in every single dream I dream
I knew when we collided
You're the one I have decided who's one of my kind
(Hey, Soul Sister - Train)
Saiu porta a fora na esperança de sentir o que não sentia ali, trancada naquele apartamento que tanta coisa trazia. Olhou, sem ver, aquelas pessoas passando pela calcada depressa, correndo para chegar em suas casas em mais um fim de dia. Sentiu aquele dia, quase noite, e percebeu que não havia sol, nem vento. Era um dia cinza como outro qualquer em Manhattan.
Guardou as mãos nos bolsos do enorme sobretudo preto e andou. Andou ate que seus pés pedissem socorro. Quando pode perceber, estava em frente ao Central Park. Não podia-se ver muito do verde que ali era presença constante, mas a magia daquele lugar permanecera intacta.
Sentou-se em um banco qualquer, ainda com as mãos guardadas. Cantarolou uma musica baixo demais, que ate ela mesmo não escutava. Sentiu seus olhos encherem-se de lágrimas e a garganta queimar. Não se mexeu. Não mexeu um músculo. Continuou sentindo seus olhos encharcados, revirou os olhos na esperança de sentir as lágrimas evaporarem. No entanto, a única coisa que sentiu, foram as lágrimas escorrerem por todo o seu rosto.
Depois disso não conseguiu controlar mais, as lágrimas viraram a sua única companhia. Olhou aquelas criancinhas minúsculas brincando com aqueles balões coloridos para la e para cá. Sorriu por imaginar que um dia ela poderia ter uma criancinha minúscula como aquelas. Sentiu uma presença ao seu lado, não quis olhar. Mas seus olhos sempre a traiam.
- Oi. - Disse uma voz conhecida ao seu lado. Fechou os olhos na esperança de que tivesse sido um desvaneio. Não foi.
- Oi. - Conseguiu dizer, embora baixo, aquela monossílaba.
- Você esta bem? - Perguntou.
- Arram. - Ela disse, o mais indiferente que pode. - E você?
- Também.
- Certo. - Disse, querendo correr dali, querendo não ter saído de casa, não ter deixado aquela solidão sozinha.
- Nao vai olhar pra mim? - Perguntou, quase suplicando. Ela se virou, impedindo-se de olha-lo. Seus olhos a traíram novamente, como sempre faziam. Ele abriu sorriso pequeno e infantil que a fez sorrir também. - O que tem feito?
- Consegui montar meu consultório. - Disse.
- Nossa! Eu fico tão feliz por você, meu... e, eu fico feliz! - Disse ele, embolando-se em suas proprias palavras.
- Obrigada. - Disse, tentando esconder uma certa felicidade em saber que ele cometia o mesmo erro que ela. - E você?
- Ah, eu e os caras estamos fechando um contrato com uma gravadora e tudo mais. - Disse ele, gesticulando com as mãos.
- Isso parece legal, boa sorte. - Ela sorriu de lado para ele.
- Obrigada.
O silencio tomou conta do Central Park. Pelo menos para eles dois. Mas na verdade, o silencio nunca os incomodou muito. Eles gostavam de ouvir a respiração um do outro, era o suficiente. Ele a puxou para perto de si, encostando-a em seu peito na esperança de sentir aquele cheiro novamente. Ela não recusou, queria sentir o cheiro dele também. Fechou os olhos só por sentir ele ali, tão perto.
- Sabe... eu... eu sei que agente brigava muito. E..
- E, agente brigava muito mesmo. - Ela o interrompeu, com um sorriso nos lábios por lembrar das brigas. Sempre preferiu ficar sem se falar por terem brigado, ao ficar sem se falar por nenhum motivo.
- Eu estava pensando e, bom, nos poderíamos ser infelizes juntos, brigando, mas felizes só por... só por estarmos juntos. - Disse ele, olhando sua mão procurando a dela. Ela abriu os olhos e sentiu as lágrimas tomarem conta do seu rosto. Como doía ouvir aquilo, como era bom e como era estranho. Ela não respondeu, apenas chorou em silencio. Ele entendeu seu silencio, sempre entendia. Levantou-se e deu um beijo demorado na testa dela, querendo não ter que ir.
- A gente se vê por ai, meu amor. - Ele percebeu seu erro, mas o que fazer se ela era mesmo o grande amor dele?
- Ta. Cuide-se e boa sorte la com a coisa toda da banda. - Ela disse com voz de choro e secando as lágrimas que ainda insistiam em cair de seus olhos.
- Certo, boa sorte com seu consultório. Devo ir la qualquer dia desses. - Brincou sem rir. - Eu te amo. - Disse baixo, porem o suficiente para ela escutar.
- Eu sempre te amei. - Ela confessou, dando o sorriso meigo que ele tanto amava. Aqueles olhos que a pouco choravam, agora, viam ele partir. Gostou de ter saido do seu apartamento frio, gostou de ter escutado aquela voz que tanto a acalmava, gostou de ter sentido aquele cheiro que tanto a fazia falta. Gostou de te-lo ali, tão perto. E gostou, mais ainda, por saber que ele ainda sentia o mesmo que ela.