Eu vi você fechar a porta sem ter o que dizer. Nem poder dizer. Eu não iria implorar-te que ficasse, não se não quisesse. Sei que queria ficar, sei disso. No entanto, não o fiz. Preferi deixar-te ir. Voltar depois, quem sabe. Mas se tu soubesses que a minha noite seria a mais fria de todas naquele dia de verão. Não sentir seu corpo junto ao meu, doeria, talvez mais do que qualquer outra coisa que eu recuso-me a comparar agora. Não sentir seus pés gelados junto aos meus, suas mãos procurando as minhas a meia noite. Não ouvir sua voz doce me acordando, sussurrando pra que eu chegasse mais perto, pois você havia sonhado. Acordar com sua voz ao pé do meu ouvido e depois sorrir triste ao escutar seu pesadelo. Você não vai me perder, eu disse. Eu dizia isso todos os dias, direta ou indiretamente. Queria que tu soubesses que os dias de verão não serão mais os mesmos. Por mais que você odiasse o verão, eu gostava de passar a tarde sentado no sofá com um pote gigante de sorvete nas mãos e quando eu olhava para o lado, você estava ali, com os olhos fixos no filme de ação que passava na tv, com a colher suja de sorvete na boca. Queria que tu soubesses que os filmes de ação não terão mais graça, os sorvetes gigantes morrerão no congelador, os dias de verão sem verão desaparecerão e só restara o sol quente batendo a minha janela logo de manha. Sem pés gelados, sem mãos nas minhas, sem sussurros, sem você. Passei horas a fio sentado no sofá, vidrado na maçaneta dourada que reluzia quando o sol dava as caras. Por vezes escutei-a se abrindo, por vezes era apenas imaginação. Os ponteiros do relógio na parede se arrastavam, os minutos pareciam horas. Olhei pela janela e o céu estava escuro, acho que já era noite. Não queria ter que dormir com a ausência de um corpo quente ao meu lado. O sol invadia meus olhos, então os abri com ma vontade. Olhei em volta e nada. O dia arrastou-se tão lentamente quando os ponteiros do relógio. Mas assim que anoiteceu, deitei-me na cama. Fitei o teto e, por um segundo, jurei sentir seus braços em volta de mim. Respirei fundo. Vai ficar tudo bem, cara. Disse a mim mesmo. Não, não vai, não. Senti meus olhos ardendo e depois uma maldita lágrima ousou pular dos meus olhos. Fechei os olhos com forca e as lembranças apareceram como magica. Talvez eu pudesse viver dentro da minha cabeça. As lembranças eram tão reais que eu pude sentir um corpo deitando ao meu lado, braços envolvendo minha cintura, pés gelados para cima e para baixo da minha perna. Era difícil não sorrir, difícil segurar as lágrimas.
- Você sempre foi um bobo, sabia que chorava sozinho.
Aquela voz. Aquele sussurro ao pé do ouvido. Aquele riso meu, que eu tanto amava, estava de volta.
- Abra os olhos, olhe para mim. - Olhei. - Perdoe-me por isso.
- Shhhh! - Disse eu, pousando o indicador em seus lábios. Meu lábios. - Não me deixe, nunca mais.
- Prometo. - Beijou-me nos lábios. Sorrimos. - Eu te amo.
- Eu te amo. - Deitou a cabeça em meu peito.
- Amor?
- Oi?
- Descobri, ontem a noite, que eu não sou nada longe de você.
- Descobrimos o mesmo, então.