"Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar."
Suspirou pesado, lento, quase parou e desistiu. Respirar era involuntário e ela adorava esse fato - simplesmente porque se respirar dependesse de sua boa vontade, não o faria nunca. Suspirar, no entanto, precisava um pouco mais de sua vontade, e gostava tanto de fazê-lo, mas ultimamente não o tem conseguido com muito sucesso. Era necessário uma certa motivação para tal feito, o que ela não tinha há muito. Seja para suspirar por aí feito uma apaixonada desorientada, seja para seguir em frente. E seguir em frente, embora pareça fácil se nossa interpretação for apenas a de caminhar em frente, é tão difícil quanto ficar uma vida sem fechar os olhos. E ter motivação para seguir em frente engloba todo um mundo. Motivação para dormir, acordar, levantar. Viver. Lembro bem quando levaram-na seu motivo de viver, sua razão. Seu ar.
Fazia frio na manhã de domingo em que ela se levantara e não o encontrara ao seu lado. Ele deveria estar ali, tal como todos os outros domingos. E não importava o quão rotineiro isso possa ter soado - ou em como as pessoas diriam que suas vidas eram chatas por sempre saberem o que fariam ou onde estariam - ele deveria estar ali. Mas ele não estava. E nem seus sapatos prediletos ao pé da cama ou seu casaco, que deveria estar sobre a cadeira. Ele odiava aquele casaco, mas não saia sem, pois sabia que ela reclamaria e diria que ele não havia gostado. Acho que ele gostava daquele jeito que ela tinha, tão complicado, difícil, irritane. Ele gostava daquele jeito dela, só dela, e acho que era isso que o fazia amá-la tanto. Mas, talvez, também tenha sido isso que o tenha feito sair mais cedo naquela manhã de domingo, calçando seus sapatos que tinha mais apreço e carregando seu casaco que tanto odiava. Ela o procurou por toda a casa, e nada. Nenhum vestígio dele. Voltou ao quarto, sentou-se na cama e pôs-se a observar o quarto por inteiro. Nada, a não ser a porta do armário entreaberta. Abriu. Nada. Esse foi o grande problema. Onde deveria estar as roupas de seu amado, nada. E então, além de não haver se quer um vestígio dele, também não havia nenhum de que ele voltaria. Levou todos seus perfumes, cadernos, livros, roupas. No entanto, havia levado algo que talvez não tenha cabido dentro da mala ou dentro de sua bolsa de mão. Havia levado consigo algo que ela não encontraria olhando por aí em sua casa ou de baixo da cama ou até mesmo dentro das gavetas. Não encontraria nem mesmo nos lugares mais escondidos, pois amor é algo que não se guarda em qualquer lugar assim. Ele guardava consigo todo seu amor por ele. Para que você não esqueça nunca, ela disse, certa vez. Ele pode não ter esquecido, mas preferiu não lembrar. Com tudo o que levou, mais seu amor e o casaco que ela havia dado, carregou, assim que saiu do quarto pela madrugada, toda chance e vestígio de esperança e razão de viver. E então ela ficou ali, fitando aquele vazio constante que se estendia por todo o quarto até dentro de si. O vazio que ele deixou quando foi embora.
Talvez ela devesse sentir falta dele, de como ele era e como a amava. Ele fazia de tudo para deixá-la feliz, desde levá-la uma rosa todo fim de tarde até acordá-la com um café-da-manhã na cama. Talvez ele fosse seu príncipe torto, cheio de defeitos e repleto de amor. Mas ela não sentia falta dele ou de como ela a tratava, nem mesmo dos seus beijos e amassos que davam tarde da noite. Sentia falta de suspirar leve, grande, sem doer o peito. Sentia falta de respirar devagar, de sentir o ar sendo inspirado e, então, expirado. Sentia falta de caminhar em frente sem medo do que pudesse segui-la. Sentia falta do seu eu completo, longe daquele vazio constante, mas não dele. Dele não sentia nada, apenas inúmeras interrogações de um amor que se fora, e que ela nunca mais teria. Nem ele, nem qualquer outro. Sentia mais falta de si quando ele estava ali. Na verdade, ela era uma mulher de faltas, ausências, principalmente quando se tratava de ausências próprias. Dessas, ela era cheia. E, assim como tinha todo o corpo composto por ausências, no lugar do coração, tinha uma falta imensa de amor. Do seu amor que ele carregara, para sempre.