Deixou que o corpo escorregasse e afundasse na grama molhada pela chuva de alguns minutos atrás, fazendo sua mente esvaziar-se e preocupando-se apenas com a velocidade com que seu corpo caía. Caiu, caiu e caiu, até perceber que não passara do gramado. Esticou-se na grama e sentiu as cócegas que ela o causava, deixando um sorriso cansado surgir no canto dos lábios. Suspirou pesado, tentando olhar o comecinho do Sol que surgia por entre as nuvens. Seus raios eram tão intensos, mas tentou ao máximo apreciá-los antes de ter os olhos fechados. Seus olhos choraram um amor presente mas completamente distante, e que o Sol trouxera à tona. Fechar os olhos, muitas vezes, o fazia relembrar amores e dores que antes eram constantes, mas que com o tempo conseguiu não pensar. Nunca deixaram de existir, pois o que é verdadero, seja amor ou dor, permanece. E quando teve seus olhos fechados, teve sua mente aberta à lembranças de um passado ainda próximo e, consequentemente, à amores inacabados. Os 'ésses' poderiam ser extintos, deixando bem claro de que o que teria para ser lembrado era singular. Singularmente estonteante. Seus olhos baixos, claros, levantavam-se calmamente, olhando-o na mesma direção, hipinotizando-o por completo. Sorria um sorriso bobo, calmo, mas que o transformava. O toque de seus dedos nos dele era como tocar as nuvens e mesmo nunca tendo o feito, sabia que era como tal e talvez até melhor. Sua voz em seu ouvido muitas vezes longe, mas muitas vezes perto, fazia com que seu corpo inteiro se arrepiasse numa mistura de sentidos e emoções que ele jamais poderia explicar. Seu corpo encaixando-se no dele era como uma apresentação sincronizada de ballet e que ele se recusava a perder. O encaixe perfeito, movimentos perfeitos e prazeres incansáveis. Dois corpos misturando-se na cama, tornando-se um só em segundos e resultando no que há de mais belo, alumiado e singelo. O sol adentrando a janela na manhã seguinte era prova de que tudo havia, mesmo, acontecido, mas que deixava incerto a certa realidade que tudo tinha. Seus olhos piscaram algumas vezes até poder enxergar os olhos claros dela. Clara, claro. Os dois sorriam e o sol tornava-se insignificante diante de tanta luz naquele quarto. Até que cansou de competir e se escondeu, dando lugar a garoa, que agora os faziam contar gotinhas de chuva na janela. O quão infantis eram não me atrevi a dizer, pois diante de tamanho amor, tanta infantilidade tornava-se parte do tudo. E o tudo, por mais simples que parecesse, era o mais perto da felicidade que teriam. O que o sol havia trago, agora, apenas alguns segundos depois, ao partir, levou consigo. E então seus olhos abriram-se novamente e, num ato humano e apaixonado, ergueu os braços para a frente como se pudesse alcança-la, agarrá-la e impedi-la de partir. No entanto, de súbito e não mais que isso, num gesto humano e incompreensível, o sol chorou com ele, fazendo-o recuar e encostar-se à sombra da árvore, novamente. A viu partir uma, duas vezes. Na terceira quis impedi-la, mas foi brutalmente impedido pelas lágrimas que o sol derramava por seus olhos, impedindo-o que pudesse enxergar qualquer coisa além. E além dele, o que havia era ela, seus olhos claros, a peça faltando, a melodia estonteante, a aceleração exata do coração, o entrelace perfeito de mãos. E ali, parado feito pedra, feito o tronco da árvore em que se recostava, ele, o incompleto, a letra da música, os olhos negros, o quebra-cabeça desfalcado, o coração correndo uma maratona. E os dois, sabe-se lá onde, a música perfeita, o coração sem problemas, os olhos fechados por um beijo súbito, a cabeça quebrada, consertada. O amor consumado, feito, existente em dois seres distintos, distanciados. Amor que nasceu em vida, cresceu em sonhos e morreu, sabe-se lá onde ou quando.