fall asleep
Feeling empty again
'Cause I fear I might break
And I fear I can't take it
Tonight I'll lie awake
Feeling empty
(Pressure - Paramore)
Puxou a camisa xadrez jogada na ponta da cama e vestiu sobre sua camiseta branca sem graça. A camisa xadrez azul era ele, e ela, a branca sem graça. Gostou da comparação que fez, era exactamente o que ele era para ela, um complemento. O objeto indireto e o verbo transitivo indireto. Um não tem sentido sem o outro. Ela sentia-se assim, como se não fosse ela sem ele. Como se, ao deixar aquela casa, ele houvesse levado seu espírito e deixado seu corpo.
Bebeu, em um só gole, aquele copo que continha vodka quente. Aquilo desceu por sua garganta queimando, só não queimava mais que a dor que sentia. Nada queimaria. Saiu para aquele frio na esperança de não ouvir mais aquele silencio barulhento que ouvia a poucos minutos.
Assim que pôs o pé na calcada e sentiu aquele vento em seu rosto que fez seu cabelo voar, ouviu o que temia. Aquela pergunta que sempre a faziam quando saia de casa. Ela não sabia o que responder, antes era tão fácil dizer que ele estava dormindo, mas agora, ela não sabia o que dizer.
Aquelas malditas lágrimas da noite anterior voltaram e inundaram, novamente, seus olhos castanhos que não enxergavam nada a sua frente. Ela viu o mundo inteiro girar, ouviu todos rirem, e não aguentou. Ninguém aguentaria. Largou aquela senhora falando sozinha e correu para o parque. Se pudesse, acabaria com todas as lágrimas do universo, com toda a dor, todas as brigas, toda a distancia, toda separação, toda saudade. Principalmente a saudade.
Não olhava para frente, qualquer contato com quaisquer olhos castanhos a faria chorar mais. Seus olhos eram baixos, e olhavam para cada centímetro que andava, então não notou quando o parque passou por ela. Seus pés a levavam sabe-se la para onde, nem ela sabia. Ou talvez soubesse, mas deixou eles a guiarem. Ela queria não saber para onde ela estava indo. Mas sabia.
Quando olhou a sua volta, viu aquele prédio de doze andares e aquele jardim lindo que ela tanto amava a sua frente, ela quis gritar, não seria difícil de ele escutar do 5 andar. Porem não o fez. Ela apenas observou a janela aberta, imaginando se ele estaria ou se esquecera aberta como sempre.
Arrependeu-se de ter deixado que seus pés a guiassem ate ali quando viu a cortina se mexer e ele surgir de repente. O viu debruçar na grade da varanda e observar aquele dia nublado sobre ele. Ela não ligou em saber que ele poderia ter a visto ali, o observando com um sorrisinho apaixonado nos lábios, com os olhos brilhando e o coração acelerado só de saber que ele estava ali bem perto.
Foi chegando mais perto do edifício cor de mel e nunca se arrependeu tanto por isso. Seus olhos viram um corpo encostar no dele vagarosamente. Sentiu seu coração quase pular para fora, seu sangue fervendo, ela jurava que estava vermelha. Por um instante pensou em ter visto seus olhos cruzarem com os dele. Cruzaram. Aqueles olhos castanhos que ela tanto amava, mesmo que de longe, olhavam os dela como se pudesse puxa-la para si como sempre fez. Ela não sabia, nem nunca vai saber, mas ele sairia correndo dali ate ela, se pudesse.
As lágrimas que haviam secado, agora, estavam tão presentes como nunca haviam estado. Ela poderia inundar toda Manhattan se quisesse, se não tentasse ser forte. Sorriu para ele da forma mais falsa que conseguiu, da forma mais conformada que conseguiu. Colocou a mão no bolso da camisa xadrez e tirou um pingente pequeno em forma de coração. Seus queimaram ao ver o brilho do objeto em sua mão. Prendeu o choro na garganta e olhou para ele com olhos de dor, de saudade, de sensações que nem eu sei explicar. Deixou cair o pingente e saiu correndo do mesmo jeito que havia chegado ali.
Tirou a camisa xadrez e jogou em cima do sofá, como se o jogasse e disse, Ei, eu não preciso de você para sobreviver. Mas ela precisava, e ela sabia disso. Encheu mais um copo de vodka, pura, sem nada. Aquele liquido acido, gelado, desceu queimando por sua garganta e fazendo sua cabeça girar. Aquela dor passaria, nem que para isso ela precisasse sobreviver com doses de vodka. Nem que para isso ela precisasse afogar, todos os dias, sua dor naquele maldito copo de vodka.