22 de fevereiro de 2012

A incerta certeza de que era real.

O coração vivia num aperto só desde que ele partira naquela noite fria e sombria de fevereiro. Seus olhos lutavam constantemente contra inúmeras tsunamis que vezenquando davam sinal de que surgiriam. No entanto, como boas tsunamis que eram, certas vezes não avisavam, pegando-a desprevinida, tendo todo o rosto e travesseiro inundados. Seus dedos incontroláveis buscavam-no no espaço vazio da cama ao seu lado, recuando entristecidos pela descoberta de um lugar vazio, exatamente como ele deixara quando partira. Assim como tudo à sua volta. O guarda-roupa ainda possuía o aroma de suas roupas, os sapatos arrumados de acordo com cores, antes presentes, agora inexistentes. O modo como ele arrumava as cortinas da sala permanecia lá, intacto. Seus chinelos, que talvez ele tenha esquecido de guardar na mala, estavam na entrada da casa, esperando-o como se ele fosse voltar no final da tarde. A dispensa repleta de biscoitos rosa e branco, nenhum marrom. A salada, ainda intacta na geladeira, esperava ser devorada pelo jantar naquela noite, mas nunca fora tocada. A televisão no canal de jogo, exatamente como naquela noite, pouco antes da coisa toda acontecer. Não se atreveu a mudar de canal,  comer a salada ou comprar biscoitos de chocolate. Não quis lavar a casa por completo para tirar seu cheiro, os lençóis ou o rosto, ainda coberto por lágrimas de uma noite que tinha tudo para ser qualquer de fevereiro. Não jogou fora os chinelos, nem mudou o jeito das cortinas. Talvez ele volte, pensava, constantemente. Ele vai voltar. Pensou em ligar e perguntar o que queria de jantar para aquela noite, como sempre fazia, mas não tinha certeza de que ele responderia. Pensou em sentar na escada, acender um cigarro e esperá-lo chegar, assim como todos os dias. Sentou, perdeu a conta de quantos cigarros foram acesos e tragados e esperou. Em vão. Adormeceu nos degraus da escada, sendo acordada por batidas na porta. Em um pulo, levantou-se e atendeu. Seu rosto, antes coberto por um sorriso tão grande que não cabia no rosto, agora escondia o ápice da felicidade. Seus olhos, em um ato esperado e inesperado, arregalaram-se e choraram saudades de tempos que vieram à tona quando o viu ali, parado em sua frente, sorrindo como se soubesse o que causava nela. E sabia. A pegou no colo, a rodou e rodou e rodou até que pedisse para parar. Parou. Sua risadas eram constantes, assim como os sorrisos que ele deixava escapar. Os dois ali, juntos, inseparáveis, felizes e sem dor alguma era o que ela tanto desejou desde que se fora. E tudo isso só poderia ser ilusório.
Acordou com seu cachorro lambendo seu rosto e, antes de qualquer coisa, ter o rosto babado por seu animal a lembrava de quando ele a beijava o rosto por inteiro para acordá-la. E, mais uma vez, vieram à tona aquelas lágrimas, tão suas amigas. Tudo ali lembrava ele. Desde as cortinas até seu cachorro. Desde aroma até o toque. Tudo, exceto ele. E essa ausência que ele fora capaz de impor, por mais doída que tenha sido e que continua sendo, é o que a faz acordar todas as manhãs. Preparar o café para dois, arrumar a casa, trabalhar, ligar infinitas vezes para seu número, mesmo sabendo que fora cortado, para perguntar o que fazer para o jantar, esperá-lo incansavelmente por horas até adormecer nas escadas de sua casa. E sonhar, todas as vezes em que adormece ali, ali mesmo, nos degraus, com a campainha tocando, seus olhos se arregalando e ele a rodando sem parar. Os dois juntos, inseparáveis, felizes e sem dor alguma, mas com toda ilusão existente no mundo.