Watching life pass from the sidelines
Been waiting for a dream
(This Time - August Rush)
As estrelas iluminavam o céu escuro daquela noite. A lua cheia nunca me encheu tanto os olhos. Sentei-me em um banco do parque, coloquei meu cigarro na boca e me pus a observar. Puxei e soltei a fumaça com preguiça e suspirei. Aquela noite me parecia Tao vazia, a lua e as estrelas não eram totalmente suficiente para me fazer acreditar que aquela era uma noite de sexta-feira. As pessoas andavam pra la e pra cá como se não houvesse nenhum problema as esperando em casa. Talvez não houvesse mesmo. Talvez o problema todo seja eu, não o que eu achava que era.
Olhei para o lado e vi um garotinho sentado ao meu lado, com um papel enrolado, imitando um cigarro. Eu sorri. Levei meu cigarro a boca, e traguei. Ele me imitou.
- Fumar e errado. - Disse ele, fazendo cara de nojo para o objeto em minha mão.
- Então por que esta fumando? - Brinquei, sorrindo.
- Ah, esse e de mentira. - Disse, jogando o rolinho de papel branco pra trás. - O seu e de verdade. Deveria joga-lo fora. Seus pulmões irão ficar podres. - Ele torceu o nariz. Eu ri.
- Então, acho melhor eu joga-lo fora mesmo, não quero meus pulmões podres. - Eu disse, tragando uma ultima vez, apagando e jogando fora, como ele fez.
- Agora eu posso ir. - Ele anunciou, levantando-se. Levantei.
- Pode ir? Por que? - Fiquei confusa, afinal, nem havia visto aquele garoto sentar-se ali.
- Bom, meu trabalho era fazer você apagar este cigarro. Aquele moço de branco ali, - disse ele apontando para um lugar vazio - mandou eu lhe dizer isso. - Olhei para onde ele apontava, e nada vi.
- Mas não há ninguém ali, meu anjo. - Disse carinhosamente, tentando entende-lo.
- Bom, mas ele me pediu, e eu vim, afinal ele me deu um doce. - Ele sorriu vitorioso mostrando o pirulito.
- Então, eu lhe dou mais um doce, se você me levar ate ele. - Disse, pegando um chocolate no bolso do meu casaco preto.
- Não posso. Ele também disse que se você quisesse vê-lo, era para eu dizer que não. - Ele ficou triste.
- O que foi?
- O moço parecia legal. E, olhe, eu não sou menininha, mas ele era bonito. - Ele disse, fazendo cara feia quando disse menininha. - Ele ate jogou um pouco de bola comigo. Eu sorri.
- E... e esse moço era alto? - Perguntei.
- Era. - Disse ele, abrindo seu doce. Olhei em volta, eu o procurava. Era ele, eu tinha certeza.
- Me conte sobre como ele era.
- Ah, ele era alto, tinha o cabelo meio espetado, sei la, e tinha os olhos iguais aos seus. - Ele disse, sendo gentil. - Alias, você e muito bonita.
- Obrigada, você também e bem bonito. Tem namorada?
- Não, eu ate gosto de uma menina, mas ela nem gosta de mim. - Disse triste e colorando o pirulito na boca. Olhei em volta, e não o encontrei.
- Você devia dar flores a ela, ou um doce, como este. Ela iria gostar.
- Boa ideia. - Ele sorriu. - Agora tenho que ir, a minha mãe esta me chamando.
- Tudo bem, foi bom conversar com você.
- Tchau, moça bonita. E ah, não fume mais. - Ele fez cara brava.
- Fumar? Nunca mais. - Eu sorri pra ele, e ele se foi.
Olhei a minha volta apenas mais uma vez, e não o vi, de novo. Achei que tivesse sido ele, ele odiava quando eu fumava. Fitei o chão sobre meus pés e suspirei. Levei minha mao ate o bolso do casaco e peguei o cigarro.
- Não faça isso. - Disse uma voz que vinha do alto. Olhei. Sorri.
- Sabia que era você. - Quis parecer indiferente. Não consegui. - Que coisa mais baixa, pedir a um garotinho para que me dissesse que fumar e ruim.
- Sabia que se eu pedisse, você não pararia. Nunca parou.
- Se eu fumo como fumo a culpa é sua. - Falei brincando, mas querendo dizer outra coisa.
- Eu senti saudades.
- E-eu també-ém. - Olhei pra ele, ele me olhava atento.
- Você não ligou mais, não foi me ver...
- Nem você.
- Não liguei porque você também não o fez.
- Eu só não liguei por que você não ligou.
- Tudo bem, eu te desculpo.
- Não pedi desculpas.
- ...
- Desculpa? - Abaixei os olhos.
- Não há o que ser desculpado, mocinha. - Disse ele, sorrindo e levantando meu rosto pelo queixo.
- Se eu parar de fumar, você... vo-cê... - Não consegui terminar.
- Eu volto pra nossa casa. - Ele sorria radiante. Eu sorri timida.
- Mas só se eu parar de fumar? - Fiz bico.
- Já ta querendo demais. - Ele fez pose. Eu ri. Eu gostava quando ele me fazia rir.
- Pensei que voltaria porque sentiu saudades e...
- ... e porque eu te amo.
- Eu também... te amo. - Eu disse por fim.