelaram na calçada. Pobre moça, diziam.
- Perdoe-me minha reação noite passada. Não era necessário saber seu nome, Frederico.
- E por que não?
- Pois posso pensar em que nome tens apenas o observando.
- E que nome achava que eu tinha?
- Frederico.
- Sim?
- Frederico, achava que seu nome fosse Frederico.
- Acertou, então.
- É, acertei.
- Sei o seu nome.
- Qual acha que é?
- Carolina.
- Tenho cara de Carolina?
- Na verdade, não. Tem cara de Margarida.
- Qual acha que é?
- Carolina.
- Tenho cara de Carolina?
- Na verdade, não. Tem cara de Margarida.
- Gosta de flores?
- Adoro flores.
- De qual gosta mais?
- Gosto das margaridas.
- Oh, são minhas prediletas.
Fez-se silêncio. O moço apaixonado apertou sua mão, suplicante, enquanto a olhava nos olhos, com os olhos cobertos de lágrimas.
- Eu o amo, Frederico.
- Eu a amo, eu a amo, eu a amo.
(Silêncio)
(Silêncio)
- Hannah. Chamo-me Hannah, meu amor.
E então a moça fechou os olhos, tendo em suas mãos as dele. Logo seu peito foi coberto por ele, que recostou sua cabeça. Com os olhos cobertos pelo mar agitado, o rapaz, que tinha jeito de Frederico, beijou a moça com pele de margarida nos lábios. Eu a amo, minha amada, desde o teu primeiro sorriso até o meu último suspiro.