Teve os lábios selados por um completo estranho. Desengonçada, foi afastando-se dali até que não o pudesse ver mais. Caiu sobre os joelhos e encostou a testa no chão, pediu a quem quer que fosse que morasse acima de sua cabeça que olhasse por ela. Que pedisse, desesperadamente, amor por ela, pois ela já não adquiria mais forças para tanto. Pedir, embora parecesse fácil, era a coisa mais complicada de se fazer. Desejou que ninguém a visse ali, jogada ao chão como ou pior que um mendigo. A culpa a tomava na mesma medida em que o álcool queimava sua garganta e que aquela música adentrava seus ouvidos e não saía nunca mais. A vontade de sair correndo era predominante, mas o que lhe faltava era coragem de se levantar e enfrentar aqueles rostos desconhecidos pelos quais jamais poderia pedir ajuda. E não foi preciso pedir. Teve os braços agarrados por mãos mais quentes que as dela, o corpo elevado e os olhos frente a frente à um par de olhos desconhecidos mas encantadores. Encantadores, mas desconhecidos. Desconhecidos, mas encantadores. Encantadores...
Arregalou os olhos quando se deu por conta de que estava sentada à beira do mar, com algo amargo em seus lábios. Pensou ser café e mesmo adorando seu gosto, deixou de lado os sabores que a tomavam e focou apenas no par de olhos encantadores mas desconhecidos ao seu lado. Baixou os olhos em um ato de timidez, querendo impedi-lo de ver suas bochechas levemente coradas. Entrelaçou uns dedos nos outros, desenhou qualquer coisa com o calcanhar na areia, suspirou pesado, querendo não demonstrar o quão confusa ou culpada estava. O viu abrir a boca para soltar um clichê qualquer, mas tossiu antes que ele pudesse começar a dizer qualquer coisa que fosse. Deixá-lo dizer alguma coisa significava qualquer laço de simpatia ou companheirismo, e era justamente o que ela não queria. De novo. Levantou os olhos para olhar o par de olhos desconhecidos mas encantadores ao seu lado, e só então viu que ele a observava em seus devaneios. Sorriu sem querer, fazendo os olhos desconhecidos brilhares ainda mais. Pensou em dizer alguma coisa, agradecer pela gentileza de tirá-la de lá ou desculpar-se por tê-lo feito perder aquela coisa toda com música e bebida. Mas não sabia como fazê-lo, e então preferiu continuar em seu silêncio confortante. Vez ou outra sentia os olhos desconhecidos mas encantadores em cima dela, observando-a e medindo-a, mas ficou surpresa por não sentir-se incomodada. Quis sentir o sabor de seus lábios, verificar se era exatamente como imaginou pouco antes, mas não sabia como fazê-lo. Pedir estava fora de cogitação, onde já se viu? Pensou em seduzi-lo, mas logo foi tomada por risos incontroláveis causados pela hipótese insana em que pensou. Seu riso causou largos sorrisos no rosto do desconhecido de olhos encantadores. Esperou por uma pergunta, mas nada veio. Não lembrava do rosto do estranho em que selou seus lábios ou cor dos seus olhos. Não saberia dizer a cor dos seus cabelos ou da sua camisa, no entanto poderia escrever uma redação sobre o sabor dos seus lábios, mas jamais descrever realmente. Piscou algumas vezes e o olhou. Não diga, não diga, não diga, repetia em sua cabeça, suplicando para que ele não pronunciasse sequer uma palavra. Não disse, apenas sorriu, simpático. O dia estava amanhecendo e só então se deu conta do quão encrencada estava. Não sabia como voltaria para casa ou se se lembrava do caminho. Olhou em volta e notou que não havia mais que algumas pessoas além deles dois ali. Olhou para ele com olhos confusos mas decididos. Inclinou-se um pouco para a frente e assustou-se ao ver que ele fizera o mesmo. Recuou, baixou os olhos e o olhou. Baixou, novamente, os olhos e o olhou de novo depois. Ele permaneceu com seu corpo inclinado. Sorriram ao mesmo tempo e ao mesmo tempo teve seus lábios selados pelo estranho com olhos desconhecidos, mas encantadores. Talvez não fosse tão estranho quanto pensava. Seus lábios eram de um sabor inigualável. Poderia até escrever uma redação...