with goodbye and open arms
A cut so deep I don't deserve
Well, you were always invincible in my eyes
The only thing against us now it time
(Could It Be Any - The Calling)
Escutou, de longe, aquela melodia invadir seus pensamentos e sentiu, querendo não sentir, aquelas lágrimas descerem por suas bochechas. Abraçou as pernas como se o abraçasse, como se pudesse segura-lo para sempre. Chorou em silencio com medo de que ele escutasse, mesmo sabendo que ele não iria. Não mais.
Olhou a garrafa de vodka sobre a mesa, pela metade. Pensou em afogar toda a sua tristeza naquele recipiente de vidro tão convidativo. Pensou em se afogar naquele recipiente. Pensou em dormir e não acordar mais, para que não fosse obrigada a conviver com todo aquele vazio. Rolou os olhos na esperança de escutar alguma reclamação. Não houve. Por um momento, por um milésimo de segundos, quis poder voltar no tempo e, num ápice de loucura, não te-lo conhecido.
Odiou-se por pensar tal absurdo. Conhece-lo foi - e ela tinha convicção disso - a coisa mais certa, mais linda e mais magica que ela viveu. E, por mais que não houvesse futuro, ela o carregaria consigo. Carregaria toda a magia que eles construíram juntos, toda a beleza, a confiança, toda a historia. Ela, um dia, contaria ao mundo a sua historia. E, como ele mesmo dissera um dia qualquer, Talvez, um dia, você possa descrever o amor em uma palavra. E ela pôde. Ela descreveu. Ela descreveria naquele mesmo dia se tivesse a coragem que tem hoje.
Deitou no sofá preto que tanto amava e recostou a cabeça na esperança de adormecer. Porem, a única coisa que conseguiu, foi sentir mais lágrimas por suas bochechas, mais lembranças de um passado não tão distante, mas um passado que deixou saudade. Prestou bastante atenção naquela melodia ao fundo e pode enxerga-lo nela. Pode ouvir sua voz naquela canção, ver seu sorriso, sentir seus braços e então sorriu. Sonhava acordada com ele ao seu lado, com aqueles olhos castanhos a observando como se quisesse guardar cada traço do seu rosto. Aqueles olhos que tanto a hipnotizavam, que tanto a fez sonhar, são os mesmos olhos que ela viu partir.
Aqueles olhos desculpavam-se, sem a necessidade de palavras. Eles diziam, Ei, perdoe-me por isso, a verdade e que... bom, eu amo você. Aqueles olhos o traiam, e ela sabia disso, mas nada disse. Sabia que, no fundo, ele sempre quis deixar os olhos falarem por ele. Isso doía nela e, não era porque ela queria, mas era incontrolável. Ela não sabia fazer seus olhos não dizerem por ela. E ele sabia disso. No entanto, ninguém disse nada, alem daqueles pares de olhos castanhos. Não houve palavras, portanto, não houve suplica. Ele foi, deixando-a com lágrimas nos olhos, deixando aqueles olhos gritando para que não fosse. Ela ficou, sem saber que aqueles olhos recem partidos, choravam tanto quanto os dela; sem saber que aqueles olhos a amava, amava tanto, que preferiu deixa-la.
Ela suspirou não tendo noção de quanto tempo havia se passado desde que aquilo aconteceu. Rasgou um pedaço de papel, pegou a caneta em cima da mesa, ao lado da vodka, e descreveu o amor: Você.
A vodka parou naquela mao branquinha e delicada, e foi levada para fora. Para longe daquele sanatório, para longe daquela solidão intensa. Para longe de tudo.