sem frases clichês
ou qualquer amor cortês
jogo-me em ti
arranco-lhe gemidos
dos mais baixos
e bonitos:
dos que me fazer sorrir
então arranca-me gritos
abafados por seus beijos
que, de tão molhados,
fazem-me pensar que beijos
também ficam excitados
23 de outubro de 2012
autoresapecas
despeço-me dos autores
cujos sabores fizeram-me sorrir
despedaço-me em rumores
nos quais fizeram-me
enfim.
descobrir-me-ei no gosto
dos mesmos - autores -
cujas bocas pediram-me
fique e fim
cujos sabores fizeram-me sorrir
despedaço-me em rumores
nos quais fizeram-me
enfim.
descobrir-me-ei no gosto
dos mesmos - autores -
cujas bocas pediram-me
fique e fim
14 de setembro de 2012
aquarela de amor
essa morena
de dia pequena
de noite serena
me faz só cantar
cantigas de amores
sem dores, só mar
essa morena
de noite tão bela
de dia aquarela
que pinto no ar
12 de setembro de 2012
abrigo de mim
Vicente chegou e pôs seus sapatos cheios de terra sobre a mesa de centro. Pegou um cigarro com dificuldade do bolso do paletó e tirou o isqueiro do bolso traseiro do jeans surrado. Acendeu o cigarro e tragou, jogando a fumaça no ar.
_ Sabe o que é? - começou. Eu o olhei confusa, apertei os olhos e os lábios um no outro. - O tempo lá fora não anda nada bem, nada bem. - tragou, novamente, o cigarro. - E eu venho precisando de um abrigo, sabe? Um abrigo que me abrigue, não um albergue de uma noite só. Um abrigo que me proteja, noite e dia, faça chuva ou sol, arco-íris ou casamento de viúva. - riu com sua frase idiota. Pegou o cigarro por entre o indicador e o polegar e o olhou, pondo na boca novamente - Sabe o que é? - ele me olhou nos olhos. Tragou o cigarro e jogou a fumaça em meu rosto - Tô precisando mesmo é de você.
_ Sabe o que é? - começou. Eu o olhei confusa, apertei os olhos e os lábios um no outro. - O tempo lá fora não anda nada bem, nada bem. - tragou, novamente, o cigarro. - E eu venho precisando de um abrigo, sabe? Um abrigo que me abrigue, não um albergue de uma noite só. Um abrigo que me proteja, noite e dia, faça chuva ou sol, arco-íris ou casamento de viúva. - riu com sua frase idiota. Pegou o cigarro por entre o indicador e o polegar e o olhou, pondo na boca novamente - Sabe o que é? - ele me olhou nos olhos. Tragou o cigarro e jogou a fumaça em meu rosto - Tô precisando mesmo é de você.
infindo amor pintado a óleo
Veja só, meu bem, o céu dia desses me lembrou você. E eu me deixei derramar lágrimas sobre o parapeito da janela. O céu parecia tela pintada a óleo e o quarto, de um breu absurdo, fez o meu peito doer. O céu me lembrou você e a saudade guardada aflorou, transbordando por meus olhos que, outrora secos, iluminados, brilhavam amor. E agora nem sequer brilham, são feito cachoeiras infindas. Como o meu amor.
30 de agosto de 2012
Olha, Vicente,
eu sei que já faz tempo. Sei que o céu, agora, é de um laranja sem fim. E o vento corre rápido. Como o tempo. Sei que lótus já nasceu. Lembra que você costumava dizer que era tal como nosso amor? Eu sei, eu sei. Já faz muito e só agora lhe escrevo. Acontece, Vicente, que por muito tempo fitei o papel em branco. De um branco puro, leve. A caneta negra em minhas mãos dançavam por meus dedos. E nada saía. Por muito criei diálogos, desculpas, saudades. Mas jamais pude exterioriza-los. Eu sei, Vicente, orgulhosa que sou, demoraria de qualquer jeito. Mas veja, Vicente, agora lhe escrevo. Não acho que devo pedir-te desculpas ou escrever-te como imaginei nosso reencontro. Escrevo-te coisas boas. Eu sei, eu sei. Logo eu, tão pessimista. Aprendi a ser melhor depois que se fora. E não pense que foi melhor assim, aprendi de forma tão doída. E ainda dói. Eu sei, Vicente, ainda não disse a que vim. A que lhe escrevo. Escrevo-te somente para relembrar do nosso amor infindo. Eu sei, Vicente, que você não crê nessas coisas espirituais. Mas veja que, mesmo depois de muito, escrevo-te minhas saudades. E que saudades, Vicente, que saudades.
23 de agosto de 2012
14 de agosto de 2012
poetamático
Procuro me perder nas boas lembranças de você. E quando o faço, num súbito ato de sanidade, desejo voltar. Seus olhos negros penetram em meu âmago, enchendo-me de vazio. E o seu sorriso torto e sem cor me divide em mil pedaços. Multiplica-me e, de súbito, querendo se redimir das dores dadas à mim, soma-me a si. Iguala meu coração antes partido ao seu que, embora não brilhe teus olhos, é mais feliz que o meu.
'a bailarina e a saudade de chumbo'
E então a chuva veio. As gotinhas - que mais pareiam de lágrimas - desputavam corrida na janela do carro. A música a penetrou a mente. Seu corpo balançava no ritmo do choro e seus pés remexiam na mesma sincronia que suas pálpebras. A bailarina chorou chuvas de saudade vendo as lágrimas escorrerem pelo vidro ao seu lado. A bailarina, que já não podia mais dançar, saltou pela janela como quem salta de um trampolim. Como quem salta para longe de si. A bailarina, que a única dança que sabia perfeitamente era a de seus olhos, apavorou-se ao senti-los sendo fechados. Junto com o coração. E então a chuva cessou, lá fora e lá dentro, no mesmo instante em que a música calou. A bailarina que só dançava saudade, enfim, findou seu espetáculo.
8 de agosto de 2012
doar-se, doer-se, domar-me
Me dou àquele que domou meu ser.
Cativo aquele que se deu à mim.
Sem ver, sem nem sentir,
domas-te o eu que já não reside em mim.
E se doeu de amores por alguém sem alma,
se doou à quem só se deu por carma
e se deixou domar por mim,
que só existo em ti.
Cativo aquele que se deu à mim.
Sem ver, sem nem sentir,
domas-te o eu que já não reside em mim.
E se doeu de amores por alguém sem alma,
se doou à quem só se deu por carma
e se deixou domar por mim,
que só existo em ti.
7 de agosto de 2012
apague a luz, vamos fugir de nós
Ele acendeu as luzes e eu vi seus lábios formarem um sorriso lindo. Só de vê-lo sorrir, meu mundo se iluminava. Meus lábios formaram um sorriso que pude ver em seus olhos: não tinha tanta beleza quanto o seu. Mas ele o contemplava como se tivesse. Seus olhos brilhavam e as maçãs de seu rosto se elevavam a cada sorriso. Seu cabelo parecia mais claro com o Sol adentrando pela janela e seu abraço era tão bom quanto como à noite. O quarto transbordava paz. Seus olhos, amor. E os meus, quando refletidos nos seus, saudade de tê-lo pra mim. Ele apagou as luzes e me tomou nos braços. Dei meu mundo à ele naquele abraço; ele, seu amor.
25 de julho de 2012
a felicidade vem vindo e é azul
Eis que surge o som. As luzes se acendem lentamente, deixando seus olhos em todo lugar. A mente se afasta de si e viaja para todo e qualquer canto, mesmo os não vistos. Os olhos veem casais se beijando, crianças brincando ou roubando docinhos, velhinhos que não sabem dançar. Ou não lembram. Adultos que mais parecem quando pequenos e meninos e meninas tão maduros quantos seus avós. Há a moça de azul turquesa e o rapaz de lilás. Há um bebê chorando por peito e uma criança puxando a barra do vestido da mãe. Há olhos arregalados e risadas escandalosas. Há sorrisos discretos e abraços sem jeito. Há um copo meio cheio de vinho e outro que não para vazio. Há cerveja derramada na toalha e refresco fingindo ser bigode. Há dança que finge existir. Há o balanço tímido dos pés e pernas que não sossegam. Há aqueles que se vão, tão cedo, e os que parecem ali morar. Há os que acabam de chegar. O menino que deixou o pirulito cair e a moça que não para de querer um. Há amassos escondidos que deveriam ser censurados. Há sorrisos. E gritos. Há a preocupação no rosto da senhora de marfim e zelo no do senhor de cinza. Há luzes. E velas. E flores que mais parecem borboletas. E mais luzes. Há o som ensurdecedor e a música que toca devagar, mesmo sem existir. Há o som dos sorrisos e das risadas. Há o som dos sapatos batendo no chão e dos tapinhas nas costas. Há lágrimas. Despedidas de até breve que parecem ser eternas. Há as que deveriam parecer. Há acenos e beijos no rosto. Muito mais na boca. Há discussões que parecem luta livre e há as que parecem declarações de amor. Há um rapaz de terno, gravata azul marinho e um sorriso branco de dar inveja. Seus olhos marejam acompanhando o andar da moça. Há a moça de branco, que tem os olhos marejados vendo os do rapaz acompanhá-la. Há um buquê azul. Há sinos tocando em suas cabeças. Há a vontade de dar as mãos, os pés, os braços e sair correndo. Há a vontade de se jogar no colo dele e a vontade de que ele aguente. Há os olhos se encontrando ao mesmo tempo em que as bocas. Há aplausos. Há risadas e choros que mais parecem risadas. Há uma chuva de sorrisos. E arroz. E coisas coloridas. Há uma chuva de amor. Há o buquê voando alto, cheio de pressa de cair. Há a felicidade voando para o colo de outro alguém. Há o contágio, a necessidade de compartilhar. Há tudo e não há nada. Há a moça cega que quer ver através de pequenos óculos negros. Mal sabe ela que a felicidade está chegando. E vem voando. E é azul.
24 de julho de 2012
breu de mim
A luz se apaga e o que fica são apenas restos de certa lucidez. Os olhos demoram a se acostumar com tamanho breu, enquanto o coração fica aliviado de estar, enfim, em casa. Os braços tremem de frio e as pernas se encolhem. Os olhos, antes perdidos, agora veem um vulto ou outro de saudade vagando pela casa. E então, em um súbito ato de medo do contágio, vê-se correndo de vestígios de lembranças de um tempo que, em seu âmago, sabia que não voltaria. Seus olhos fecharam depressa, com pressa de eliminar qualquer possibilidade de um rosto surgir à sua frente. No entanto, quem já conseguiu dominar a mente? Fechá-la depressa, mesmo antes de um beija-flor bater suas asas, mesmo antes de qualquer memória vir à tona? Inútil a tentativa de abortar más lembranças e memórias inconsequentes. Inúteis são, pois, em toda a existência do ser humano, não há aquele que realmente viveu sem ter o coração dilacerado ou enterrado ainda vivo. Não há aquele em que não teve os olhos marejados por infelicidades ou infidelidades, seja quais forem. Em toda a existência, não houve sequer um coração intacto, sem dores. Por que, então, seria o dela impermeável? O dela - o coração - é, no mínimo e no limite que posso ousar entender, resto do que realmente fora, um dia. Quando o sol a encorajava a ver o mar e celebrar a vida. Quando a chuva era motivo de êxtase, não de tristeza. Quando os sorrisos faziam-se presentes e os abraços eram aconchego. Quando as noites davam a impressão, não de que um dia se fora, mas, sim, de que um outro estaria por vir. O coração dela era resto de tudo o que poderia continuar sendo - se não fosse o maldito amor -, mas não foi. Coração que, agora, vê-se mais à vontade no breu do teu âmago ao clarão de seus olhos.
20 de julho de 2012
morte súbita de mim
Pensei ter morrido, ter criado teias em meus dedos, em meu peito. Pensei ter sido enterrada dentro de meu próprio íntimo. Perdida em mim, pensei ter sido pega, amarrada, assassinada. Pensei ter sido morta por minhas próprias palavras. Pensei ter sido raptada e forçada a ser só eu. Pensei ter morrido, mas era só o inverno se apoderando de mim.
14 de julho de 2012
Frederico, há vida?
Eu queria te contar o que são todos esses anos sem um sorriso teu. Ou um olhar desconfiado que fosse. Até mesmo um resmungo baixo, enjoado da vida. O que são as manhãs sem leite morno, torrada e almoços em casa. A cama, por exemplo, tornou-se vasta demais, vazia demais. Demasiadamente incompleta. Os travesseiros dormem na cama e acordam no chão. Não há você os prendendo entre as pernas. Não há cobertores e cobertores sobre a cama, apenas um lençol fino e frio. Não há a televisão ligada a noite inteira. Não há noite inteira, só fragmentos. Pedaços de noites em que durmo e acordo com pressa, com os olhos correndo pelo quarto, procurando qualquer sinal de você. Não há você.
Já faz tempo que quero lhe contar estas coisas, mas não o encontro. Não lhe sei. Não me sei.
Não há você há muito e já nem sei se houve, um dia.
Não há eu, Frederico, pois hei de ter morrido com todo o resto ao meu redor.
Já faz tempo que quero lhe contar estas coisas, mas não o encontro. Não lhe sei. Não me sei.
Não há você há muito e já nem sei se houve, um dia.
Não há eu, Frederico, pois hei de ter morrido com todo o resto ao meu redor.
12 de julho de 2012
âmago perdido
perdi o mapa do teu quarto
do teu corpo
do teu gozo
e agora
perdido em seus olhos
perco o fôlego
perdido em meu âmago
nos perco
do teu corpo
do teu gozo
e agora
perdido em seus olhos
perco o fôlego
perdido em meu âmago
nos perco
dores de outra vida
a moça que dança
rodopia e canta
nas praças do mundo
quando finda o espetáculo
se agacha e chora
dores de outra vida
que o mundo lhe deu
rodopia e canta
nas praças do mundo
quando finda o espetáculo
se agacha e chora
dores de outra vida
que o mundo lhe deu
falemos dos breves animais
até o cachorro era efêmero:
o amor, a dor, a cor, a flor
o ardor do machucado no joelho
lágrimas, audácias, falácias
impávidas
até o coelho
o amor, a dor, a cor, a flor
o ardor do machucado no joelho
lágrimas, audácias, falácias
impávidas
até o coelho
11 de julho de 2012
menina aurora
lá vem a aurora
trazendo de novo
esse seu olhar
e ela
que ama e chora
que canta e tem pressa
de voltar
lá vem a aurora
levando embora
o meu sonhar
trazendo de novo
esse seu olhar
e ela
que ama e chora
que canta e tem pressa
de voltar
lá vem a aurora
levando embora
o meu sonhar
amor póstumo
póstuma
peço perdão
aos seus abraços
que deixei por entre traços
de um romance sem futuro
póstuma
inclino-me ao abismo
me jogo, me atiro
hei de matar o meu
inútil amor por ti
peço perdão
aos seus abraços
que deixei por entre traços
de um romance sem futuro
póstuma
inclino-me ao abismo
me jogo, me atiro
hei de matar o meu
inútil amor por ti
cidade maravilhosa
raia lá fora
grande sol maravilhado
por essa enorme cidade
maravilhosa
é a lua que nasce às seis da tarde
mas, na verdade, o que faz
é ressurgir
é aparecer no enorme teto azul
sobre nós
lá no alto, quando não olho, há tudo;
quando contemplo, o mundo.
grande sol maravilhado
por essa enorme cidade
maravilhosa
é a lua que nasce às seis da tarde
mas, na verdade, o que faz
é ressurgir
é aparecer no enorme teto azul
sobre nós
lá no alto, quando não olho, há tudo;
quando contemplo, o mundo.
28 de março de 2012
Falsas faltas fajutas.
Quando tudo o que sinto, o que guardo no fundo do peito e na garganta, preso à sabe-se lá o que dentro de mim, agarrado a cada órgão vital e a cada gota de sangue — quando tudo isso não pode ser exteriorizado por nada além de lágrimas e silêncio, resta-me pouco senão sentar frente à ti e desabar-me em rios de lágrimas e vazio. De ausências de prosa qualquer, de tristezas que tornariam-se tão fajutas quando em palavras. Resta-me quase nada a não ser olhar-te nos olhos e nos seus desenhar com os meus toda minha dor. Tentar mostrar à ti sem abrir a boca o quão doente é minha falta. Sentir falta de ti em cada canto obscuro do meu quarto, em cada lençol que forro a cama, em cada canal de televisão que ponho, em cada estação sintonizada no rádio. Sentir falta de ti em cada livro que tenho para ler mas não leio, nem por mil decretos, em cada peça de roupa que arrancaste com tamanha delicadeza, em cada peça íntima que fora capaz de tirar-me com dentes. Sentir falta de ti, mas não apenas sentir, e sim, ser falta. Ser o vazio que deixastes quando se foi. Ser o armário vazio de ti, a cama carente de nós. Ser o microondas sem ondas de amor, ser a geladeira vazia de verdes. Mas não apenas ser. Ou sentir. Mas sim, ter como refém toda e qualquer parte da casa que me lembre você. Guardar o cheiro do teu pescoço, da tua roupa, dos teus beijos. Guardar em mim pedaços vívidos de você. Tatuar em mim declarações feitas em meio a tantas e tantas noites de amor. Muitas e muitas súplicas para que ficasse. E ficava. Esse meu jeito fajuto de sentir falta. De não ir atrás, não ligar, não procurar, não gritar por seu nome. De não ser falta em você. De não te deixar buracos, perdas, ausências. Vazios em que eu me encaixaria sem o menor esforço. Essa minha falta medíocre, cretina, perdedora. Essa mania de sentir ausência, denominá-las falta e nem saber ao certo do que. Olhar-te nos olhos com os olhos cobertos de mares, arquear e baixar as sobrancelhas, entrelaçar os dedos e abaixar a cabeça. Suplicar por invisibilidade. E então, em um súbito ato do ápice da minha falta, beijar-te os lábios. E saber que teus olhos permaneceram fitando os meus, mesmo que fechados, mesmo que sonhando com nossas noites de pizza e filme. Mesmo que eles estivessem desejando imensamente que tudo acabasse. Que a distância imposta por você sumisse inteira e completamente. Que eu pudesse agarrar-te, beijar-te, arrastar-te até nossa cama. Que os vizinhos gritem, briguem, chamem a polícia. Que a cama quebre, a televisão pife, a comida acabe, a energia caia, a roupa rasgue. O tempo pare. Que as lágrimas fossem de felicidade. Que o silêncio tenha sido ocupado por sorrisos. Que minhas mãos estivessem entrelaçadas nas suas. Que nossas testas estivessem coladas e que nossos narizes estivessem gelados juntos. Que a falta fajuta e não fajuta que sinto cada segundo do meu dia, durante todos os dias, transformasse-se em horas ao seu lado. Que distância nenhuma tenha sido imposta ou que tempo nenhum tenha nos distanciado. Que eu possa falar-te um dia tudo o que eu disse outro dia apenas com lágrimas e um longo silêncio.
2 de março de 2012
Pedaços de amor em manchas de lágrimas sobre o papel amassado.
Deixo-lhe, aqui, os meus sinceros carinhos. Os agradecimentos tomei a liberdade de guardar para mim, afinal, foi tudo uma troca muito justa. Nosso amor foi uma troca muito justa. Mas uma troca. E o amor, principalmente, deveria ser uma daquelas coisas em que fazemos sem esperar qualquer reciprocidade. Incondicionalmente, exatamente como o amor deveria ser tratado. E nós, em toda nossa insignificância de ser, ou não, humano, tratamos o amor como um cumprimento. Só se dá amor quando se recebe. E como bons seres-humanos que somos, em toda essa brincadeira de quem deseja o bom dia primeiro, acabamos tendo um péssimo dia e nenhum amor para suspirar por. Nenhum beijinho de boa noite, nenhuma declaração de amor, por mais clichê que fosse. Nenhum sinal de carinho, de carícias, de afeto, de existência. De que ali já houvera amor. De existência de nós. Junto com os carinhos, fui ousada o suficiente para deixar-lhe alguns beijos de despedida. Espero que goste, sabe que batom em meus lábios me aterroriza. Valorize este pedaço de papel com manchas vermelhas, pois jamais verá parecido ou de verdade. Confesso-lhe que sinto falta dos teus beijos distribuídos por cada parte de mim. Saudade. Não se preocupe, não dói tanto, forçou-me a aprender a conviver com ela. Neste pedaço de papel rasgado e pouco amassado, peço-lhe que não me procure. Sei que lembrarás de mim quando for se deitar, pensará em alguém para cantar-lhe cantigas de ninar em seu ouvido e não encontrará ninguém além de mim. Tocará o telefone, mas desistirá. Sei que irá sonhar com nossas noites de amor e acordará sorrindo. Esperará por qualquer sinal que venha de mim, mas nada virá. Eu não irei. Sinto-me perdida escrevendo-te e mais ainda sem ter-te aqui. Sinto-me em um enorme campo escuro, gélido e completamente ausente de você e de qualquer outra pessoa que seja. Sinto-me só mesmo em meio a milhões de pessoas. Sinto-me só pois não o sinto. Não o sentindo, não o tenho, não o pertenço. Mas o amo. Sinto-me em paz quando te penso comigo, quando repenso em você e trepenso em nós. Sinto-me triste quando procuro mas não o encontro, sei que não estás por aqui. Amor tem isso de esperança em excesso, de que é a última que morre. Tenho boas novas, o amor tem outro nome. Adivinhe só, pois não me atrevo a dizê-lo. E o amor, tendo o nome que tem, não poderia permanecer em nós.
Deixo-lhe, aqui, neste pedaço de papel manchado com batom vermelho, amassado, rasgado e com vestígios de um choro breve, meu sincero amor por você.
Meu desamor,
que é o que está por vir,
deixo para escrever-te outra hora.
Não volte, não procure. Amo-te, mas não te gosto.
Não telefone, não venha até mim.
Amo-te, gosto-te mas não o quero.
Amo, gosto e quero e tudo o que disser sobre ir-embora-para-nunca-mais esqueça.
Apareça pela manhã, farei um café bem doce para você. Não bata na porta, não toque a campainha. Acorde-me emminha nossa cama. Beije-me a testa, os lábios, o rosto. Tome café comigo e sirva-me um pouco de amor eterno. Não sei se há, mas você pode trazer quando vier.
Não se atrase, estarei sonhando com você.
Deixo-lhe, aqui, neste pedaço de papel manchado com batom vermelho, amassado, rasgado e com vestígios de um choro breve, meu sincero amor por você.
Meu desamor,
que é o que está por vir,
deixo para escrever-te outra hora.
Não volte, não procure. Amo-te, mas não te gosto.
Não telefone, não venha até mim.
Amo-te, gosto-te mas não o quero.
Amo, gosto e quero e tudo o que disser sobre ir-embora-para-nunca-mais esqueça.
Apareça pela manhã, farei um café bem doce para você. Não bata na porta, não toque a campainha. Acorde-me em
Não se atrase, estarei sonhando com você.
22 de fevereiro de 2012
A incerta certeza de que era real.
O coração vivia num aperto só desde que ele partira naquela noite fria e sombria de fevereiro. Seus olhos lutavam constantemente contra inúmeras tsunamis que vezenquando davam sinal de que surgiriam. No entanto, como boas tsunamis que eram, certas vezes não avisavam, pegando-a desprevinida, tendo todo o rosto e travesseiro inundados. Seus dedos incontroláveis buscavam-no no espaço vazio da cama ao seu lado, recuando entristecidos pela descoberta de um lugar vazio, exatamente como ele deixara quando partira. Assim como tudo à sua volta. O guarda-roupa ainda possuía o aroma de suas roupas, os sapatos arrumados de acordo com cores, antes presentes, agora inexistentes. O modo como ele arrumava as cortinas da sala permanecia lá, intacto. Seus chinelos, que talvez ele tenha esquecido de guardar na mala, estavam na entrada da casa, esperando-o como se ele fosse voltar no final da tarde. A dispensa repleta de biscoitos rosa e branco, nenhum marrom. A salada, ainda intacta na geladeira, esperava ser devorada pelo jantar naquela noite, mas nunca fora tocada. A televisão no canal de jogo, exatamente como naquela noite, pouco antes da coisa toda acontecer. Não se atreveu a mudar de canal, comer a salada ou comprar biscoitos de chocolate. Não quis lavar a casa por completo para tirar seu cheiro, os lençóis ou o rosto, ainda coberto por lágrimas de uma noite que tinha tudo para ser qualquer de fevereiro. Não jogou fora os chinelos, nem mudou o jeito das cortinas. Talvez ele volte, pensava, constantemente. Ele vai voltar. Pensou em ligar e perguntar o que queria de jantar para aquela noite, como sempre fazia, mas não tinha certeza de que ele responderia. Pensou em sentar na escada, acender um cigarro e esperá-lo chegar, assim como todos os dias. Sentou, perdeu a conta de quantos cigarros foram acesos e tragados e esperou. Em vão. Adormeceu nos degraus da escada, sendo acordada por batidas na porta. Em um pulo, levantou-se e atendeu. Seu rosto, antes coberto por um sorriso tão grande que não cabia no rosto, agora escondia o ápice da felicidade. Seus olhos, em um ato esperado e inesperado, arregalaram-se e choraram saudades de tempos que vieram à tona quando o viu ali, parado em sua frente, sorrindo como se soubesse o que causava nela. E sabia. A pegou no colo, a rodou e rodou e rodou até que pedisse para parar. Parou. Sua risadas eram constantes, assim como os sorrisos que ele deixava escapar. Os dois ali, juntos, inseparáveis, felizes e sem dor alguma era o que ela tanto desejou desde que se fora. E tudo isso só poderia ser ilusório.
Acordou com seu cachorro lambendo seu rosto e, antes de qualquer coisa, ter o rosto babado por seu animal a lembrava de quando ele a beijava o rosto por inteiro para acordá-la. E, mais uma vez, vieram à tona aquelas lágrimas, tão suas amigas. Tudo ali lembrava ele. Desde as cortinas até seu cachorro. Desde aroma até o toque. Tudo, exceto ele. E essa ausência que ele fora capaz de impor, por mais doída que tenha sido e que continua sendo, é o que a faz acordar todas as manhãs. Preparar o café para dois, arrumar a casa, trabalhar, ligar infinitas vezes para seu número, mesmo sabendo que fora cortado, para perguntar o que fazer para o jantar, esperá-lo incansavelmente por horas até adormecer nas escadas de sua casa. E sonhar, todas as vezes em que adormece ali, ali mesmo, nos degraus, com a campainha tocando, seus olhos se arregalando e ele a rodando sem parar. Os dois juntos, inseparáveis, felizes e sem dor alguma, mas com toda ilusão existente no mundo.
20 de fevereiro de 2012
Desconhecido, mas encantador...
Teve os lábios selados por um completo estranho. Desengonçada, foi afastando-se dali até que não o pudesse ver mais. Caiu sobre os joelhos e encostou a testa no chão, pediu a quem quer que fosse que morasse acima de sua cabeça que olhasse por ela. Que pedisse, desesperadamente, amor por ela, pois ela já não adquiria mais forças para tanto. Pedir, embora parecesse fácil, era a coisa mais complicada de se fazer. Desejou que ninguém a visse ali, jogada ao chão como ou pior que um mendigo. A culpa a tomava na mesma medida em que o álcool queimava sua garganta e que aquela música adentrava seus ouvidos e não saía nunca mais. A vontade de sair correndo era predominante, mas o que lhe faltava era coragem de se levantar e enfrentar aqueles rostos desconhecidos pelos quais jamais poderia pedir ajuda. E não foi preciso pedir. Teve os braços agarrados por mãos mais quentes que as dela, o corpo elevado e os olhos frente a frente à um par de olhos desconhecidos mas encantadores. Encantadores, mas desconhecidos. Desconhecidos, mas encantadores. Encantadores...
Arregalou os olhos quando se deu por conta de que estava sentada à beira do mar, com algo amargo em seus lábios. Pensou ser café e mesmo adorando seu gosto, deixou de lado os sabores que a tomavam e focou apenas no par de olhos encantadores mas desconhecidos ao seu lado. Baixou os olhos em um ato de timidez, querendo impedi-lo de ver suas bochechas levemente coradas. Entrelaçou uns dedos nos outros, desenhou qualquer coisa com o calcanhar na areia, suspirou pesado, querendo não demonstrar o quão confusa ou culpada estava. O viu abrir a boca para soltar um clichê qualquer, mas tossiu antes que ele pudesse começar a dizer qualquer coisa que fosse. Deixá-lo dizer alguma coisa significava qualquer laço de simpatia ou companheirismo, e era justamente o que ela não queria. De novo. Levantou os olhos para olhar o par de olhos desconhecidos mas encantadores ao seu lado, e só então viu que ele a observava em seus devaneios. Sorriu sem querer, fazendo os olhos desconhecidos brilhares ainda mais. Pensou em dizer alguma coisa, agradecer pela gentileza de tirá-la de lá ou desculpar-se por tê-lo feito perder aquela coisa toda com música e bebida. Mas não sabia como fazê-lo, e então preferiu continuar em seu silêncio confortante. Vez ou outra sentia os olhos desconhecidos mas encantadores em cima dela, observando-a e medindo-a, mas ficou surpresa por não sentir-se incomodada. Quis sentir o sabor de seus lábios, verificar se era exatamente como imaginou pouco antes, mas não sabia como fazê-lo. Pedir estava fora de cogitação, onde já se viu? Pensou em seduzi-lo, mas logo foi tomada por risos incontroláveis causados pela hipótese insana em que pensou. Seu riso causou largos sorrisos no rosto do desconhecido de olhos encantadores. Esperou por uma pergunta, mas nada veio. Não lembrava do rosto do estranho em que selou seus lábios ou cor dos seus olhos. Não saberia dizer a cor dos seus cabelos ou da sua camisa, no entanto poderia escrever uma redação sobre o sabor dos seus lábios, mas jamais descrever realmente. Piscou algumas vezes e o olhou. Não diga, não diga, não diga, repetia em sua cabeça, suplicando para que ele não pronunciasse sequer uma palavra. Não disse, apenas sorriu, simpático. O dia estava amanhecendo e só então se deu conta do quão encrencada estava. Não sabia como voltaria para casa ou se se lembrava do caminho. Olhou em volta e notou que não havia mais que algumas pessoas além deles dois ali. Olhou para ele com olhos confusos mas decididos. Inclinou-se um pouco para a frente e assustou-se ao ver que ele fizera o mesmo. Recuou, baixou os olhos e o olhou. Baixou, novamente, os olhos e o olhou de novo depois. Ele permaneceu com seu corpo inclinado. Sorriram ao mesmo tempo e ao mesmo tempo teve seus lábios selados pelo estranho com olhos desconhecidos, mas encantadores. Talvez não fosse tão estranho quanto pensava. Seus lábios eram de um sabor inigualável. Poderia até escrever uma redação...
16 de fevereiro de 2012
Sob aquela árvore torta, dura, parada, fiz amor com meus sonhos.
Deixou que o corpo escorregasse e afundasse na grama molhada pela chuva de alguns minutos atrás, fazendo sua mente esvaziar-se e preocupando-se apenas com a velocidade com que seu corpo caía. Caiu, caiu e caiu, até perceber que não passara do gramado. Esticou-se na grama e sentiu as cócegas que ela o causava, deixando um sorriso cansado surgir no canto dos lábios. Suspirou pesado, tentando olhar o comecinho do Sol que surgia por entre as nuvens. Seus raios eram tão intensos, mas tentou ao máximo apreciá-los antes de ter os olhos fechados. Seus olhos choraram um amor presente mas completamente distante, e que o Sol trouxera à tona. Fechar os olhos, muitas vezes, o fazia relembrar amores e dores que antes eram constantes, mas que com o tempo conseguiu não pensar. Nunca deixaram de existir, pois o que é verdadero, seja amor ou dor, permanece. E quando teve seus olhos fechados, teve sua mente aberta à lembranças de um passado ainda próximo e, consequentemente, à amores inacabados. Os 'ésses' poderiam ser extintos, deixando bem claro de que o que teria para ser lembrado era singular. Singularmente estonteante. Seus olhos baixos, claros, levantavam-se calmamente, olhando-o na mesma direção, hipinotizando-o por completo. Sorria um sorriso bobo, calmo, mas que o transformava. O toque de seus dedos nos dele era como tocar as nuvens e mesmo nunca tendo o feito, sabia que era como tal e talvez até melhor. Sua voz em seu ouvido muitas vezes longe, mas muitas vezes perto, fazia com que seu corpo inteiro se arrepiasse numa mistura de sentidos e emoções que ele jamais poderia explicar. Seu corpo encaixando-se no dele era como uma apresentação sincronizada de ballet e que ele se recusava a perder. O encaixe perfeito, movimentos perfeitos e prazeres incansáveis. Dois corpos misturando-se na cama, tornando-se um só em segundos e resultando no que há de mais belo, alumiado e singelo. O sol adentrando a janela na manhã seguinte era prova de que tudo havia, mesmo, acontecido, mas que deixava incerto a certa realidade que tudo tinha. Seus olhos piscaram algumas vezes até poder enxergar os olhos claros dela. Clara, claro. Os dois sorriam e o sol tornava-se insignificante diante de tanta luz naquele quarto. Até que cansou de competir e se escondeu, dando lugar a garoa, que agora os faziam contar gotinhas de chuva na janela. O quão infantis eram não me atrevi a dizer, pois diante de tamanho amor, tanta infantilidade tornava-se parte do tudo. E o tudo, por mais simples que parecesse, era o mais perto da felicidade que teriam. O que o sol havia trago, agora, apenas alguns segundos depois, ao partir, levou consigo. E então seus olhos abriram-se novamente e, num ato humano e apaixonado, ergueu os braços para a frente como se pudesse alcança-la, agarrá-la e impedi-la de partir. No entanto, de súbito e não mais que isso, num gesto humano e incompreensível, o sol chorou com ele, fazendo-o recuar e encostar-se à sombra da árvore, novamente. A viu partir uma, duas vezes. Na terceira quis impedi-la, mas foi brutalmente impedido pelas lágrimas que o sol derramava por seus olhos, impedindo-o que pudesse enxergar qualquer coisa além. E além dele, o que havia era ela, seus olhos claros, a peça faltando, a melodia estonteante, a aceleração exata do coração, o entrelace perfeito de mãos. E ali, parado feito pedra, feito o tronco da árvore em que se recostava, ele, o incompleto, a letra da música, os olhos negros, o quebra-cabeça desfalcado, o coração correndo uma maratona. E os dois, sabe-se lá onde, a música perfeita, o coração sem problemas, os olhos fechados por um beijo súbito, a cabeça quebrada, consertada. O amor consumado, feito, existente em dois seres distintos, distanciados. Amor que nasceu em vida, cresceu em sonhos e morreu, sabe-se lá onde ou quando.
2 de fevereiro de 2012
Escondidos nas estrelas, nós.
Os olhos iam ficando pesados, impedindo-a de contar as estrelas que iluminavam o teto de seu quarto e de todo o mundo. Um sorriso escapou dos lábios quando, não muito tempo depois de adormecer, teve seus sonhos dominados por um céu repleto de estrelas, onde não havia qualquer espaço vazio, impedindo que a não existência do vazio a preenchesse e a cobrisse de ausências. Já tão inundada de falhas, quaisquer aumento de rupturas e pedaços faltando a derrubaria. Sentou-se na lua minguante, lixou as unhas com a pequena estrela perdida ao seu redor e iluminou ainda mais seu olhar com um par de estrelas gêmeas. Flutuou por entre o mar de estrelas e, no ápice da insanidade utopiciosa, quis contar as estrelas. A cada estrela que encontrava depositava um beijo, marcando-a com o contorno de seus lábios rosados pelo batom gasto. E de repente, não mais que isso, havia beijado todas as constelações, exceto uma pequena estrela. Todavia, enquanto voava para a última estrela, havia visto nela o que pensou não ver nunca mais, e que talvez já havia até se esquecido do quão encantador era. Os olhos brilhavam, e não era necessário nenhuma estrela para fazê-lo. O sorriso iluminaria todo aquele céu que necessitava de tantas estrelas para o fazer. O conjunto de tantos traços encantadores resultavam em apenas um sentimento. Sentiu o rosto queimar, endurecer e só então sentiu uma gotinha de dor escorrer por seus olhos, dando início a uma enxurrada de dor que não passaria tão rápido. Perdera a conta de quantas estrelas habitavam aquele céu que tanto a pertencia, mas nem ele era capaz de tirá-la o sentimento que tanto a perturbava e que a tirava o sono. Deu-se conta de que o céu só é repleto de estrelas para que não se sinta só, pois enquanto vivemos aqui embaixo, quase nunca olhando para o alto e desejando bom dia para o teto sob nossas cabeças, ele fica lá, apenas observando-nos construir felicidades e amores, ou dores e sabores ruins. E aqueles traços naquela última estrela que deveria ter beijado, a fez perceber que nem mesmo o céu, com toda sua imensidão, vive só. Depois de voar para longe de sua estrela, quis retornar, encontrá-la e beijá-la por inteira. Procurou por ela céu adentro, tendo a sorte de que era a única estrela que não continha um beijo seu. Deu-se conta, novamente, do quanto isso parecia estranho, normalmente, eram aqueles traços que mais continham seus beijos por todos eles. Avistou sua estrela, ainda distante, mas tendo a certeza de que era ela. Voou o mais rápido que pôde, chegando até a encostar seus dedos em suas pontas. Aproximou-se o rosto dela e então abriu os olhos. Num impulso, como se ainda pudesse voar, ergueu-se na cama e olhou o céu de seu quarto. As estrelas, agora com os raios do sol adentrando sua janela, perderam o brilho. Suspirou, derrotada, sabendo o quão fraca tinha sido a ponto de correr da sua estrela. A campainha tocou, tirando-a de seu transe, fazendo-a levantar subitamente e correr até a porta. Girou a maçaneta e, ainda olhando para o chão, esfregou a mão nos olhos, e então os levantou. Suas sobrancelhas arquearam e seus olhos arregalaram-se e, não pensando ao menos uma vez, sentiu seu corpo ser jogado contra o outro que ainda encontrava-se à porta. O olhou e, invés de correr de sua estrela, o beijou nos lábios e em todo o rosto, marcando-o com seu amor como deveria ter feito pouco tempo antes, em seu sonho. Tendo-o ali, agora sem nenhuma ausência ou falha tomando conta de tudo, podendo contar cada traço de seu rosto, beijar cada pedacinho dele, não sentia mais saudade.
24 de janeiro de 2012
Lugares proibidos.
E os lugares, mesmo que não tenha sido nós a criá-los, são nossos.
Flexionou os joelhos e beijou as costas da mão da moça. Então sorriu, ingênuo, ao sentir seus olhos nos dele. Ergueu-se novamente, procurando em seu olhar qualquer sinal de espanto com seu ato, e então logo sorriu, dando espaço ao alívio que o preenchera ao vê-la sorrir grande. Quis desejar boa noite, mas apenas deixou que seu sorriso falasse por ele. Afastou-se, ainda de costas para a calçada, sorrindo para ela como criança. Acenou, mas ela já havia desaparecido porta à dentro. Fitou o chão e suspirou, não deixando que o sorriso desaparecesse. Olhou a praça à sua volta e percebeu que não estava muito longe de casa. Sentou-se em um dos bancos desocupados e pôs-se a observar as crianças correndo de um lado para o outro, divertindo-se, enquanto divertia-se com seus sorrisos jogados ao vento e sendo trocados por risadas. Balões voavam por todo o lugar. No lugar do céu negro havia centenas de pontos coloridos e as estrelas, imperceptíveis aos olhos das pessoas. Havia pais desesperados correndo atrás de suas crianças, enquanto casais de idosos passeavam, calmamente, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Casais de namorados jovens amassavam-se em todo canto deserto que olhava. Ria divertida. Havia carrinhos de bebês, babás, meninos e meninos, velhos e velhas e solitários, assim como ele. Mas ao contrário de muitos solitários encontrados por aí, ele era um solitário contente. Não passavam das seis e trinta da noite e acabara de deixar sua acompanhante em casa. Certo de que era cedo, mas se quisesse levar aquilo a diante, deveria respeitar as regras impostas. Não ligava muito, afinal, pois gostava de ficar a sós à noite, tomando como aprendizado - ou inspiração - o que acontecia à sua volta. E o fazia quase sempre, pois vez ou outra gostava de jogar pedrinhas à janela de sua bela moça, mandá-la beijos escondidos e sorrisos repletos de amor. E quando não fazia nada disso, Vicente, o moço dos costumes antiquados, gostos suspeitos e enormes e diversos jeitos de amar, atrevia-se a desenhar. E seus desenhos não eram tão ruins, a propósito, eu mesmo já vi centenas. A maioria era de lugares. Cidades, praças, casas, jardins, terrenos baldios - que de acordo com ele eram mais cheios que nós mesmos -, países, lugares conhecidos e proibidos. Certa vez desenhara Nothing Hill, em Londres, fiquei tão extasiado que pedi que fizesse um para mim. E então me deu aquele, disse-me que não há repetições de desenhos, que os lugares não devem ser inúmeras vezes desenhados. Vicente tinha adoração pelo mundo, pelos lugares que foram criados e paridos, sabe-se lá pelo que. Gostava de admirar e desenhar tudo que via menos as pessoas que habitavam o lugar que via. Não gostava muito de pessoas, apesar de achá-las adoráveis e encantadoras. Pessoas, disse-me ele certa vez, tem a capacidade de mudar si próprias, outras pessoas e os lugares que tanto amo, enquanto esses lugares apenas existem. Foram criados, muitas vezes por pessoas, outras eu não sei, mas foram paridos e só, não há necessidade de mudança constante. E isso é o que as pessoas fazem com o mundo. A mudança do mundo não é necessária, o que é necessário é a mudança das pessoas. Para Vicente, cada pessoa no mundo tinha um lugar só seu, e esse lugar não poderia ser de mais ninguém. Perguntei a ele certa vez qual era seu lugar predileto. Ele continuou a me mostrar seus inúmeros desenhos. Vicente gostava de ser só e de ter a capacidade de amar tão imensamente aquela moça dos olhos azuis. Tratava-a como seus pais o ensinaram a tratar uma moça. Seu amor por ela, certamente menos que os lugares, o inspirava. Via beleza em todos os lugares que fosse, mas tendo-a em seu coração, conseguia ver muito mais que amor. Vicente via vontade de viver, alegria, tristeza, sorrisos, tudo isso em lugares distintos e muitas vezes inusitados. Vicente enxergava o que muitas pessoas não enxergariam nem em sonhos. Vicente enxergava além da aparêcia dos lugares, enxergava sua história e tudo o que já foi vivido ali. Extraia desses lugares sua inspiração, vontade e razão de vida. Vicente sentia amor e fazia amor com a vida, com seus inúmeros lugares. Seu namoro havia sido oficializado, agora poderia beijá-la algumas vezes e andar de mãos dadas. Poderia levá-la à sua casa meia hora mais tarde e ficar mais dez minutos assistindo a televisão. Vicente tinha o que muitos custavam a encontrar, e quando encontravam, perdiam fácil. Tinha uma bela moça amando-o e recebendo amor dele, tinha seu emprego e seu amor pelos lugares. Vicente tinha tudo o que já pôde querer, talvez até mais. Só havia um problema.
_ E então, qual seu lugar?
Vicente suspirou pesado, derrotado. Sua moça havia despencado do alto da montanha, junto com seu amor por lugares e todas suas conquistas.
_ Não sei.
_ Será possível?
_ Achei que fosse meu coração, até descobrir que não era o meu lugar, mas sim o dela.
_ Qual será o seu, então?
Olhou para o céu estrelado, suspirou algumas vezes e piscou algumas outras. Olhou-me com um sorriso derrotado, mas contente. Acho que seu amor pelos lugares não era maior que seu amor por ela, mas não me atrevi a dizê-lo, quem sabe ele não descubra sozinho.
_ Ela.
Flexionou os joelhos e beijou as costas da mão da moça. Então sorriu, ingênuo, ao sentir seus olhos nos dele. Ergueu-se novamente, procurando em seu olhar qualquer sinal de espanto com seu ato, e então logo sorriu, dando espaço ao alívio que o preenchera ao vê-la sorrir grande. Quis desejar boa noite, mas apenas deixou que seu sorriso falasse por ele. Afastou-se, ainda de costas para a calçada, sorrindo para ela como criança. Acenou, mas ela já havia desaparecido porta à dentro. Fitou o chão e suspirou, não deixando que o sorriso desaparecesse. Olhou a praça à sua volta e percebeu que não estava muito longe de casa. Sentou-se em um dos bancos desocupados e pôs-se a observar as crianças correndo de um lado para o outro, divertindo-se, enquanto divertia-se com seus sorrisos jogados ao vento e sendo trocados por risadas. Balões voavam por todo o lugar. No lugar do céu negro havia centenas de pontos coloridos e as estrelas, imperceptíveis aos olhos das pessoas. Havia pais desesperados correndo atrás de suas crianças, enquanto casais de idosos passeavam, calmamente, de mãos dadas e dedos entrelaçados. Casais de namorados jovens amassavam-se em todo canto deserto que olhava. Ria divertida. Havia carrinhos de bebês, babás, meninos e meninos, velhos e velhas e solitários, assim como ele. Mas ao contrário de muitos solitários encontrados por aí, ele era um solitário contente. Não passavam das seis e trinta da noite e acabara de deixar sua acompanhante em casa. Certo de que era cedo, mas se quisesse levar aquilo a diante, deveria respeitar as regras impostas. Não ligava muito, afinal, pois gostava de ficar a sós à noite, tomando como aprendizado - ou inspiração - o que acontecia à sua volta. E o fazia quase sempre, pois vez ou outra gostava de jogar pedrinhas à janela de sua bela moça, mandá-la beijos escondidos e sorrisos repletos de amor. E quando não fazia nada disso, Vicente, o moço dos costumes antiquados, gostos suspeitos e enormes e diversos jeitos de amar, atrevia-se a desenhar. E seus desenhos não eram tão ruins, a propósito, eu mesmo já vi centenas. A maioria era de lugares. Cidades, praças, casas, jardins, terrenos baldios - que de acordo com ele eram mais cheios que nós mesmos -, países, lugares conhecidos e proibidos. Certa vez desenhara Nothing Hill, em Londres, fiquei tão extasiado que pedi que fizesse um para mim. E então me deu aquele, disse-me que não há repetições de desenhos, que os lugares não devem ser inúmeras vezes desenhados. Vicente tinha adoração pelo mundo, pelos lugares que foram criados e paridos, sabe-se lá pelo que. Gostava de admirar e desenhar tudo que via menos as pessoas que habitavam o lugar que via. Não gostava muito de pessoas, apesar de achá-las adoráveis e encantadoras. Pessoas, disse-me ele certa vez, tem a capacidade de mudar si próprias, outras pessoas e os lugares que tanto amo, enquanto esses lugares apenas existem. Foram criados, muitas vezes por pessoas, outras eu não sei, mas foram paridos e só, não há necessidade de mudança constante. E isso é o que as pessoas fazem com o mundo. A mudança do mundo não é necessária, o que é necessário é a mudança das pessoas. Para Vicente, cada pessoa no mundo tinha um lugar só seu, e esse lugar não poderia ser de mais ninguém. Perguntei a ele certa vez qual era seu lugar predileto. Ele continuou a me mostrar seus inúmeros desenhos. Vicente gostava de ser só e de ter a capacidade de amar tão imensamente aquela moça dos olhos azuis. Tratava-a como seus pais o ensinaram a tratar uma moça. Seu amor por ela, certamente menos que os lugares, o inspirava. Via beleza em todos os lugares que fosse, mas tendo-a em seu coração, conseguia ver muito mais que amor. Vicente via vontade de viver, alegria, tristeza, sorrisos, tudo isso em lugares distintos e muitas vezes inusitados. Vicente enxergava o que muitas pessoas não enxergariam nem em sonhos. Vicente enxergava além da aparêcia dos lugares, enxergava sua história e tudo o que já foi vivido ali. Extraia desses lugares sua inspiração, vontade e razão de vida. Vicente sentia amor e fazia amor com a vida, com seus inúmeros lugares. Seu namoro havia sido oficializado, agora poderia beijá-la algumas vezes e andar de mãos dadas. Poderia levá-la à sua casa meia hora mais tarde e ficar mais dez minutos assistindo a televisão. Vicente tinha o que muitos custavam a encontrar, e quando encontravam, perdiam fácil. Tinha uma bela moça amando-o e recebendo amor dele, tinha seu emprego e seu amor pelos lugares. Vicente tinha tudo o que já pôde querer, talvez até mais. Só havia um problema.
_ E então, qual seu lugar?
Vicente suspirou pesado, derrotado. Sua moça havia despencado do alto da montanha, junto com seu amor por lugares e todas suas conquistas.
_ Não sei.
_ Será possível?
_ Achei que fosse meu coração, até descobrir que não era o meu lugar, mas sim o dela.
_ Qual será o seu, então?
Olhou para o céu estrelado, suspirou algumas vezes e piscou algumas outras. Olhou-me com um sorriso derrotado, mas contente. Acho que seu amor pelos lugares não era maior que seu amor por ela, mas não me atrevi a dizê-lo, quem sabe ele não descubra sozinho.
_ Ela.
17 de janeiro de 2012
Àquele que planta sorrisos em mim.
À você,
de não-importa-o-meu-nome.
Também não importa o quão inoportuna estou sendo mandando-lhe esta, pois lembro-me bem de quando disse "você nunca incomoda". Pois bem, cá estou. Poderia estar aí, no entanto, contento-me com essa distância que nossos corpos sempre gostaram de manter. Poderia acariciar-lhe o rosto e beijar-te os lábios, e então não seria necessária nenhuma carta como esta. Mas não há problema, como sabe, gosto mesmo de escrever-te coisas, sejam elas boas ou... nem tanto. Ontem à noite fez falta. Não, não, não. Não fora seus braços envolta de mim, ou sua boca percorrendo meu pescoço fazendo-me arrepiar. Sua voz, seu cantarolar ao meu ouvido, seus pés gelados e inexistentes junto aos meus. Você. É, fez falta. Não compreendo somente como consegui adormecer. Oh, espere!, adormeci logo depois do que pensei que fosse minhas lágrimas secando, mas acordei hoje e elas continuavam a escapar por meus olhos. Traiçoeiros, esses meus olhos castanhos. Também fora difícil acordar sem o seu bom dia habitual, e a sua mentira de cada dia dizendo-me o quão bonita sou, mesmo quando acabo de ter acordado. Mentiroso! Gostava dessa sua mentira, confesso-lhe. Ainda estou em meus pijamas, escrevendo-te, não sei bem o que será de mim esta tarde. Talvez eu faça algo de diferente, ou então continue olhando para os lados e pedindo silêncio para que eu possa escutar qualquer música tocando. Quem sabe não é você? Preciso continuar, não é mesmo? Mesmo sem você. Talvez você esteja fazendo o mesmo. Espere, o telefone tocou. Ah, não, não é você. Não sei bem como terminar esta, afinal ainda não sei nem o porquê comecei. Fez falta, a propósito, e ainda faz, ter-te em mim.
Bonitos sorrisos à você, pois só assim poderei sorrir também.
Au revoir, menino, au revoir.
14 de janeiro de 2012
Coração adoentado, causado pela dor de amar errado.
Fez-se silêncio. Todo o quarto azul e branco pareceu tão grande a ponto de deixá-la perdida, mesmo que as outras pessoas estivessem ali presente. E lá estavam, em sua companhia, uma moça inteiramente vestida de verde claro, com o rosto apreensivo mas calmo; e a outra, vestida de branco, com as sobrancelhas franzidas e os lábios apertados. Essa última segurava sua mão, calma, como se pudesse passá-la um pouco de toda essa serenidade. Mas ela não podia. Ninguém podia. Ela arqueou as sobrancelhas, e então levantou apenas uma. E riu. Riu tão alto, tão exageradamente, que qualquer pessoa que ali passasse pensaria que ela tinha escutado uma piada, mas não. Ela havia escutado um diagnóstico. As duas outras pessoas a olharam, perplexas, sem saber, exatamente, do que estava rindo. E foi então que parou.
- Lúpus? O que é isso? É de comer?
- É uma doença autoimune, ou seja, em que o seu próprio sistema imunológico causa danos ao seu organismo.
- Sei o que é uma doença autoimume. Há cura, certo?
E então a doutora olhou a enfermeira, que repetiu o gesto. As três entreolharam-se até que a médica segurou ainda mais a mão do corpo feminimo deitado sob a cama de hospital.
- Infelizmente, não. Mas há o controle da doença, o que pode permití-la ter uma vida normal.
Fez-se silêncio, desta vez mais longo.
- Quero ficar sozinha, se não se importarem.
E então a enfermeira saiu, deixando as outras duas sozinhas.
- Por favor.
- Já irei sair, apenas quero que saiba que tudo pode ficar bem. Caso precisa, é só chamar a infermeira.
E então saiu, deixando sua paciente sozinha. Sorriu torto, como quem tenta dizer para si que está tudo bem. Mas está tudo bem, ela pensa, tudo bem. Talvez assim não tenha que viver, dia-a-dia, com a morte precoce do seu coração. E não importava o quão cedo sua morte física viria, ou tão tarde, seu coração já havia parado de bater há muito. Talvez não fosse certo, talvez. Mas ela agradeceu, em múrmurios, e desejou que não demorasse para que seus olhos se fechassem, dessa vez, para sempre.
9 de janeiro de 2012
Amor de flor, de dor, de fim.
Dos olhos ele lembrava bem, eram como o céu estrelado, e parecia que a noite não acabaria nunca. O sorriso era calmo, leve, andava devagar, exatamente como ele costumava fazer quando o dia estava bonito. Hoje já não o faz mais. E ela já não sorri. E seus sonhos, aqueles em que a via linda, elegante, descendo uma enorme escadaria, sorrindo devagar, grandiosa, já não existiam mais. E se pensas que era do teu sorriso e olhos que ele mais sentia saudades, está certo. Não há no mundo inteiro olhos e sorriso como os dela. Não há, em hipótese alguma, em qualquer lugar que seja, alguém como ela. E não há lugar no mundo - e você pode escolher qualquer um - que haja amor feito o dele. E não importa o quão clichê isso possa parecer, amor feito o dele não há. E não há nada que se possa fazer quando os olhos de uma moça lhe fazem sorrir e seu sorriso iluminam seus olhos. Apenas aceite que é tão humano quanto qualquer outro bobo apaixonado, pois estás amando, agora. E foi o que ele fez quando caiu, enlevado, por seus olhos profundos, cor de breu, mas imensamente encantadores. E quando ela sorriu seu melhor sorriso, talvez até de propósito, ele soube que quando diziam sobre amor, não era brincadeira. Piadas sobre amor são para os que não sabem amar, pensou. Pensou o quão idiota era de fazer piadas assim. Mas hoje, não. Hoje ele sorri a cada dia que amanhece, a cada sol que se põe e a cada noite que cai. Sorri só por saber que seus olhos e sorriso estarão sempre em seus sonhos, e não importa o quanto isso doe no dia seguinte, ele continuará amando-a, independente de haver, ou não, amor em troca. Pois amor, ele pensou, não requer reciprocidade em amar. Amor mesmo é quando você ama acima de qualquer coisa, mesmo que a pessoa não o ame, também. E era assim que ele a amava. Talvez ela nem soubesse de sua humilde existência. Tudo bem, ela sabia. E sabia de seu amor e talvez até o amasse, também. Nunca trocaram sequer uma palavra. Ele ficava de longe observando-a sorrir, observar os lugares, iluminar o mundo com seus olhos. Ela o observava observá-la, sorria quando ele olhava e piscava os olhos, encantada, quando ele sorria, vez ou outra sem querer. Vezenquando seus olhares se encontravam, seus rostos coravam e nenhuma palavra era dita. Novamente. Não foi preciso palavras para que o amor surgisse. Não foram necessários beijos ou amassos. Certa vez, suas mãos encostaram-se quando passaram um perto do outro, mas não houve um pedido de desculpas, ou um aceno qualquer. Houve uma troca de sorrisos discreta, brilho nos olhos e amor. Muito amor. E talvez isso parecesse insano aos olhos dos outros, do mundo exterior. Mas entre os dois, que nem seus nomes sabiam, era surpreendente. Pois amor, mesmo que seja algo tão indescritível, é amor. E o amor tem suas qualidades e defeitos, assim como tudo na vida. Mas eles enxergavam o amor de um jeito diferente, único, a dois, e que eu não me atrevo a tentar descobrir. Era estranho vê-los longe, de longe, trocando sorrisos pequenos, tortos, felizes. Certa vez quis apresentá-los um ao outro. Dizer seus nomes, fazer com que trocassem abraços ou apertos de mão. Mas quem sou eu, afinal, além de um mero ser invisível? Não o fiz. Deixei que se encontrassem, se sentissem. E talvez até se amassem. Disseram-me, certa vez, que para ele era indiferente tocá-la, beijá-la ou amá-la. Disse que a ama só pelo jeito que sorri, que pisca os olhos, que anda, tão calma, que finge que não o vê. Não sei se para ela é assim também, mas não acho que seja muito diferente. Era impossível não notar as faíscas que seus olhares transmitiam quando se encontravam. E como o lugar, qualquer que fosse ele, iluminava-se mais quando eles sorriam. E se alguém ousar dizer-me que isso não é amor, não saberei o que dizer ou fazer. Talvez eu sorria e diga para ele que se aquilo não é amor, não há amor.
Dia desses, enquanto observava o meu casal mais estranho e predileto que eu tinha - talvez único -, pensei em como seria se continuassem com toda essa distância, mesmo podendo quebrá-la. Há tanta gente por aí, pensei, que deseja uma distância mínima como a que eles têm, podendo tocar-se a qualquer momento, e eles a desprezam. E quando o pensei, meu bom e velho amigo fofoqueiro me disse que o meu outro amigo apaixonadinho não vê a hora de abraçá-la, mas que prefere isso: distâcia, sorrisos e olhares. E eu, que não gosto nada de coisa complicada, disse que tudo bem. Tudo bem?, ele perguntou. Tudo bem, eu disse, tudo bem. Mas o senhor não está indignado com essa distância dispensável?, meu amigo velho e bobo perguntou. Claro!, disse, mas não sou eu quem irá acabar com ela.
Eles continuavam em sua troca de olhares abtual, sorrindo vez ou outra e vezenquando baixando os olhos, corados. O apaixonado chamou o garçom, pediu-lhe um guardanapo e uma caneta. Escreveu sabe-se lá o que. Mandou que o garçom entregasse à bela moça do outro lado do estabelecimento, com as pernas cruzadas e sorriso encantador. Foi-se. A moça leu, surpresa com a ousadia encantadora do moço de olhos azuis, sorrindo. Sorrindo, pensou ele, ela está sorrindo por causa do meu bilhete. Logo o garçom voltou com um pedacinho de lenço um tanto quanto elegante. Tinha uns rabiscos em letra redondinha, pequena, e um beijo em seu canto, cor de carmim. Ele sorriu grande, encantado, parecia flutuar. Agora, além de sorrisos, olhares e bochechas coradas, tinham também bilhetes trocados e passados por um garçom um tanto quanto gentil. E o que parecia parado demais, perto mas distante demais, agora é um pouco mais vívido, bonito, com cara de amor. Passaram a trocar bilhetes todos os dias, vezenquando um apenas não era o suficiente. Falavam sobre a música do ambiente, sobre o clima, sobre como política é entediante e até mesmo sobre eles. Mas nunca perguntaram seus nomes. Não é necessário, pensei, assim que descobri que nomes não existiam em seus bilhetes secretos. Vez ou outra eu os pegava rindo enquanto liam o bilhete do outro. Às vezes faziam uma cara triste, mas logo se transformava em uma que dizia "Vai ficar tudo bem.". Certas vezes trocavam elogios, e eu só soube disso porque suas bochechas coravam e ficavam tão vermelhas quanto as cerejas que a moça beliscava. Tolos. Sim, tolos. Afinal, quem já conseguiu amar sem deixar de ser tolo? Todos tolos, inclusive eu. Certo dia, enquanto trocavam seus variados bilhetes - já que agora pareciam bem íntimos e apaixonados -, vi o rosto da moça espantar-se e sua mão elevar-se até a boca, tampando-a em sinal de espanto. Seus olhos arregalaram-se e seu rosto corou, completo, perplexa. Fez uma feição um tanto quanto desconfiada e confusa, talvez não soubesse muito bem o que dizer, ou pensar. Ele havia dito seu nome, calculei. Por que será que isso a espantaria, afinal? É só o nome do rapaz, ora bolas, não há com o que se preocupar. Não entendi, não no momento. Ela respondeu o bilhete que continha um nome próprio, com um elogio. "Bonito nome, Frederico.", e então disparou porta afora. Frederico, meu amigo apaixonado e tolo, não sabia muito bem o que ocorrera para que ela fugisse assim, tão depressa, como quem foge da solidão. No dia seguinte, em seu lugar e horário habitual, sentou-se em seu canto e pôs-se a observar o dela. Não havia sua silhueta sentada ao banco, nem teu sorriso iluminando o ambiente e muito menos seus olhos o tirando o foco. Calculou que não haveriam bilhetes, nem rabiscos exteriorizados por letras tão bonitas, ou um beijo na ponto do lenço. Escutou um estrondo. Não vinha de dentro do estabelecimento, então logo viu todo o lugar esvaziar-se. Quando chegou ao lado de fora, tudo já havia acontecido. Havia polícia, ambulâncias e bombeiros e uma multidão que mal o deixava passar. "Carolina, Carolina!", era só o que pôde escutar. "Ela não tem cara de Carolina", pensou Frederico, enfiando-se em meio a multidão. Quando conseguiu passar, viu sua silheta preferida estendida ao chão, com os olhos entreabertos, uma mão sobre o estômago e a outra perdida ao lado da cabeça. Parecia estar adormecendo, sua amada. Viu-se ajoelhado ao seu lado, segurando sua mão e puxando a outra para si. Acariciou-lhe o rosto. Que fascinante era tocar-lhe, sentir sua pele na dele e, finalmente, poder dizer que não há nada mais macio no mundo. Ela abriu um sorriso pequeno, miúdo, fraco. Antes mesmo de virar-se para ele, sabia que era ele, mesmo nunca tendo o tocado. Diziam, ao redor, que ela vinha caminhando quando dois carros bateram e a atropelaram na calçada. Pobre moça, diziam.
- Perdoe-me minha reação noite passada. Não era necessário saber seu nome, Frederico.
- E por que não?
- Pois posso pensar em que nome tens apenas o observando.
- E que nome achava que eu tinha?
- Frederico.
- Sim?
- Frederico, achava que seu nome fosse Frederico.
- Acertou, então.
- É, acertei.
- Sei o seu nome.
- Qual acha que é?
- Carolina.
- Tenho cara de Carolina?
- Na verdade, não. Tem cara de Margarida.
- Qual acha que é?
- Carolina.
- Tenho cara de Carolina?
- Na verdade, não. Tem cara de Margarida.
- Gosta de flores?
- Adoro flores.
- De qual gosta mais?
- Gosto das margaridas.
- Oh, são minhas prediletas.
Fez-se silêncio. O moço apaixonado apertou sua mão, suplicante, enquanto a olhava nos olhos, com os olhos cobertos de lágrimas.
- Eu o amo, Frederico.
- Eu a amo, eu a amo, eu a amo.
(Silêncio)
(Silêncio)
- Hannah. Chamo-me Hannah, meu amor.
E então a moça fechou os olhos, tendo em suas mãos as dele. Logo seu peito foi coberto por ele, que recostou sua cabeça. Com os olhos cobertos pelo mar agitado, o rapaz, que tinha jeito de Frederico, beijou a moça com pele de margarida nos lábios. Eu a amo, minha amada, desde o teu primeiro sorriso até o meu último suspiro.
8 de janeiro de 2012
Repleta de ausências, despida de amor.
"Tua ausência fazendo silêncio em todo lugar."
Suspirou pesado, lento, quase parou e desistiu. Respirar era involuntário e ela adorava esse fato - simplesmente porque se respirar dependesse de sua boa vontade, não o faria nunca. Suspirar, no entanto, precisava um pouco mais de sua vontade, e gostava tanto de fazê-lo, mas ultimamente não o tem conseguido com muito sucesso. Era necessário uma certa motivação para tal feito, o que ela não tinha há muito. Seja para suspirar por aí feito uma apaixonada desorientada, seja para seguir em frente. E seguir em frente, embora pareça fácil se nossa interpretação for apenas a de caminhar em frente, é tão difícil quanto ficar uma vida sem fechar os olhos. E ter motivação para seguir em frente engloba todo um mundo. Motivação para dormir, acordar, levantar. Viver. Lembro bem quando levaram-na seu motivo de viver, sua razão. Seu ar.
Fazia frio na manhã de domingo em que ela se levantara e não o encontrara ao seu lado. Ele deveria estar ali, tal como todos os outros domingos. E não importava o quão rotineiro isso possa ter soado - ou em como as pessoas diriam que suas vidas eram chatas por sempre saberem o que fariam ou onde estariam - ele deveria estar ali. Mas ele não estava. E nem seus sapatos prediletos ao pé da cama ou seu casaco, que deveria estar sobre a cadeira. Ele odiava aquele casaco, mas não saia sem, pois sabia que ela reclamaria e diria que ele não havia gostado. Acho que ele gostava daquele jeito que ela tinha, tão complicado, difícil, irritane. Ele gostava daquele jeito dela, só dela, e acho que era isso que o fazia amá-la tanto. Mas, talvez, também tenha sido isso que o tenha feito sair mais cedo naquela manhã de domingo, calçando seus sapatos que tinha mais apreço e carregando seu casaco que tanto odiava. Ela o procurou por toda a casa, e nada. Nenhum vestígio dele. Voltou ao quarto, sentou-se na cama e pôs-se a observar o quarto por inteiro. Nada, a não ser a porta do armário entreaberta. Abriu. Nada. Esse foi o grande problema. Onde deveria estar as roupas de seu amado, nada. E então, além de não haver se quer um vestígio dele, também não havia nenhum de que ele voltaria. Levou todos seus perfumes, cadernos, livros, roupas. No entanto, havia levado algo que talvez não tenha cabido dentro da mala ou dentro de sua bolsa de mão. Havia levado consigo algo que ela não encontraria olhando por aí em sua casa ou de baixo da cama ou até mesmo dentro das gavetas. Não encontraria nem mesmo nos lugares mais escondidos, pois amor é algo que não se guarda em qualquer lugar assim. Ele guardava consigo todo seu amor por ele. Para que você não esqueça nunca, ela disse, certa vez. Ele pode não ter esquecido, mas preferiu não lembrar. Com tudo o que levou, mais seu amor e o casaco que ela havia dado, carregou, assim que saiu do quarto pela madrugada, toda chance e vestígio de esperança e razão de viver. E então ela ficou ali, fitando aquele vazio constante que se estendia por todo o quarto até dentro de si. O vazio que ele deixou quando foi embora.
Talvez ela devesse sentir falta dele, de como ele era e como a amava. Ele fazia de tudo para deixá-la feliz, desde levá-la uma rosa todo fim de tarde até acordá-la com um café-da-manhã na cama. Talvez ele fosse seu príncipe torto, cheio de defeitos e repleto de amor. Mas ela não sentia falta dele ou de como ela a tratava, nem mesmo dos seus beijos e amassos que davam tarde da noite. Sentia falta de suspirar leve, grande, sem doer o peito. Sentia falta de respirar devagar, de sentir o ar sendo inspirado e, então, expirado. Sentia falta de caminhar em frente sem medo do que pudesse segui-la. Sentia falta do seu eu completo, longe daquele vazio constante, mas não dele. Dele não sentia nada, apenas inúmeras interrogações de um amor que se fora, e que ela nunca mais teria. Nem ele, nem qualquer outro. Sentia mais falta de si quando ele estava ali. Na verdade, ela era uma mulher de faltas, ausências, principalmente quando se tratava de ausências próprias. Dessas, ela era cheia. E, assim como tinha todo o corpo composto por ausências, no lugar do coração, tinha uma falta imensa de amor. Do seu amor que ele carregara, para sempre.
