Os olhos iam ficando pesados, impedindo-a de contar as estrelas que iluminavam o teto de seu quarto e de todo o mundo. Um sorriso escapou dos lábios quando, não muito tempo depois de adormecer, teve seus sonhos dominados por um céu repleto de estrelas, onde não havia qualquer espaço vazio, impedindo que a não existência do vazio a preenchesse e a cobrisse de ausências. Já tão inundada de falhas, quaisquer aumento de rupturas e pedaços faltando a derrubaria. Sentou-se na lua minguante, lixou as unhas com a pequena estrela perdida ao seu redor e iluminou ainda mais seu olhar com um par de estrelas gêmeas. Flutuou por entre o mar de estrelas e, no ápice da insanidade utopiciosa, quis contar as estrelas. A cada estrela que encontrava depositava um beijo, marcando-a com o contorno de seus lábios rosados pelo batom gasto. E de repente, não mais que isso, havia beijado todas as constelações, exceto uma pequena estrela. Todavia, enquanto voava para a última estrela, havia visto nela o que pensou não ver nunca mais, e que talvez já havia até se esquecido do quão encantador era. Os olhos brilhavam, e não era necessário nenhuma estrela para fazê-lo. O sorriso iluminaria todo aquele céu que necessitava de tantas estrelas para o fazer. O conjunto de tantos traços encantadores resultavam em apenas um sentimento. Sentiu o rosto queimar, endurecer e só então sentiu uma gotinha de dor escorrer por seus olhos, dando início a uma enxurrada de dor que não passaria tão rápido. Perdera a conta de quantas estrelas habitavam aquele céu que tanto a pertencia, mas nem ele era capaz de tirá-la o sentimento que tanto a perturbava e que a tirava o sono. Deu-se conta de que o céu só é repleto de estrelas para que não se sinta só, pois enquanto vivemos aqui embaixo, quase nunca olhando para o alto e desejando bom dia para o teto sob nossas cabeças, ele fica lá, apenas observando-nos construir felicidades e amores, ou dores e sabores ruins. E aqueles traços naquela última estrela que deveria ter beijado, a fez perceber que nem mesmo o céu, com toda sua imensidão, vive só. Depois de voar para longe de sua estrela, quis retornar, encontrá-la e beijá-la por inteira. Procurou por ela céu adentro, tendo a sorte de que era a única estrela que não continha um beijo seu. Deu-se conta, novamente, do quanto isso parecia estranho, normalmente, eram aqueles traços que mais continham seus beijos por todos eles. Avistou sua estrela, ainda distante, mas tendo a certeza de que era ela. Voou o mais rápido que pôde, chegando até a encostar seus dedos em suas pontas. Aproximou-se o rosto dela e então abriu os olhos. Num impulso, como se ainda pudesse voar, ergueu-se na cama e olhou o céu de seu quarto. As estrelas, agora com os raios do sol adentrando sua janela, perderam o brilho. Suspirou, derrotada, sabendo o quão fraca tinha sido a ponto de correr da sua estrela. A campainha tocou, tirando-a de seu transe, fazendo-a levantar subitamente e correr até a porta. Girou a maçaneta e, ainda olhando para o chão, esfregou a mão nos olhos, e então os levantou. Suas sobrancelhas arquearam e seus olhos arregalaram-se e, não pensando ao menos uma vez, sentiu seu corpo ser jogado contra o outro que ainda encontrava-se à porta. O olhou e, invés de correr de sua estrela, o beijou nos lábios e em todo o rosto, marcando-o com seu amor como deveria ter feito pouco tempo antes, em seu sonho. Tendo-o ali, agora sem nenhuma ausência ou falha tomando conta de tudo, podendo contar cada traço de seu rosto, beijar cada pedacinho dele, não sentia mais saudade.