25 de dezembro de 2011

Vicente e seu sorriso de luzes de Natal.

Faltavam cinco minutos para meia-noite. As pessoas já começaram a correr para lá e para cá, procurando os parentes mais próximos. Algumas já até desejavam felicidades. Outras, apenas continuavam o que estavam fazendo. E, assim como eu, haviam aquelas que saiam andando, quase correndo, para qualquer lugar vazio que houvesse. Chorar, talvez, fosse o que eu precisava. Mas não o faria, não para depois ter que dar explicações desnecessárias e - aos olhos dos outros - sem motivos. Percebi que já era meia-noite quando ouvi o que parecia uma multidão dizendo "Feliz Natal", quase em coro. E essas duas palavrinhas iam se repetindo e repetindo e repetindo. Eu abaixei minha cabeça e coloquei-a entre os joelhos. As lágrimas foram completamente impossíveis de serem barradas. Logo toda a minha perna estava enxarcada e a maqueagem - que fora colada a força em meu rosto - desmanchada. Coloquei-me de pé e escapei para a rua. O posto de gasolina da esquina estava fechado, assim como a padaria e o bar da frente. Haviam muitos carros e nenhuma pessoa. Via luzes piscando e vozes ao longe. Arranquei os saltos cor-de-rosa dos pés e corri. 
Corri
Tropecei
Caí. E lá fiquei. Não havia quem me ajudasse e, absurdamente desesperada por solidão, não quis que houvesse. Levantei e continuei, agora caminhando, minha jornada à qualquer lugar distante por aí. Em uma mão havia meus sapatos; na outra, um ralado da queda. Continuei andando até perceber que eu não estava tão sozinha como o imaginado. E então parei. Virei para que pudesse ver com clareza e lá estava, um indivíduo andando a poucos metros de mim. E que também parou, assim que parei. 
- Com licença? -  disse ele -  Está toda suja e machucada. Está tudo bem?
Claro! Em plena madrugada de Natal, eu, que tinha nos joelhos e mãos e braços pequenos arranhões e o resto do corpo sujo pela calçada molhada, agora em companhia de um indivíduo aparentemente educado. Só não me venham com espírito de Natal.
- Sim, está tudo bem. Obrigada. - E então eu continuei a caminhar, e acho que ele também. Parei novamente. - Olhe só, moço, eu estou à procura de um lugar e eu, realmente, queria procurar este lugar sozinha, se não se importa.
- E que lugar seria, senhorita?
- Aho que não lhe diz respeito. - Ora essa, rapaz metido.
- Tem certeza de que não quer companhia, moça? A rua está escura e vazia e tem acontecido muita violência por essas áreas, na verdade. - E então ele parou ao meu lado e me olhou. Sorriu pequeno, desses sorrisos que gente apaixonada se encanta de primeira. Gente como eu. 
- Eu não o conheço e eu, realmente, queria continuar minha caminhada sem ser importunada.
- Não irei importuná-la, senhorita, apenas acompanhá-la. - E então ele levantou os olhos em direção aos meus. Eram pretos e grandes. Tinham um brilho parecido com... com... Ora essa, era brilhoso, apenas.
- Tudo bem, então. Se não irá perturbar-me, tudo bem. - E então continuei minha caminhada, agora nem tão sozinha assim. Era desconfortável andar com um estranho ao meu lado, ainda mais quando sentia seus olhos nos meus. 
- Qual seu nome, senhorita? - Quebrou o silêncio. Eu gostava daquele silêncio.
- Não acho que importa, rapaz.
- Chamo-me Vicente, moça.
- Gostaria muito de lhe dizer que é um prazer conhecer-te, Vicente, mas não o conheço. 
- Não importa, senhorita. É um prazer estar aqui e fazer-te companhia.
- Tudo bem. - E então parei. Por que é que ele não estava com a família, assim como quase todos os que acreditam? - O que fazes aqui, Vicente, não deveria estar com a família?
- Eu sou ateu, moça, não há significado para mim. - Ele parou a minha frente e olhou para mim. - E a senhorita, também?
- Não, não. Eu não sou atéia, mas também não tenho religião. Eu só não... gosto muito dessa coisa de Natal e abraços e, enfim... essa coisa toda. 
E então ele ficou quieto, pensativo. Sentou-se na calçada e fitou o outro lado da rua. Não havia nada lá para ser observado. Sentei-me ao seu lado. 
- Chamo-me Carolina, a propósito. - E então sorri para ele. Ele olhou-me com um sorriso torto nos lábios, um tanto discreto. Fitou meus olhos e não o vi piscar por quase um minuto, juro. Seus olhos eram doces e, por um momento, sem querer, imaginei qual seria o gosto dos teus lábios. Doces ou amargos? Eu queria, realmente, saber. 
- Bonito nome, o seu, moça. Bonito nome. - E ele continuou repetindo a última frase, só que agora um pouco mais baixo, até parar de vez. 
- O seu também, Vicente, muito bonito.
- Obrigado, moça. Por que está toda machucada?
- Ah, isso? Eu caí pouco tempo atrás, enquanto corria por aí.
- Brincando de pega-pega, moça?
- É, só que na brincadeira só estava eu e essa maldita sensação de que tudo vai ter fim, e logo. E acho que perdi, na verdade, quando caí. 
- Não perdeu, não, moça. Está aí, viva. Com alguns ralados, claro, mas nada que um bom banho não cure. Aliás, o que estava procurando?
- Bom, não sei bem, na verdade. Um lugar calmo e seguro, talvez. Prefiro estar sozinha que estar em meio a uma multidão e continuar sozinha.
- Concordo com a senhorita. Na verdade, gosto dessa coisa de solidão.
- Eu também! Sabe, sinto-me mais feliz quando estou só. 
- É, mas... Sabe, moça, certas vezes, solidão demais não faz bem.
- É, concordo. Eu estaria sozinha agora, se não fosse você, Vicente. 
- E ainda não queria minha companhia... - Então ele sorriu, de novo. Olhou-me, agora bem no fundo dos olhos.
- Obrigada pela companhia, Vicente. Muito obrigada. 
 Sorri para ele e saiu como quando a gente pisca, sem querer. Acho que foi um sorriso bonito, só sei que foi doce. E sei que os lábios dele eram doces, também, pois assim que sorri ele me beijou. E foi, de longe, o beijo mais estranho que tive. Mas foi, de longe, o mais triste e bonito. Ele se levantou, pegou minha mão direita e a beijou. Disse que já podia ir, pois eu já havia encontrado meu local seguro e calmo. 
- Feliz Natal! - Disse ele.
E então ele se foi e desapareceu no breu da rua quase que em um bater de asas do beija-flor. Eu fiquei lá, sentada na calçada. E ainda não tinha encontrado meu lugar calmo e seguro como havia dito, mas eu estava bem. Já não haviam lágrimas em meus olhos e nem vontade de sair correndo. Voltei para a festa onde estava e todos perguntaram o que havia acontecido. Inventei uma mentira qualquer. No dia seguinte, quando peguei o jornal para ler, havia, na primeira página, a foto de um procurado pela polícia. Ele havia assassinado cinco mulheres. Ninguém sabia seu nome. Apenas eu. Era Vicente e o seu sorriso doce que, como eu já havia dito, qualquer apaixonada se encantaria. 

21 de dezembro de 2011

Certa noite, enquanto eu sonhava com você...

Coloriu os lábios com batom avermelhado. Pintou os olhos de cor de céu à noite e contornou os olhos de breu. Pôs seu mais bonito pijama, deitou-se na rede da varanda e pôs-se a ler teu melhor livro. 

(talvez não fosse o melhor, mas era o que lhe cabia naquela noite)

Ouvia de longe uma melodia tão doce, tão confortável que teve seus olhos fechados. Não conseguia abri-los, então entregou-se à noite. As estrelas iluminavam o céu juntamente da lua nova. A chuva caia devagar, leve, fina. Seu corpo inteiro se arrepiou com o vento que batia leve. Puxou as pernas para si, abraçando-as. Em outras noites, teria tido o corpo coberto por cobertores. Inúmeros deles. Mas tal época se fora. Hoje tens que dormir ao relento, ou então em sua cama, em seu quarto aconchegante, mas que a levaria lembranças desconfortáveis. Dormir ao relento, talvez, não fosse tão ruim. Dormir sob estrelas e ao lado da chuva, também não. E assim foi, por noites seguidas. E em uma dessas noites, tal como a anterior, enquanto dormia ao relento, sob lua cheia e poucas estrelas e nenhuma chuva, quando teve seu corpo tomado por arrepios causados pelo frio fino, teve teu corpo levado para dentro. Coberto por outro corpo, tão quente, esse, que a fez agarrá-lo. E disse, ainda de olhos fechados, talvez até mesmo dormindo: não vá embora outra vez. 

8 de dezembro de 2011

Se eu não tivesse olhos ou um coração batendo, ainda seríamos nós dois.

If I lay here, If I just lay here,
would you lie with me and just forget the world?

Talvez o fim seja apenas um começo. Ou talvez seja mesmo o fim. De nós, do que somos e quem somos. E a continuidade de todo o resto, sem nós.

Quando os olhos se fecham, o que nos dão, a princípio, é nada. Tolos, aqueles que acham isso. Quando os olhos se fecham, o que nos dão, a princípio e todo o resto, é o mundo. Fechar os olhos não é apenas adormecer ou uma ação involuntária do nosso corpo. É querer conhecer o que não nos é permitido com estes abertos. Ao fechar os olhos, temos tanto que nada enxergamos com medo do que há a nossa espera. Somos tão estúpidos e arrogantes que, ao fechar os olhos, sentimos como se não houvesse nada. E imaginamos, quase todos os dias, o que há de ser de nós quando chegar o fim. "Será tudo escuro!". Talvez devêssemos agradecer se for, realmente, tudo um breu danado. Há coisa melhor que fechar os olhos? Permitem-me reformular a pergunta. Há coisa melhor que fechar os olhos e ter o mundo com estes fechados? Mas é claro. Tolos, são os que disseram que não. Não somos loucos de permanecer de olhos fechados o resto da vida. Sozinhos. Fechar os olhos, ter o mundo com estes fechados e poder dividi-lo. Isso, não há coisa melhor que isso. Deitar à beira do mar à meia-noite de um dia qualquer. Observar as estrelas até que as pálpebras ganhem força e caiam sobre nossos olhos. Arrastar a mão até uma mais próxima e agarrá-la com a força de um alguém desesperado por companhia eterna. E, de alguma forma que minha capacidade não permite ousar explicar, dividir com ela todo o seu mundo, de olhos fechados. Abrí-los, se for mesmo necessário fazê-lo, só tarde do dia seguinte. Não há o que perder quando estamos aprendendo a sobreviver num mundo em que não conhecemos, pois ainda habitamos um mundo onde é preciso abrir os olhos para vê-lo. Para vive-lo. 

No entanto, lá está o dia onde vemos se aprendemos tudo suficientemente bem, para então podermos exercer tudo aquilo que nos foi ensinado, de olhos fechados. Quando os olhos se fecham, agora num período mais longo, nos dão o nosso mundo, aquele que construímos cada vez que tivemos nossos olhos fechados, voluntaria ou involuntariamente. Lá está ele, do jeito em que construímos, com aquela pessoa em que escolhemos construir. Entende o porquê de ser quase necessário uma mão sobre a nossa? Não há quem habite um mundo só e sobreviva. Não há quem viva uma vida inteira de olhos abertos sozinha e viva uma vida inteira de olhos fechados tendo uma mão para segurar e caminhar no fim de tarde. 

Talvez o fim seja mesmo o fim, do mundo de olhos abertos. E seja a continuidade de um mundo às escuras para os que vêem de fora, mas cheio de cor para os que o habitam. 

6 de dezembro de 2011

Seja rosa ou carmim, senti saudades de ti.

E a moça, que de forma alguma chamava-se Capitu, roubou-lhe um beijo nos lábios. Seus  olhos fecharam-se por um milésimo de segundos e, mesmo antes de abri-los, a moça já tinha disparado, deixando-lhe apenas o gosto dos teus lábios rosados. E então passou a sonhar, dia e noite, com aqueles lábios da moça-que-não-sabia-o-nome, mas que não era sua Capitu. E essa moça, ele acreditava, gostava das coisas boas da vida. De sair por aí alegrando o dia de todo coitado que visse à sua frente. Não que saísse beijando qualquer um que visse, mas acreditava que o fazia com os menos coitados que encontrava. Essa moça era dona de um belo par de olhos negros, um sorriso emoldurado por lindos lábios rosados e um beijo de encantar qualquer um. E ele, moço carente, com certa saudade no peito de tempos que talvez não voltariam, de certa moça que, com certeza, não voltaria. Encantar-se por tal sorriso e tal beijo tão doce era de se esperar. O que não era de se esperar foi o fato de esquecer, quase por completo, a moça que, essa sim, chamava-se Capitu. Seus sonhos, agora, eram da moça dos lábios cor-de-rosa. Do par de olhos breu e de sorriso enlevador. E a moça, a não-Capitu, voltou no dia seguinte e roubou-lhe mais um beijo. E no outro, e no outro. Sempre em milésimos de segundos. Sempre sem deixá-lo que visse nada além do que seus olhos e boca. Como pôde se apaixonar por um beijo, Deus!, um beijo. Ou em um beijo. Não sabia ao certo. Talvez os dois. O que sabia era que já não pensava tanto na moça que também já não recordava mais o nome, mas que não era a de lábios rosados.  O que sabia, mas só passou a saber depois do beijo que o encantou, era que amores só se vão com novos amores, e os que dizem que vão com o tempo são pessoas chatas e que não se permitem amar. Mas o que não sabia, também, era se a moça, que de forma alguma tinha lábios rosados e, sim, carmim, tinha o esquecido. Talvez não tivesse. Talvez trocar carmim por rosa nem sempre seja uma boa escolha. E vai saber o nome daquela moça, que só o que tinha eram seus beijos vez ou outra. Mas não da moça de lábios carmim. Dela tinha tudo, até seu amor. Eu, a única coisa que sei, é que amor não se esquece com um beijo diferente, afinal, amores não são esquecidos. O que se esquece são suas características, e até nomes. Mas não creio que o tenha esquecido. Esse moço carente, que sentia tanta saudade de sentir a saudade dela por ti, não gosta, nem nunca gostou, de rosa. Ele sentia saudade dos seus lábios carmim. Da moça, que de forma alguma chamava-se não-se-sabe-o-nome, mas sim, Capitu. 

29 de novembro de 2011

Próxima Parada, Encontro.

Os olhos eram de um breu infinito, tal como fica meu quarto quando o coração dói. E até mesmo quando sorri. Nos lábios não tinha nada, nem o mínimo sinal de batom. Ou sorrisos. Até um cantarolar baixo procurei, como se na melodia possivelmente existente escondesse alguma dor - ou desamor . Mas não havia nada. Tinha o nariz arrebitado; a pele branca e quase sem nenhuma manchinha, e algumas pintas no pescoço, foi só o que pude notar. Estava vestida como algumas vezes anteriores que a vira. Calça, uma blusa escura e tênis. Algumas vezes mudava a cor da blusa para marrom, ou bege. Até já a vi de rosa, bem clarinho. Foi só uma vez. Mas não a vi muito mesmo, acho que não passou de quatro. Mas não precisou de mais que a primeira para deixar-me encantado. Seus cabelos eram longos, tinham a cor do meu brigadeiro de panela. Estavam quase sempre atrás da orelha, onde suspeito que além de esconder os cabelos, escondia os sorrisos perdidos e o coração. Menina esperta, essa. 

Dias atrás 
"Oi."
(Silêncio)
"Olá!"
(Silêncio)
"Estou falando com você."
(Silêncio)
"Ela é surda-muda." - Disse uma voz atrás de mim. Era o cobrador. 
"Perdão?"
"Ela não escuta e não fala."
"Eu entendi."
Cutuquei-a e disse "Olá" na linguagem de sinais. Eu havia aprendido um pouco com uma ex-professora de geografia do colégio. Ela correspondeu, o que me fez sorrir. Disse que não sabia muitas coisas na linguagem de sinais. Ela só virou para a frente. 

Poucos dias atrás.
No dia seguinte, lá estava ela. Disse "Olá" outra vez, mas dessa não obtive resposta. 
Procurei alguns livros de sinais na biblioteca da faculdade. Não haviam muitos, mas eram o suficiente. 

Dois dias atrás.
Sentei-me no ônibus e lá estava ela novamente, no mesmo lugar, com a mesma falta de sorriso. Disse "Olá" novamente e nada. Então perguntei se estava tudo bem. Ela disse sim. Perguntei seu nome. Acho que disse que era segredo. Perguntei quantos anos tinha, ela disse vinte e um. 

Ontem.
Quando subi no ônibus e procurei por seus olhos negros, não os achei. Sentei-me e esperei que subisse na próxima parada. Nada. Havia aprendido mais algumas coisas. Na verdade, sabia bastabte para tão pouco tempo. Queria conversar com ela.

Hoje de manhã, às 08:46.
Subi e olhei. Lá estava ela. Sentei ao seu lado e disse o "Olá" dos outros dias. Mas não esperei que respondesse, fui falando várias coisas que aconteceram no dia anterior, ao menos o que eu podia, e perguntei porque não havia vindo ontem. Ela disse que foi ao médico. Perguntei se estava tudo bem e ela respondeu que sim. E então ela disse seu nome, sem que eu precisasse perguntá-lo. Era Carmem. "Bonito nome! Sabe, Carmem, esses teus olhos me encantam como a solidão. E não faz idéia do quanto essa moça solidão me encanta.". Nada, como eu já esperava. Quando ia descer, segurei seu dedo e disse, em sinais, que não esperava a hora de vê-la novamente. E foi aí que ela sorriu. E foi aí que a gravidade parou de me prender aqui e deixou que ela o fizesse. 

11 de novembro de 2011

Desassossega-me.

E quem diria, moço, depois de tanto esperar, de tanto enganar-me, de tanto bater-me com o coração, você. Você, moço, que com esses olhos miúdos e um sorriso provocante, tomou-me o que chamam por aí de sanidade. Arrancou-me, pedaço por pedaço, o pouco que restava de qualquer coisa parecida com amor. Mas, primeiro, tomou-me em seus braços, beijou-me os lábios como se fossem doce, cantarolou músicas quase todas as noites em que dormimos abraçados. Demonstrou-me amor, planejou, comigo, um nós de um futuro que, ao meu ver, não demoraria para chegar. Só que sempre há uma coisa em que costumo - e é um costume um tanto quanto iconveniente - esquecer. Ao meu ver, tudo é fácil, bonito. Romantizo tudo ao meu redor, que é pra dar mais doçura à vida. Que é pra deixar tudo um pouco mais fácil, mais poético, mais fácil de se interpretar. Mas é aí que tudo se embola, se confunde, se desfaz. Quase sempre essa minha mania inconveniente desata algum nó que, junto com a vida, dei com o tempo. Atei bem apertado, que era pra não desfazer-se facilmente, assim, como tem acontecido por esses dias difíceis e amargos. Passei a tomar café sem açúcar, aliás, que é pra igualar à vida. Eu sei, eu sei. Café, para mim, só do vovô. Mas é que o vô se fora, lembra? Senti saudade do cafézinho dele e fiz um dia desses. Não ficou nada parecido, adimito, mas bateu uma nostalgia, anjo. Ah!, que saudade. Aquele velhinho faz falta, ein. Lembro bem de quando ele bebia uns copos a mais de cerveja e brincava comigo. Dizia para nunca arrumar um namorado, pois os homens não prestam. E depois, quando sóbrio, pedia desculpas e dizia o quanto queria ver-me casando. Velho doido! Saudades... Sinto saudade do teu sorriso também, moço, tanto tempo que não ganho o dia como quando ganhava com teus sorrisos matinais. Davam-me a mais pura e inocente felicidade, aqueles teus sorrisos. Tão doces, menino, tão cheios de amor. Faziam meus olhinhos brilharem, lembra-se? Eu lembro, quase sempre, de quando pegava-me no colo e corria pela casa. E então jogava-me na cama e fazia-me cócegas. Já não rio daquele jeito há tempos, viu? Percebe a falta que faz, meu rapaz? Roubaste de mim o que me restara da sobriedade, da inocência, do amor que, há muito - antes de trazer-me de volta e então me tirar, não havia nada. Há muito, meu coração pede por carinho, pelo mínimo afeto possível. E então apareceu-me você, moço bonito, do estrangeiro, com a barba por fazer e um par de olhos doces e escuros. Um sorriso encantador, um sotaque enlevador e um amor, rapaz, um amor inexistente. Posso resumir nossa história em algumas palavras, se me permitir. "Trouxe-me felicidade grande, um sorriso - quase sempre - presente. Um riso alto, escandaloso, feliz. Um amor, pela vida, inimaginável. E uma dor, rapaz, ah!". Ainda dói, moço, meu coração ainda anda se reconstruindo depois do estrago que fizera. Ele anda meio triste com você, moço, talvez devesse passar e dizer um "olá!". Talvez devesse passar, sentar, tomar um pouco do meu café sem açúcar - que ainda é para igualar-se à vida, e ficar. Você pode me ajudar a reconstituir o coração que quebrara tempos atrás. Trazer, de novo, aqueles sorrisos que me roubara. E o amor, menino, que roubaste de mim, pode trazer também. Talvez você se arrependa de ter ido, vendo como meu café é ruim e como meu sorriso não existe quando não está. É, você pode ficar, moço, mas só se não for partir de novo. Só se não for tirar de mim a paz que consegui mesmo sem você aqui.

7 de novembro de 2011

O reflexo do amor contido em silêncio.

Procura encantar - quase sempre - tudo que a envolta. E quase tudo a confunde, menino, pois vive com a cabeça nas nuvens. Mas encanta, devo-lhe dizer, meu bom moço. Encanta maravilhosa e encantadoramente. Teus olhinhos de um azul cor do céu, de um brilho como duas estrelas e de uma grandeza como a Lua. Olhinhos não, são duas pedras, portas, portais, para o paraíso. É só piscá-los e pronto, enfentiça o mundo. O pequeno e complexo mundinho dele. Ela o enleva, o gira, o envolta. Bagunça teu quarto, cabelo, vida. Bagunça tudo até você se acostumar com a bagunça. E, meu bem, quando acostuma-se com a bagunça dessa moça, não há limpeza que a conserte. Mantenha teus olhos fechados pra que teu encanto não o encante, encanto. Mantenha teus lábios selados para que sua voz não o agonize de prazer; tuas mãos nos bolsos pra que as dela não o puxe para o amor. Amor, esse, que arranca de ti sorrisos notáveis, risos estonteantes, abraços sufocantes, lágrimas duradouras. E tristes, devo ressaltar. Quando joga aqueles cabelos ao vento, meu rapaz, corra e os prenda. São como cordas, como laços. São como nós cegos, difíceis de desatar quando o enlaça e o ata em si, em ti, na cama. Tem cheiro de chuva, de grama molhada, de manhã de domingo sem compromissos. Tem cheiro de comida de mamãe, do café do vovô. Tem cheirinho de bebê após o banho, de fim de tarde, de amor. E aquela pele, Deus!, aquela pele cheia de manchinhas engraçadas, de pintinhas bonitinhas e agradáveis. Repleta de arrepios constantes, de prazeres contidos, de amor revelado.


(Guarda, em cada mancha, um pedacinho quebrado do coração.)


Ele beija cada mancha que pode, que se pode ver ou tocar. Sorri para ela como se fosse o último e único modo de demonstrá-la amor. Sorri com os olhos, com o coração, com amor. E não há nada que faça que não venha seguido por um beijo, daqueles que mal se encosta os lábios, porém o que mais lhe faz tremer as pernas. Ele sabe amá-la, moço, vê-se pelo olhar. Os olhos dele brilham feito águas cristalinas do mar quando ela sorri. É, moço, tem amor de sobra, esse menino. Tem amor p'ros dois, e não vá duvidar. Mas sabe de uma coisa, moço? Creio que ela também o ame. Veja esses olhos - sim, as portas para o paraíso - veja como se exaltam e repuxam nos cantos quando sorri. Veja como aquelas covinhas ressaltam teu sorriso quando o vê. Ela tem amor imenso por ele, moço, vê-se pelo olhar. E pelas mãos trêmulas que, mesmo quando ele as segura, parece que faz um tremendo frio dentro dela. Olhe, moço, olhe o modo como ela põe a mão em sua perna, como se pudesse prendê-lo a ela para sempre. Acho que, se pudesse, viveria segurando-o pelas roupas para que não fugisse. Dá para ver que ama recostar a cabeça em seu peito, veja como o faz com graciosidade. Tão sutil, essa menina. Ele ri da meiguice dela, tão doce, ela. Tanta doçura pra tanta dor. Vê-se de longe que ele é algum tipo de porto seguro, sabe? Como se a qualquer momento ela pudesse desabar, mas não aconteceria, pois ali estaria ele. Talvez seja isso mesmo, nunca parei para pensar. Mas sabe de uma coisa que sei, meu rapaz? Eles se amam, vê-se pelo espelho.

4 de novembro de 2011

Candura de cantar amor.

Remanescer, talvez, seja o mesmo que rarear. Quando se trata de amar, quase tudo ganha-se o mesmo sinônimo. 

Remanesce ainda, pequena, meu amor jogado aos lençóis, para não dizer ao vento, esperando você voltar e dizer: remanesce você em mim. E de toda candura que te cerca, menina, tens, por cerca, o coração gelado pra te proteger. Então nada diz. 

Leve esse sorriso leve pra longe do vento molhado, pra longe da água que lava a alma. Pois ela lava sorrisos inocentes também.

Eu compro a tinta que quiser, mudo a cama de lugar, faço tua comida predileta pro jantar. Assisto o teu time perder, beijo você pra te consolar. Fico quieto pra você dormir, acordo-te com beijos ao amanhecer, prendo-lhe na cama só mais um pouquinho antes de trabalhar. Rio das suas piadas, só pra não te deixar sem graça. Eu pinto o teu rosto com beijos, faço uma escultura do teu corpo com o meu. Invento uma arte diferente, aquela que todo mundo sente, que tem por nome amar. Então vem e diz, minha menina, que o que remanesce em você é o amor que tens por mim. Que espera que eu volte e te puxe p'ro meu peito toda noite, que lhe cante uma canção de ninar impovisada e misturada com teu teatro de carência. Que te ame a noite inteira e todo o resto. Tudo bem amar, menina, então tudo bem sonhar também. Não sinta-se acanhada por sentir amor por mim, e não é querendo me gabar nem nada, mas teus olhos tem um brilho encantador quando me olha. Eu posso até me acostumar com o teu jeito meio louco, com quando passa a mão na cabeça quando está nervosa. Posso até me acostumar com teu ciúme bobo, mas, por Deus!, menina, não irei, jamais, acostumar-me com a falta que me faz. Então não se preocupe, a saudade faz parte do pacote amor. Amor é como música. Ora nos fazem chorar, ora nos fazem rir. E talvez choremos mais que sorrimos, qual o problema? Lágrima é melodia, é aroma de flor. Lágrima é aquilo que acontece quando se tem, no sorriso, amor. 

E te canto um sorriso doce, feito o som do seu olhar. Canto-te meu abraço, tão presente em meu sonhar. E a música, talvez, eu fale ao pé do teu ouvido, bem baixinho, abraçando-te apertado, fazendo-te sorrir com os olhos e cantar, com os olhos fechados e um sorriso nos lábios, nossa canção de amar. E canto, vez ou outra também, teu mais belo pensar, que quando pensa em mim, flutua feito pena. Mas pena é estar tão distante quando o que preciso, é do teu pensar. Do teu achar, do teu amor. Pena é estar tão longe, mesmo logo aqui ao lado, enquanto beijo-te o ombro, mas com a cabeça lá. Sabe-se lá onde, menina, mas um lá maior. Tão enorme, tão gigante. Tão lá, tão pouco mim. Tão lá, tão só. Tão sem dó de mim aqui, menina, cantando-te canções de ninar, sem ter você p'ra embalar, p'ra errar a letra, p'ra dormir depressa, sem pressa de sonhar. Sem você aqui p'ra olhar, em mim, paz gigante, estonteante calma que me cerca, mas só quando estais acerca de mim.

(E, moça, tudo é vazio - perdoe-me o clichê - sem você.)


Cá estou, moça bonita, com meus olhos marejados de lágrimas, com meu coração afogando-se em amor. Amor esse que sorri p'ro mundo, canta p'ro vento, embala teu corpo e te põe p'ra dormir. Amor que faz encantar, com o olhar, todo um mundo. O meu mundo.  Amor esse que te puxa p'ra perto, enche-te de beijo, ama-te e ama-te. Amar-te é fácil, menina, como cantarolar uma música bonita qualquer, que me faça lembrar do teu riso em meio a noites de dor, quando digo, — seja o que Deus quiser. Saudade é a pétala de flor murcha na mesa de cabeceira. É o último segundo da música predileta tocando na rádio, é o cinco minutinhos quando se tem que acordar. Saudade é gozo do amor sentido, que quando não a tem, é nulo.

Saudade é sintoma de amor sussurrado, bem quietinho, trancado no quarto, sorrindo p'ro céu. Saudade é a inocência de amar errado, de querer o pouco, de contentar-se com o nada, é candura de cantar amor.

Não cante, não grite, não fale. Sussurre teu amor só p'ra mim, menina. Tudo ganhou ouvidos e mentes maldosas. Não fale, não grite, não cante. Sussurre teu amor ao pé do meu ouvido, grito em ti tudo o que sinto, sem deixar que ninguém escute. Sussurre, em meio aos nossos beijos, teu amar por mim, que canto bem baixinho, madrugada a fora, dentro de ti, todo o meu achar sobre o amor que tens por mim. Que canto, num sussurro miúdo, minha canção de amor por ti. 

24 de outubro de 2011

Amor de liquidificador.

Com as fotos amareladas, foram-se os sorrisos roubados nas noites de chuva infinita. E junto deles meu amor, que já tão ferido andava por seus descuidos em breves noites de dor. E, perdoe-me a ignorância, mas causaste em mim ânsias de felicidade constantes. No entanto, meu bem, como toda ânsia, estas não duravam tanto quanto as sensações em que eu buscava. E buscava quase sempre em meio as noites de lágrimas, que era quando mais precisava de afeto. E sabes que não é qualquer um. O seu, meu amor, era – ou ainda é – o único de que preciso. E o tive toda vez em que precisei, não posso negar, mas temos que concordar em ao menos uma coisa, meu menino, afeto não é amor. Mas talvez houvesse amor em meio a tantos sentimentos no liquidificador. Talvez, digo, pois tão confuso eras, meu príncipe – e devo dizer que amo recordar-te desta forma -, que fazia dos nós que a vida nos dava, nós cegos. Tão cegos que já não podíamos enxergar o amor em meio a tanta coisa. E então, perdeu-se tudo. Lembra-se das fotos que se amarelaram com o tempo e que com o tempo se foram? Foi-se com elas toda a minha capacidade de sentir quaisquer pontinha de afeto-barra-amor. E então vi-me despida de sentimentos e, de repente, meu benzinho, despir-me de roupas em noites perdidas com você e para você pareceu-me muito simples e fácil diante da falta de sentimentos que tem me rondado por noites a fora. E então peguei-me desejando uma daquelas noites de calor infinito, um sofá pequeno e o céu coberto de estrelas. O breu tomando conta de cada canto do nosso cantinho. E o único som presente seria o da sua voz rouca cantando-me minha canção predileta do mês ao pé do ouvido. Seu sorriso destacado em meio a escuridão se misturava com o meu em meio aos beijos que me dava certas vezes. E lá estaríamos nós, enroscados no sofá feito nós que não desatam. Provando cada pedacinho de cada dia que ganhamos. Amando-nos como a primeira vez que o fizemos. Dormindo, sonhando. Lembrando de que noites como esta nunca mais aconteceriam, simplesmente porque já não existe mais nós na vida. O nós que havia, desatara. E não sobrara nada, exceto meu amor infinito e atado p'ra sempre em meu coração. 

21 de outubro de 2011

Por onde anda minha pequena arco-íris?

Tem feito um frio encantador por esses dias que tem se esvaído por entre os rombos que a vida tem me causado. E só percebi agora, que também faz frio dentro de mim. 

Talvez se eu me despir e for olhar o céu do lado de fora, não sentiria tanto frio, em vista que sinto mais frio quando estou só.

Não faz ideia de como o som da tua risada causa-me arrepios, principalmente quando vem acompanhada de um ou dois sorrisos doces deste que você dá quando me olha nos olhos. Tenho um apreço um tanto confortante por essa sua mania de encarar a vida como uma colher deliciosa de brigadeiro. Branco, que é o teu predileto. Encara a vida como quem encara uma criança recém-nascida, com aqueles olhos encantadores e aquele sorriso bobo. Clichê, não discordo, pois essas caras e bocas que o ser humano tem mania de fazer quando encara uma criança é um tanto problemática. Mas vê-se de perto que é um encanto danado. E é assim que enxergas a vida, menino, como uma criança. Gosto bastante do modo que canta p’ra mim quando nos deitamos. Porém gosto especialmente quando me abraça apertado, beija-me a nuca e dorme com o rosto cravado em meu pescoço. Por esse momento cujo passa tão depressa, sinto-me invencível. A vida é um tanto engraçada, em vista que nunca sabemos realmente como será o dia seguinte, por mais rotineiro que sejamos. Dormimos sabendo o que ocorrerá na manhã seguinte e no decorrer de todo o dia. E então nos deparamos com um acontecimento um tanto quanto desconfortante, que tira de baixo de nós o chão, e põe o mundo inteiro em nossas cabeças. E frágeis humanos como somos, não o suportamos e desabamos. E é assim que me sinto hoje, arruinada. Pensei muito antes de exteriorizar o que sinto, pois alguma parte de mim sabia que faltaria algua coisa quando o fizesse. E falta. Falta tanto nessas palavras fracassadas, com essa caligrafia um tanto quanto infantil. Não falta você ou eu. Nem falta amor. Falta nós. É, o nós que a vida nos deu, faz falta. Muita falta...

Já não há você ao amanhecer, ou ainda, quando chega a Lua. Já não há você pela tarde, reclamando do frio da cidade. Já não existe você em toda parte do meu quarto. Não há mais você sorrindo p'ra mim. Não há você mais, ou eu, ou nós. Penso que não haja nada que não tenha por nome solidão. Você trouxe p'a mim o anil do arco-íris, menino, mas levaste todo o resto. Quem diabos traz felicidade e depois pega de volta? A vida é um tanto injusta, penso, e tenho cada vez mais convicção disso. 

Perdeu-se o sentido de tudo. Perdeu-se tudo. Mas não reclamo tanto, em vista que também perdi toda e qualquer chance de sentir. E sentir, embora seja bom e prazeroso, dói quando não se sabe o que sentir. 

9 de outubro de 2011

Antes de o sol nascer em Copa.

"Esqueça, senhorita, entupir-se de culpa já não adianta nessa idade. Não querendo ofendê-la, pois nem sei se passa dos vinte e cinco, mas culpar-se por tudo é coisa de adolescente, não acha? Não se preocupe, pois tu não recebes fardo maior que o que podes carregar. Portanto, moça, pare de reclamar."
E foi isso que consegui dizer aquela moça de olhos cor de mel. Talvez ela estivesse um pouco embriagada, afinal, eram apenas cinco e meia da manhã quando ela apareceu no calçadão da minha linda Copa e sentou-se no banco, entre mim e Drummond. Ela não tinha uma aparência muito boa, de quem havia tomado banho ou simplesmente de alguém que havia vindo olhar o mar. Talvez fosse uma dessas adultas metidas a adolescentes que estivesse voltando de uma boa noite de balada. Talvez estivesse sido expulsa de casa por estar grávida. Ou talvez tivesse ido tentar afogar as mágoas de sempre e uns bons copos de vodka pura. É, acho que foi isso. No entanto, foi um tanto engraçado o jeito como chegara. Meio cambaleando e trocando as pernas, até deu bom dia para meu amigo Drummond. Para mim? Oh, não, não ganhei nem um "olá". E então pediu licença a ele e sentou-se de frente para o mar, assim como eu estava. Olhou para mim e metralhou um "a vida é uma merda". Ora, eu não merecia um bom dia? Tenho sempre que começar o dia com reclamações alheias? Por que diabos não recebo um bom dia? E então vi-me reclamando. Oras, eu não era de reclamar. 
"Acho que discordo." Disse mesmo, afinal, a vida não é uma merda, por favor, é até gentil de mais. 
"Meu amigo, você está, exatamente as cinco e trinta e dois, sentado no banco de Copa, olhando o mar, em vez de estar dormindo. Quer me dizer que a vida é boa para você?"
"Olhe, moça, não sou eu que cheiro a bebida, tenho uma má aparência e ainda disse bom dia a uma estátua."
"Olhe, moço," - Ora vejam, soltara, agora, uma sátira. - "talvez eu prefira dar bom dia a uma estátua, a dar bom dia a um ser humano medíocre."
E foi assim que ela me pegou. Ela estava certa, de certa, porém estranha, forma. O ser humano tornou-se algo tão... não-humano. 
"Perdoe-me, moça, pela ignorância. De onde vem?"
"Sou daqui mesmo, meu senhor."
"Oh, não sou tão velho assim, por favor. Porém quis dizer onde passou a noite, já que não fora em sua casa, permita-me dizer."
"Velho de alma tu és!"
"Sou nada, o que é isso? Não lhe estou ofendendo, moça."
"Nem eu, perdoe-me. Acho que bebi um bocado, sabe, acordei aqui perto. Não lembro de muita coisa, hoje ainda é terça-feira?"
"Contando que já tenha passado de meia-noite, senhorita, já é quarta."
"Oh! é verdade."
"Moras aqui perto?"
"Moro por aí, se é que me entende."
"Entendo em parte, todavia sei como se sente."
"Bem, meu rapaz, sinto-me bem."
"Está certa disso?"
"É tão visível assim?"
"Não, não se preocupe, só quem já passou por isso reconheceria."
"Ah, ainda bem."
"Se bem que nunca encontrei por esse Rio de Janeiro inteiro alguém que não tivesse passado por."
"Estou encrencada."
"Mas não se preocupe, moça, se passaram por isso, sabem das consequências, ninguém a julgará por isso."
"Sei não, o ser humano tem se tornado tão hipócrita, que é capaz de julgar até mesmo uma pessoa como ele."
"Verdade, não lhe tiro a razão. Mas fique tranquila, nesse quesito, não vejo quem há de se intrometer."
"Olhe, moço, não é querendo ser chata nem nada, porém estamos falando da mesma coisa?"
"Claro, sofres de amor, estou certo?"
"Não, sofro de distância."
"O que não deixa de ser a mesma coisa."
"É, pode ser que sim." Ela inclinou-se para trás e sorriu para Drummond. "Esse aqui sim, é feliz. Observa esse calçadão todos os dias, vinte e quatro horas por dia. Não sofre por nada."
"Às vezes tem seu óculos furtado e, assim, impedido de ver a linda Copa."
"Vê? Até dele, meu Deus, até de uma estátua. Já não sei onde esse mundo irá parar."
"Não se preocupe, se quiser segui-lo, não correrá muito, pois ele não vai muito longe."
"Ao menos se as pessoas sofressem menos por amor. Por distâncias. Como diz Caio, por lonjuras. Às vezes acho que não vou suportar, entende? É dolorido, moço, e é dor constante também. E queima! Arde! Pega fogo, e não há lágrimas que apague. Não há vodka, não há bebida alguma que seja capaz de apagar o fogo dessa dor que sinto por estar tão distante."
"E de quem estais tão distante, moça, que chega a doer desta maneira?"
"De mim, moço, ando tão distante de mim..."

25 de setembro de 2011

Enquanto o Sol se punha.

Caminhava pela areia sem rumo, sem destino, sem vontade, tal como alguém sem vida. Mas tinha, e muita. E tinha tudo para ser uma vida daquelas de novela, de se invejar. Tinha tudo para ser, caso fosse de outra pessoa. No entanto, era dele, e ele não gostava nem um pouco disso. Seria tudo tão mais fácil se só o que tivesse fosse o necessário. Não queria mansões, carros do ano ou empregos respeitáveis de acordo com a sociedade. Não queria dinheiro, mulheres, tudo aos seus pés. A vida era tão fácil a seu ponto de vista, e seria muito mais se as pessoas fizessem dela um hobbie, e não obrigação. Afinal, a vida tinha se tornado isso, uma obrigação inútil e tão desesperadamente cruel, como se isso fosse levar sentido a alguma coisa. O que mais gostava era de caminhar a beira do mar assim que o Sol sussurrava que ia se esconder até o outro dia. Saía do trabalho, afrouxava a gravata e tirava os sapatos. Sentia-se ele mesmo quando o fazia. E raramente podia fazê-lo. Sentar e observar o Sol se por era como assistir ao mais belo teatro de todos os tempos. No entanto, o único ator presente, ao atuar, era verdadeiro, não tinha isso de atuação, de fingimento. Era o seu papel diário, e poucas pessoas ousam parar, assistir e aplaudir seu espetáculo. Entretanto, ele o fazia. Adimirava com os olhos fixos no céu, como uma criança ao assistir seu desenho preferido, ou uma senhora ao assistir sua novela de todo o dia. Ou até mesmo um casal apaixonado olhando um ao outro. Era isso que ele era, apaixonado por esses mistérios da vida. E como todo apaixonado, era tolo, bobo. 
"Posso me sentar?" Ele mal sabia de onde havia saído aquela voz doce até olhar para cima. Lá encontrou um par de olhos azuis e um sorriso encantador que mal conseguiu falar. Talvez houvesse outras maravilhas nas quais ele não havia sido apresentado até ali. E então ele teve a certeza de como era apaixonar-se a primeira vista. Talvez fosse o brilho dos olhos, a doce voz ou até mesmo o misterioso sorriso. Ele não sabia muito bem, só sabia que havia acontecido algum tipo de transe. Sei lá.
"Claro, sente-se." Conseguiu falar antes que o coração saísse pela boca. Você é adulto, homem, haja como tal. 
"Gosto de vir aqui a tarde observar o Sol se por. É como algum tipo de mistério, sabe. Ele vai, mas a gente sempre sabe que ele volta. Mas eu me pergunto porquê. Você não?" Ela começou a falar de súbito e a única reação repentida - e retardada - que ele teve, foi sorrir. 
"É, eu também." Pergunte o nome dela ao menos, seu idiota, onde está o seu tamanho, a sua maturidade?! Seja homem. "Desculpe-me a ignorância, como se chama?" Sorriu de novo. 
"Para que? Para quando o Sol se esconder por completo, levantar, ir embora e eu nunca mais o ver? Prefiro ficar no anonimato, se é que me entende." Ele havia ficado confuso, a ignorante agora havia sido ela. 
"Puxa, eu só queria saber seu nome. E já que foi a senhorita mesmo quem disse, já que vamos ficar aqui até que o Sol se ponha, acho que mereço saber." Pronto, agora havia jogado o tal clichê. Senhorita? 
"Senhorita?"
"Você não tem aliança na mão esquerda, então..."
"Entendo. Então já olhou para a minha mão. Logo, se interessou por mim." Ela estava brincando com a cara dele. E acho que ele não se encomodou muito devido ao seu sorriso idiota no rosto novamente. Homens...
"Na-não. Perdoe-me se a ofendi ou algo parecido. Olhei sem querer, perdoe-me." E agora havia ficado vermelho. Acho que de trinta e poucos só a idade, a cabeça... Ou melhor, o coração.
"Não se preocupe. Então, você vem sempre aqui?"
"Uau, partimos para as cantadas ruins."
"Não! Quis saber se vem sempre assistir ao pôr-do-sol. Meu Deus, eu não estava te cantando!" E ele riu, aquelas risadas pequenas e gostosas de se escutar. Tão gostosa que a fez sorrir.
"Eu entendo, só queria deixá-la sem graça. Bom, venho sempre que posso. Sabe como é, trabalho e tudo mais."
"Perdoe-me a intromissão, mas deixa teu trabalho o impedir de presenciar esse espetáculo maravilhoso?" Ela estava certa. Ele era um idiota. Ele gostava tanto e como pode ser tão idiota a ponto de deixar de assistir algo tão estonteante por causa do seu trabalho estúpido?
"Tudo bem. Mas é complicado. Mas veja, estou aqui agora."
"Mas sabe-se lá quando irá voltar."
"Mas e você, vem sempre aqui?"
"Agora é você com as cantadas ruins." Ela sorriu e olhou para o mar. Seus cabelos começaram a voar de acordo com o vento, o que não deixou que ele tirasse os olhos dela. "Venho sim."
"Nunca a vi por aqui."
"Talvez não esstivesse olhando direito."
"E por que hoje a encontrei?"
"Eu vim falar com você, não esqueça."
"E por que?"
"Talvez porque hoje deixou que eu o visse. Talvez esteja precisando que alguém o veja." Sorriram.
"É, mais ou menos isso."
E então, em questão de segundos, o Sol se foi. Ficaram ali olhando o céu escurecer.
"Na verdade, eu já havia o visto antes."
"E por que nunca falou comigo?"
"Não pareceu precisar de companhia."
"Sempre estou precisando de companhia."
"Por que?"
"Será porque todo mundo sempre precisa?!"
"Não, não creio que seja por isso."
"Muita gente reclama de não ter o que quer e, muitas vezes, o  que desejam é sempre mais. É errado querer um pouco menos do que se tem?"
"Não há nada de errado em querer sempre mais. Nunca vi ninguém querer de menos, mas confesso que te entendo."
"Mesmo?"
"É. Algumas vezes a gente precisa perder o que temos, seja para mais ou para menos, para aprender o valor do que tínhamos."
"Eu sei. Sinto-me mal por isso. Acredite, sou grato e muito. Mas queria que minha vida fosse de outro alguém, de alguém que realmente a aproveitasse e fosse feliz com ela."
"Eu entendo, mas talvez não esteja desfrutando do que tem da maneira correta. Olhe a sua volta, veja o que tem, o que pode ter. E aprenda a olhar não só com os olhos, mas com o coração."
"Acho que por isso a vi hoje."
"Por que?"
"Acredita em amor à primeira vista?"
"Hã?"
"Olhe, eu nunca havia acreditado, não até agora."
"Eu nem sei seu nome."
"Olá, meu nome é alguém-apaixonado-pelo-seu-sorisso. E o seu?"
"Alguém-que-te-observa-a-tempos-e-gosta-do-que-vê."


I'll sing it one last time for you
Then we really have to go
You've been the only thing that's right
In all I've done
(Run - Snow Patrol)

21 de setembro de 2011

Sonhar é falta de QI

"A gente sonha tanto com o futuro, não é mesmo?"
"É, e o que isso tem de mal?"
"Tudo, você não vê?"
"Não."
"Olhe só, passamos tanto tempo idealizando um futuro ao lado de um homem bom, que nos ame e que nos faça feliz. Que tenha um trabalho digno, que, ao chegar a casa, chame por você e te abrace apertado, dando-lhe um beijo na testa. Que abrace você por trás e beije sua nuca, e depois arraste você para o quarto. Um homem que tenha como principal objetivo fazer-te feliz, que queira filhos assim como você. Que passe horas da noite discutindo com você sobre qual nome dá-los e quantos terão. Um homem que te ame todos os dias e que saiba reconquistar-te todos os dias. Sonhamos com uma casa pequena ou um apartamento pequeno. E depois com a compra de uma nova casa ou apartamento, afinal, a família cresceu. Um bom trabalho. Que, de preferência, a deixe cansada, mas feliz. Que não te deixe se arrepender por sua escolha e que te surpreenda todos os dias. Um cachorro grande e bagunceiro, mas obediente, e que só obedeça a você. Uns probleminhas aqui e outros ali, afinal, é a vida né. Se não houvesse problemas, não seria vida. Mas aí você conhece um cara. E ele não é nada do que você esperava. E então você se casa com ele, tem dois ou três filhos, um cachorro pequeno, chato e que só obedece a ele. Uma casa boa, mas diferente do que você sonhou. Um trabalho razoável, mas que te deixava tão cansada a ponto de não sobrar espaço para a satisfação. E por aí vai. Você passou tanto tempo sonhando, idealizando e desejando um futuro, não brilhante, mas feliz. Com pessoas que você futuramente amaria, do seu jeito, do seu gosto, para depois acontecer tudo ao contrário, as avessas? Agora, diga-me, tem ou não alguma coisa de errado em sonhar?"
"Sonhar faz bem ao coração, garota."
"Sonhar vai contra a noção, isso sim."

"Dizem que é impossível encontrar o amor
 sem perder a razão."
(Chorão)

12 de setembro de 2011

É meu novo jeito de dizer "não vá"

Certa noite, assim que a lua começou a iluminar meu quarto e as estrelas, o céu escuro, pensei em como tudo poderia ter sido. Pensei em como seriam minhas noites. Se a magia nela presente hoje continuaria, seria substituída por outra ou se apenas iria embora. É, assim, de qualquer jeito, com uma bolsa pendurada nos ombros e um adeus pelas costas. Do mesmo modo como você teria feito na minha humilde imaginação. Aliás, pensei em como seria a noite do dia em que você, supostamente, me deixaria. As xícaras de chocolate quente que teríamos feito continuaria sobre a mesinha de centro, deixando o vidro embaçado. O cobertor sobre o sofá seria como se você voltasse logo. Como se você fosse voltar. A televisão ligada no jogo do seu time, agora, teria apenas aqueles chuviscos de uma televisão sem sinal. Assim como você. Seu sapato, que você deixara aos pés do sofá, agora deveria estar em algum lugar dentro da sua bolsa mal arrumada. Falando nisso, você teria esquecido seus cinco tipos de condicionador para o cabelo. Talvez eu os usasse, caso você não voltasse para pegar - que com certeza não voltaria -, só para saber se as quase duras horas gastas no banheiro serveria de alguma coisa. Se caso você voltasse, brigaria por tê-los usado. E eu por ter usado meu coração frágil. Mas você não voltaria, eu saberia disso e teria certeza antes de usá-los. Acho que ganharia. Na escada, peças de roupas minhas iam subindo os degraus. O som do nosso riso misturado ecoava dentro de algum lugar na minha cabeça, e doía dentro de algum lugar no coração. Pobre coração, quando o teu estava comigo era tão menos doloroso. Tuas mãos imaginárias puxariam-me para o quarto que, para mim, ainda era nosso. A cama desarrumada, travesseiros ao chão e o lençol cobrindo o teu corpo sobre a cama, que estaria cobrindo o meu debaixo de ti. O som da última música que cantara estava preso em meio ao lençol amassado. O sacudi e lá estavam as doces palavras saídas da sua boca para o meu ouvido, bem de pertinho, tão perto que eu mal poderia escutar. Nossas mãos entrelaçadas sobre as nossas cabeças era a imagem que não largava meu pensamento. Nossos corpos misturados transpiravam, sua boca beijava minha testa. Meu rosto, pescoço, meu corpo. Nossos gemidos sussurrados, apagados com as lágrimas insistentes que caiam dos meus olhos, que de acordo com você, eram cor de mel. Tudo, ao seu ponto de vista, era doce, fácil. Era tudo questão de saber interpretar tudo a nossa volta. E você interpretava nós dois tão bem que me fez acreditar que seria para sempre. E houve as promessas, que ficaram jogadas e escondidas debaixo da cama, depois que o colchão absorveu junto com o nosso suor, com as minhas lágrimas. Se era tudo questão de interpretação, deveria eu interpretar seu adeus jogado pelas costas, que teria doído mais que aquela bola no meu estomago quando jogamos futebol? Aliás, deveria eu saber o porque você teria ido? Deveria eu saber se voltaria? Ou se não mais notícia daria? O relógio marcava alguma coisa depois das três da manhã e você continuava a dormir o meu lado. Seu braço me abraçava como se eu pudesse ou quisesse fugir para longe de você. Como se eu conseguisse. Minha risada misturada com choro e uma dor imensa de te perder o acordara. Seus olhos estavam desesperados por um motivo e percorriam todo o quarto em busca de alguma coisa que poderia ter me feito ficar naquele estado. Sorri o sorriso mais bobo e torto e beijei tua testa.
- Eu amo você.
- Eu não vou embora.
- Eu sei, eu sei.

E tanto faz.. de tudo o que ficou,
Guardo um retrato teu,
e a saudade mais bonita.
(Mil Pedaços - Legião Urbana)

30 de agosto de 2011

ROMA, só que ao contrário

Sometimes it lasts in love
But sometimes it hurts instead
(Someone Like You - Adele)

Estranho, e eu já deveria ter dito isso há tempos, eu, que tanto disse, por mais que não saísse de qualquer realidade, amar-te por tanto tempo, cujo ainda não teria chegado. E que - e nós mal sabíamos disso - nunca chegaria. Às vezes, ou melhor dizendo, centenas de vezes idealizei um amanhã próximo. Próximo tanto quanto eu era de você. Do que eu era para você. Quase nada. Triste, posso dizer também - e digo com lágrimas nos olhos e com o coração nas mãos, aquelas com que você costumava brincar -, o quão nada nós fomos juntos. Agradecer-te-ia se mais feliz fizeste de mim que solitária. Um tanto solitária. E não importava se estava ao meu lado, beijando-me a testa - cuja você nunca ousou encostar os lábios - ou se estava aí, como sempre esteve. Mesmo que quebrássemos a lei da física que diz que dois corpos não ocupam o mesmo lugar, eu continuaria solitária. E penso, logo que deito a noite, naquela cama em que costumavamos passar horas e horas do nosso dia, o quão sozinha eu era. E penso, assim que acordo, livrei-me da solidão. E, diga-se de passagem, livrei-me de algo além da solidão. Dizem por aí que o amor vem devagarinho, empurrando tristezas e tomando o lugar da mágoa. Que ele chega de mansinho, te cerca de um lado, do outro, e quando você vê, é o prisioneiro mais querido dele. E então você se vê em uma daquelas prisões que permanecem com as grades abertas o tempo inteiro e, mesmo com tudo para fugir, você não foge. Você fica. Você permanece e vive esse sentimento como se não houvesse outro, como se fosse a primeira e última vez. Muitas vezes é a primeira, outras é a última, mas é sempre da mesma forma. É sempre amor, por mais diferente que ele seja, inúmeras itensidades, jeitos e cores, é sempre igual. Talvez tenha sido amor. Os lençóis amassados jogados ao chão, a caixa de pizza pela metade no sofá e uns recadinhos na mesa de centro devem ter significado algo. Tanto para mim como para você. Semanas atrás, diria que mais para mim. Acho que hoje, para ninguém mais. Sei lá se foi amor, afinal, chegou tão de súbito, tão desesperadamente-de-súbito. E foi assim, mais desesperadamente ainda. Estranho, retorno a dizer - agora com um certo sorriso nos lábios e com a cama arrumada -, o quão o amor é. Ele vem, vai, fica e certas vezes finge que vem, mas na verdade nunca nem ao menos existiu. Forte, fraco, pouco, muito ou nada. Tudo. Beijos, abraços, telefones desligados ou ocupados, cama desarrumada, pizza jogada, roupas pela casa, preocupações e até um certo sentimento - cujo ainda não descobri o nome e devo comunicar que não irei procurar por -, mas não amor.  Foi tanto, nada, quase tudo. Foi. Conjugação do verbo ir, no passado. Se antes já não era amor, juro que não sei o que é agora. Talvez uma nova conjugação de um verbo ainda não descoberto. Um verbo diferente, com tudo que se tem direito, mas diferente de amar.

21 de agosto de 2011

found my way

Eu quero encontrar um caminho, que seja meu. Que torne-se o meu para sempre, que refaça minha vida um tanto de pernas para o ar. Que me mostre novas escolhas e pessoas, e até sentimentos. Mas que esconda de mim o mais bonito. Que mantenha-me distante de todo e qualquer afeto a toda e qualquer pessoa. Ponha-me dentro de um relógio, daqueles em que um dos carneirinhos se escondeu para o lobo não achá-lo, para que o amor não me encontre também. E que dê certo, para que eu possa sobreviver e poder, um dia, contar como foi esconder-me do mais temido sentimento de todos. Que meu novo caminho mostre-me novos afluentes. E que meus novos afluentes levem-me a um rio imenso, daqueles que você não consegue enxergar o fim, daqueles em que seus olhos se perdem e seus lábios sorriem sem querer. Que meu novo caminho não me desaponte, me decepcione ou me faça sofrer. Que me faça sorrir sem motivos e rir dos mais bobos. Que meu caminho me mostre que não preciso de um motivo para levantar toda manhã, mas que me faça ver que o motivo sou eu. Que meu caminho me arranque segredos, risadas e roupas. Que me mostre novos gostos, manias e lugares. Que faça-me sentir que é realmente meu e que para sempre será. Um caminho que abra novas portas, ou até mesmo velhas, não me importo muito. Mas que abra. Que me surpreenda, que leve-me a jardins lindos e que ponha uma flor atrás da minha orelha. Um caminho que, quando eu me esconder do amor, puxe-me para perto, encoste minha cabeça em seu peito, prometa-me e realmente fique ao meu lado para sempre. Que meu caminho sorria para mim com amor nos olhos ao invés de brilho. Que abrace-me apertado para me proteger, ou só me arraste para debaixo das cobertas mesmo. Que meu caminho esteja comigo, mesmo longe. Que me arraste para todo e qualquer lugar, que cubra toda noite e diga bem no meu ouvido que tudo vai ficar bem. Que o sol vai nascer de manhã, por mais nublado que o dia tenha sido. Que eu não tenha que procurá-lo, que ele permaneça comigo o tempo todo e que não deixe me perder pela vida. Que quando houver alguma pedra, distraia-me para outro lado para que eu não tropece. E caso eu tropeçar, que torne-se macio para não me machucar. Que meu caminho continue me amando e que continue sendo você, como sempre foi. 

27 de julho de 2011

IF I('m) FALL(ing) IN LOVE

(Apaixonar-)me-ei (se) na minha porta bateres e com rosas vermelhas sorrires para mim. Não, não só pelas rosas. Pelo cheiro das rosas, pela cor, tom, sabor e som que elas tem. Pelo teu sorriso. É, aquele que você sorri quando cora, quando abaixa a cabeça e estica os braços para mim. Abraça-me forte, anjo, bem forte, não se perca de mim. Não vá, e se for, volte. Não me importo com a hora, nem tampouco com o dia. Se não demorar, esperarei pela eternidade. E se você não voltar? E se voltar e depois for?  O plano é pedir ao padre que troque o "até que a morte nos separe" pelo "por toda a eternidade", não é? E se não for por toda essa eternidade que nós tanto queremos? E se esse dia não chegar? E se por você eu me apaixonar? E se você não se apaixonar por mim? Talvez você esteja. Talvez eu esteja. Dá medo, não é? Apaixonar-se. E se não for para sempre? E se o para sempre durar dois meses ou cinco anos? E se não durar um dia? "Vai ter valido a pena.". É o que você falaria, eu sei. Clichê? Não, acho que o clichê anda tão sumido, sabe, tão perdido. Você resgatara o clichê para minha vida. Até que gosto, sabe, um pouco de clichê não faz mal. Só, por favor, não seja clichê quando chegar a manhã, não vá embora. Fique. Talvez possamos ser clichês juntos. E dizer coisas clichês um ao outro. Eu gosto de rosas, é, das vermelhas. Como aquelas que fizeram eu me apaixonar. Quem diria, apaixonar-me. Eu havia prometido a mim não me apaixonar por você. Não me apaixonar de novo. De-novo. Desamor. Não seja meu desamor, ando tão exausta de desamores. Seja meu amor. Meu para sempre, meu de-verdade, meu menino, meu anjo e melhor amigo. Seja o que eu preciso ter, sentir e tocar. Seja o que eu quero ter, sem deixar de ser você. Você consegue, não é, menininho? Não consegue? Eu sei que consegue. Você precisa conseguir. Eu te ajudo, prometo. Eu te ensino a ser quem eu preciso e você me ensina a ser quem você precisa. E aí a gente se completa, não é? E ficamos felizes? Quer ser feliz comigo? Acho que eu posso deixar algumas frescuras minhas de lado. Posso aprender a gostar um pouquinho do seu time, dos seus jogos de video game e alguns gostos estranhos que você tem para comida. Só não me deixe ter medo de me apaixonar por você. De me apaixonar outra vez. Sabe, na verdade mesmo, acho que o medo todo não é nem de me apaixonar, é mais de que você se torne um desamor como os outros. Sabe, desilusões e tudo mais? Nós podemos ser tudo o que quisermos, só não deixe que nos tornemos passado. Que sejamos presente, futuro. Como dizia o bom e velho Caio que a gente tanto ama, "Que sejamos doce. E seremos, eu sei.".


25 de julho de 2011

Carta ao passado.

Algum lugar no esquecimento, tanto de tanto de mil novecentos e tanto.

Nome do destina(o)tário,

Dizer-lhe-ei o motivo no qual envio esta adorável carta no fim desta. Devo-lhe dizer que amor para mim é tão relativo quanto gosto. Você gosta de futebol, eu gosto de computador. Você gosta dela; eu, bom, não é de você que eu gosto. Não posso dizer-lhe que não te amei. Amei, e como amei. Amei. Ei. É, você mesmo, cresça um pouco, seus quinze anos mais três não lhe fazem um homem. Você precisa mesmo aprender o que é ser homem, poderia te ensinar, acho que sou mais homem que você. É, tenho certeza.
Talvez você esteja se perguntando o porquê desta carta, já lhe disse, no fim. No fim. Argh, fim. Acho que o fim não deveria existir, não é mesmo? É, acho que você concorda comigo. Tudo deveria começar, só. Para que o fim, meu Deus? Para novas pessoas, novos acontecimentos? E por que não acontece tudo d'uma vez. Amores desamores desespero tristezas filhos casamentos namoros namorados adas mãos dadas. O fim deveria ser só a morte, sei lá, sabe. Mas talvez eu entenda Deus. É preciso algo terminar para que outro comece. Mas seria tão melhor se algo começasse enquanto o outro ainda nem terminou? Nossa, isso pouparia quase os sete bilhões de corações existentes no mundo.
As pessoas sofrem tanto com o término de algo e até que outro algo aconteça, dói tanto. Você sabe, né, Deus, como dói. Tantas noites conversei com o Senhor antes de dormir. "Tire esse menino da minha cabeça, Deus," - é, você mesmo - "eu não aguento mais.". Mas Ele nunca tirou. Quem tirou foi você mesmo. Você se deixou escapar de mim. Eu, com minhas mãos pequenas, fui incapaz de segurar-te em mim. Lástima, talvez seja esse o nome. Pensei tanto em como seria. Cheguei até a acreditar que daria mesmo certo. Talvez tenha dado, por uns cinco ou seis meses. Depois a gente se perdeu. A gente. Olha só como me refiro a você e eu agora. Sem nós. O nós se desatou por esses meses que passaram. Deixamos desatar.
Deve ser estranho olhar tanta coisa que antes me lembravam você e não sentir nada. Deve não, é. É esquisito ouvir uma música e lembrar que era a nossa música, mas só. Ao chegar a casa, não há mais você para dizer da música tocando no rádio. Não há nem mais música. Perdeu-se tudo. E culpo você, mas não só você. Culpo a mim por ter aceitado essa insanidade toda. In-sa-ni-da-de. Não há outra palavra para melhor descrever o que fomos. O que passamos. Eu sabia no que daria, mas deixei-me levar por seu jeito bobo. Bobo só no começo. Tornou-se tão igual, menininho, tão diferente do que era. Não sabia se sempre fora assim, se havia se tornado assim ou se te via assim, sei lá porquê. Ou talvez, naqueles cinco ou seis meses, eu tenha te visto como eu queria ver.
Olha só, chegou a hora. Espero que esteja tudo bem aí. Sua família e você. Acho que poderia desejar-te felicidades. É, desejo felicidades a você. Não vá me ligar dizendo que não as aceita, por favor, já disse, cresça. Gosto tanto de você, menino. Você me ensinou tanto. E aprendi, diga-se de passagem, muito. E vou levar para sempre comigo, acredite. Torça, vou torcer também, para que encontre alguma mulher mais insana que eu e que te aguente e ame tanto quanto amei. Ei. É, você de novo, cuide-se, tudo bem? Cuide-se. Acho que não é preciso motivos, nem nada desse tipo. Só seja feliz, eu serei também.

D.C

P.s: Caso encontre-me na ruas, cumprimente-me, sorria e vá embora.

P.s²: Não tenha ódio de mim, o oposto do amor é a indiferença. Ódio é para os fracos.

P.s³: Foi um prazer dividir parte da minha vida com você. Adeus.

P.s do p.s³: Graças a Deus.

11 de julho de 2011

Somewhere between nothing and hundred.

Cem mil palavras não poderiam explicar ao certo o que sentimos. Sentimos, não de estarmos sentindo, mas de termos sentido um dia qualquer. Alguns dias quaisquer. Acho que até por tempo demais. Nós deixamos de dizer algumas coisas, coisas que hoje já não podem serem ditas, simplesmente porque ficaria fora de contexto. Você aí e eu aqui, se dissermos sentir saudades ou amor, não sei, acho que não é isso que precisa ser dito. Cantávamos para sorrir e eu para você dormir. Respirávamos tão lentamente, era quase impossível de se ouvir. Eu quase sempre conseguia e quase sempre sorria ao escutar. Sei lá se era por saber que você estava ali ou por saber que estava vivo ou talvez só por estar respirando mesmo e não se importar com que eu escutasse sua respiração quase sempre ofegante. Era de sua natureza mesmo, respirar pesado, talvez por causa da sinusite. Preferia acreditar que sorria por saber que você era meu, pois se não fosse, não respiraria comigo ao telefone. Prefiro acreditar em tanta coisa que não acontecia pelos motivos que eu pensava acontecer, só para não machucar-me mais. A um tempo atrás, tudo parecia significar ou terminar em "eu amo", seja você, eu ou qualquer coisa. O amor estava quase sempre presente em nós. Nós nos perdemos em meio ao nada e cem. Era como se eu fosse o nada e você o cem, ou vice-versa - não é o valor que cada um tem que está em questão, mas nós nos perdemos em meio a mesma coisa e permanecemos distantes. Nós passamos a respirar mais depressa, com pressa, com tanta rapidez de respirar e falar e fazer e resolver tudo de vez, que acabamos esquecendo do verdadeiro motivo de tudo aquilo. Eu gostaria de continuar e dizer os motivos que nos levaram a prosseguir, mas acabei esquecendo quando tentei salvar algo que já havia se perdido, dessa vez entre o nada e o qualquer coisa. 

24 de junho de 2011

You're every song I still sing, you're everything.

E tudo começou com dois sons: um da chuva caindo do lado de fora da janela, tão lentamente que não seria tão difícil contar as gotas; o outro do tic tac do relógio na parede da sala, logo depois das escadas. E então ela se lembrou da noite anterior, que agora era tão viva em sua cabeça que jurava ter acabado de acontecer. Cada detalhe, cada palavra, gosto, cheiro ou cor, tudo vinha a tona, tal como aqueles fogos de virada de ano, que a gente sempre se assusta, mesmo que nós mesmos o tenhamos lançado. De repente, não mais que isso, seus olhos encheram-se de lágrimas que, infeliz e tragicamente, a fizeram lembrar de que a noite anterior não fora nada que poderia deixá-la com o mínimo de felicidade possível. Talvez pudesse, no entanto, para ela, alguns copos espalhados pela casa, a tampa do vaso sanitário levantada ou o quarto desarrumado não era incomodo algum, não se ele estivesse ali para fazê-lo. Mas quando o viu com os olhos tristes, um sorriso de desculpas nos lábios e um adeus na mão, soube que não teria mais tantas coisas para reclamar. E desejou, meu Deus, como desejou, que nunca tivesse reclamado. Sentiria falta da casa pelo avesso, das brigas, das noites de farra ou das noites que dormiram abraçados. E até das que dormiram separados. Sentiria falta de tanto, de muito, de tudo. Agarrou o travesseiro e afundou a face, acho que para esconder dela mesma as lágrimas insistentes que caiam e caiam sem parar, e assim esconder, talvez, a dor de um fim que doeria, dói. Uma dor constante e infinita que ela sabe que jamais superará. E não é preciso mais que um ou dois anos para saber se é inesquecivel. A questão não é nem ser inesquecível, a questão é ter sido especial. E fora, ela tinha certeza, fora, talvez, a coisa mais especial e importante que poderia ter acontecido. E algo especial e com tamanha importancia a gente não esquece assim, depois de algumas doses de vodka. A gente esquece, sim, mas aí quando a vodka acaba, a gente lembra e sofre. Sofre porque voltou, sofre porque nunca vai passar e sofre por ter tentado esquecer. Acho que nem as inúmeras doses de vodka que tomara depois que ele fora a fizeram esquecer de se quer um terço da dor, da sua dor. Não tentou esquecer aqueles momentos bons que tiveram e, por favor, não ache que tentara esquecer os ruins, pois os ruins foram, e ela tinha certeza disso, talvez até melhor que os bons, pois foram com eles que eles se fortaleceram. Tentou esquecer a dor do seu adeus inesperado, do seu beijo na testa e o seu "se cuida". Palavras idiotas. Não há nada mais irônico que um "se cuida" depois de... de... Depois daquilo. Como, pensara, ele poderia ter sido tão sem coração? Se ele estivesse aqui, diria que porque ela-havia-o-roubado. Claro, ele sempre com seus clichês e provocações inúteis. Engula, ela gritava, engula todas as suas provocações propositais, os seus "eu te amo", as suas flores ridiculas que eu dizia que eram as minha preferidas (e eram, as lindas rosas), os seus "se cuida", os seus "boa noite" ao pé do meu ouvido, as coisas inúteis que você dizia-me ao telefone antes de dormir. Engula, agora ela mal conseguia falar, todas as mais belas coisas que você já me dissera, as noites que dormimos juntos, as noites que nos amamos ou as que passamos brigando, os seus beijos na testa, os seus carinhos. Engula, sussurrou, todos seus pedidos de casamento, sejam eles ao telefone, ao pé do ouvido, ou em sonhos. Engula aquilo que você disse ser amor, mas que não passou de um mero gostar. Agora se pegava olhando o porta retratos em cima da mesa de cabeceira, o que a fez pensar, repensar e se questionar: o que a gente espera do amor, além de amor? Não diga que esperamos, como amor, brigas, reclamações ou essas coisas que todos costumam dizer, pois no final das contas, esperamos receber o mesmo amor que damos. 

8 de junho de 2011

(lê-se amor)

Vezemquando penso em como teria sido se eu tivesse aprendido com meus outros desamores. Não que você seja um, não me entenda mal, é só que, talvez - se eu tivesse se quer aprendido um pouco - poderia ter sido diferente. Poderia ter sido mais animado, mais compreensivo, mais unido, mais tanta coisa, ah, tanta coisa, meu anjo. Preciso confessar-lhe que teria melhorado muito e, talvez, até nos salvado dessa distância espiritual que nós insistimos em manter, mesmo que sem querer. No entanto, talvez não seja por isso, talvez seja nós dois. Preciso, novamente, confessar-lhe uma coisa: por sua causa passei a acreditar nisso de signos, sabe. Você tão teimoso e possessivo e cheio de si, tão errado e convencido. Eu tão organizada e teimosa, tão calma e nervosa, tão ciumenta e querendo ter tudo de ti. Nós tão inseparáveis, ciumentos, teimosos, possessivos, orgulhosos, carinhosos sempre (lê-se às vezes) e, o melhor de todos, altamente incapazes de permanecermos muito tempo um sem o outro. Devo-lhe dizer, menininho, você roubou de mim aquilo que mais importa em alguém e, ao mesmo tempo, aquilo que queremos dar aos outros (lê-se a quem merece) o tempo todo. Talvez, se eu tivesse aprendido com meus antigos desamores, eu não teria chegado a você, logo, jamais teria encontrado o motivo do meu sorriso. Concluo, então, que não me arrependo de ter tido o coração quebrado inúmeras vezes se o resultado for você. 

1 de junho de 2011

Enquanto você sorria.

Procurei em todos os cantos e você estava justamente no último lugar que eu procuraria. Lá estava você, com metade do corpo na grama verde e a outra no tronco da enorme macieira. Você sorria para mim como se pudesse me ver escondida em meio àquelas árvores. Talvez você estivesse mesmo vendo. Cada passo que eu dava, que eu me aproximava, seu sorriso aumentava. O seu sorriso era daqueles iluminados, tortos, bobos e encantadores. Daqueles que me fazem suspirar. Seu sorriso era seu, isso bastava. Como todos os seus defeitos que te faziam ser você. Essas coisas sempre bastaram pra mim. Nunca precisei de mais que um sorriso seu, ou um elogio ou até uma briguinha boba. Era seu? Vinha de você? Basta. Porque, preciso dizer-lhe, nunca fui suficiente pra ninguém, talvez nem pra mim. No entanto, tudo sempre foi o suficiente pra mim, exceto eu mesmo. Acontece que nunca percebi: nada nunca bastou pra mim. Eu aceitava e dizia "sim, senhor, obrigada". No fundo, eu gritava dizendo "não, dessa vez, não". Nunca nada bastou, nada nunca foi o suficiente, até você surgir. Não como algo inesperado. Você veio como a chuva, devagarinho, as nuvens foram escurecendo, um pingo ou outro foram surgindo e lá estava você. E você sempre sorrindo, com aquele seu ar de tudo-vai-se-acertar, fez eu sentir que algo era suficiente. Seus sorrisos, implicações, beijos, abraços, olhares, brigas, tudo era o suficiente pra me fazer feliz. E você sempre soube disso. Você sempre soube de tudo, antes até do que eu. Você adivinhava meus sorrisos e caras do outro lado do telefone e, muitas vezes, usava isso de propósito. Você me elogiava ou falava algo bobo só porque sabia que eu coraria e sorriria. Eu odiava e amava quando você fazia isso. Você se importava se eu me sentiria feliz ou não. Você se importava se me machucaria ou não. Você se importava, sabe, era o suficiente. Entretanto, a única coisa que era suficiente pra me fazer te amar, era que você me amava. Isso bastava, sempre bastou e vai ser sempre o suficiente. Não preciso dizer-lhe que são seus olhos ou seus sei lá quantos tipos de sorrisos. Ou o jeito como você fala, tão doce, ou até o jeito como você briga comigo. Ou como você sente ciúmes de mim ou me faz ter ciúmes de você. Não preciso dizer que são as músicas que você canta pra mim ou ou textos que você me escuta falar. Você me ama, isso é o suficiente, simplesmente porque eu nunca tive alguém aqui por mim, como eu tenho você. Você me ama e me fez amar você, isso é o bastante. Os seus sorrisos, olhares, bom, essas coisas fazem parte de você. E como o fato de você me amar está praticamente relacionado a todas essas coisas, bom, dá no mesmo. Pensei sobre tudo isso no simples segundo que eu olhei você sorrir pra mim, antes de me deitar ao seu lado e ficar ali o resto do dia. 

27 de maio de 2011

Querida lua...

Isso, ou melhor, tudo começa com uma ou qualquer coisa. As vezes um sorriso, outras um abraço. Certas vezes um riso, outras um amasso. Um beijo, um olhar. Outras com um cheiro, um sussurrar. De coisas infinitas à limitadas. De limitadas a tudo-o-que-eu-sempre-quis. Dessas coisas que eu sempre almejei, acabar tendo nada. Ou duas mãos vazias por tanto querer e nada ter, nunca. E pensar, questionar, sinto que algumas vezes nem a mim mesmo eu tenho. E penso, outra vez -  adoro pensar, imaginar, questionar, lembrar, seja lá o que for que mantenha-me longe da realidade, mais perto de você - há alguma coisa esperando-me do outro lado da porta? Um vai-ficar-tudo-bem. Ou até mesmo um está-na-hora-de-desistir. Eu desistiria, se fosse realmente pra desistir. Porém creio que não seja, não sinto como se fosse. Sinto que queres tanto quanto eu. Tanto quando nós. Eu e ele. Sei que tu gostas disso que chamam de amor. A vista deve ser linda daí de cima, não é? Imagino como seria ver tudo daí, os casais à beira do mar à meia noite; as estrelas-do-mar de manhãzinha na praia; os beijos apaixonados que eles dão, como se fosse ser pra sempre. Disse que me amava. Sim, ele. A senhora sabe, machucou-me tanto que eu não sei. Explica-me, por favor, o que está acontecendo. Quando fecho os olhos e penso em seguir em frente dói como se tivesse deixando para trás parte de mim. Vivi tanto tempo sem parte de mim, que creio que não suporte mais. A senhora sabe, tão bem quanto eu ou qualquer outro, não aguentaria conviver como se metade do meu corpo, incluindo coração e outros órgãos vitais, não estivessem comigo. Concorde comigo, não há vida sem um coração. Digo-lhe, baseando-me nisso, não viveria sem ele. Por isso e por tantas outras coisas encontro-me aqui, deitada nessa grama verdinha do meu jardim, olhando o céu como se a noite nunca fosse ter fim, como se isso nunca fosse ter fim. As estrelas artificiais do meu quarto já nem brilham mais, apaguei a luz faz tempo. Logo, vim pra cá, as de verdade brilham, não aos meus olhos, posso garantir, mas talvez nos dele. Nos meus, bom, já nem cores existem mais. Tudo tão preto e branco, nem cinza, preto e branco. Tudo tão confuso. Penso que a uns cinquenta ou sessenta anos atrás tudo seria mais fácil, sei lá, só acho. Não, não pergunte-me porquê, sinto como se tivesse sido. Talvez se minha época fosse aquela, poderia observar mais as estrelas que tanto venero. Ah, não é por causa dessa poluição toda, não, talvez até seja, só que pela poluição dos meus olhos marejados de pensamentos tão bons, menina, tão bons que chega à uma nostalgia tão grande. Dói tanto se quer pensar em momentos que tive, que vivi e revivi em minha mente e que nunca mais terei de volta. Vou adormecer aqui, menina lua, diário das minhas madrugadas, tudo naquele quarto lembra momentos tão bons que creio que não conseguirei ao menos fechar os olhos. Faça-me companhia, lua, tenho me sentido muito sozinha sem o causador da minha alegria, das minhas lágrimas e utopias. Fique aqui, lua, cuide de mim só essa noite, talvez ele volte amanhã pela manhã. Só espere comigo. Não se importa de esperar, não é mesmo? Mesmo que dure para sempre? Mesmo que esperar signifique escutar-me, todas as noites, questionar por quê ele nunca voltou? Mesmo que esse esperar seja eterno, lua? Mesmo que... 

"At night when the stars
Light up my room
I sit by myself
Talking to the moon"
(Talking to The Moon - Bruno Mars)

5 de maio de 2011

Fear of feel fear

Eu tenho vinte e um anos disto, de tentar formar palavras que descrevam o significado de um sentimento que eu insisto em ter. Que eu insisto em sentir. Tenho vinte e um anos de um amor inigualável por um alguém que me ama  tanto, que me daria o céu se eu pedisse, bem aqui, dentro da minha cabeça. Vinte e um anos de uma incerteza profunda sobre o que sinto, o que pensas e o que vivemos. Essas incertezas que nos tiram o sono, dessa insônia profunda e aterrorizante. Desses terrores sem bicho papão ou mulas sem cabeça, aqueles terrores piores, tal como o amanhã ou a incerteza de um fim. Terrores até parecidos como esses bichos que não deixam nossos filhos dormirem, mas os nossos medos, medos de adultos, medos que são reais. Medos que, uma hora ou outra, pode até ser agora mesmo, vão chegar. Vão tirar teu sono, vão te criar lágrimas e, às vezes, até um sorriso de mentirinha, daqueles que a gente sorri só pra não ter que explicar nossos medos, simplesmente porque não sabemos como fazê-lo. Penso, na maioria das vezes, se é normal sentir medo. Esses medos que há quem diga que são inúteis, que são infantis. Penso se sou frágil demais ou são eles que se acham fortes o suficiente pra dizer o que sinto. Não são de nada, essas pessoas. Tenho medo, muitas vezes, de sentir medo. E, outrora, medo de sentir medo do medo. Tudo por causa daqueles que riem somente porque sinto. Mas eles nada sentem, não é mesmo? Tenho medo de tanta coisa, meu anjo, que as vezes me certifico que estou acordada ou em um pesadelo. Daqueles que você corre o tempo inteiro, grita e pede ajuda, e nada vem. Seus pés não se movem, seus gritos não passam do pensamento e sua ajuda nunca chega. Um dia tive medo da noite, faz tempo, eu mal sabia que um dia a noite seria minha unica companheira. Tenho vinte e um anos e tenho medo, não nego. Medo de perder meu pai, de ficar só, mais até do que já sou. Tenho medo do amanhã, pode ser aquele daqui a alguns anos ou aquele amanhã que chega com o sol. Algumas vezes, só algumas, tenho medo de altura, mas um dia ainda observo Londres do lugar mais alto de lá. Sim, lá mesmo, na imensa roda gigante. Já tive medo de amar tanto Londres, mas ela é tão parecida comigo. Aquele céu quietinho, cinza. Aquelas árvores às vezes despidas. Aquele ar de melancolia que todo mundo precisa ao menos uma vez na vida, mas que eu preciso quase sempre. Tenho medo de levantar da cama toda manhã e não saber o que vai acontecer até eu me deitar. Tenho medo de cantar bem alto e não ser alto o suficiente para que eu me sinta melhor. Sentir isso - o medo - é meio engraçado, muitas vezes é ruim, a maioria delas, porém muitas vezes, o medo é a unica coisa que nos mantém vivos. Hoje é meu aniversário. Tenho vinte e dois anos e uma unica certeza: tenho medo de um dia não sentir mais medo. 

25 de abril de 2011

Se eu tivesse olhos atras da cabeça,

eu diria o quanto você é bonito enquanto ia embora. 

- Veja, deixe-me dizer algumas das porções de coisas que eu tenho pra lhe falar, antes que o trem parta. Dessas coisas tão difíceis de serem ditas, que não são ditas assim, costumeiramente. Simplesmente porque são coisas do tipo que nunca se sabe como serão interpretadas, sabe? Dessas coisas que secam a garganta, que soam as mãos e tremem as pernas. Dessas coisas infinitas, bonitas. Tudo começou de repente, anjo, de uma forma tão estranha. Evitei tanto que achei ate errado de minha parte. E depois quis, ainda mais que você - e não adianta me interromper com esses teus dedinhos pequenos - viver essa historia. E assim foram se passando os dias, com sentimentos pra la e pra cá, daqueles que custam a passar. Daqueles sentimentos de verdade, puros, que nos fazem sorrir com o vento. Daqueles que nos intimidam, que nos arrepiam e nos fazem chorar. Falta pouco tempo, e se eu não lhe disser agora, não sei quando vou. Ou se vou. Tanto eu como você sentiremos falta de tudo aquilo que compartilhamos. Dos sorrisos, das palavras, das brigas, lágrimas. Dos momentos em si que vivemos um com o outro. Juntos, amarrados, colados, inseparáveis nos. Porque momentos como estes não serão extintos assim, a qualquer hora, de nossos corações. Simplesmente porque momentos assim não se deixam perder. Não se deixam esquecer. Lembra daquelas semanas que ficamos tão distantes, mais ate do que de costume, e que você voltou correndo pra mim, desesperado por um colo? Eu sei, eu sei, já esta na sua hora. Mas veja, ainda tenho três minutos. Eu queria dizer-lhe tantas coisas, de tantos dias, tantas noites, tantas e quase todas as manhas que passamos lado a lado. Corpo a corpo. Íris nas íris. Eu queria entender porque deixaste tudo pra traz. Entendo que e o seu sonho, nunca quis que desistisse deles. Quis apenas realiza-los com você. Não, não quero lembranças quando voltar - ira voltar? Volte, ainda que tarde, volte. E pare de olhar esse relógio já! Eu queria dizer muitas coisas, muitas mesmo, você deve imaginar a quantidade de coisas que queria dizer, mas meu corpo não deixa. No entanto, digo-lhe o essencial. O primordial. Não esqueças daqueles tempos a dois que vivemos intensamente. Daqueles lençóis amarrotados, travesseiros ao chão e dois corpos sobre a cama. Jogados de uma maneira desconfortavelmente confortável. Não esqueças das nossas promessas. Quem jura, mente! Nunca esquecerei-me disto, prometo. Então, a partir disso, prometo, não juro, prometo, nunca deixarei que outra habite nosso quarto, senão você. E teus armários permanecerão assim, vazios, do mesmo modo como deixara. Ainda falta um minuto, não me apresse, por favor. Mas olhe, seria bom se você colocasse um casaco, e frio no meio do nada. E frio sem meu corpo no teu. Tudo bem, desculpe-me, vou me comportar. Eu queria poder dizer-lhe que tudo ficaria bem. Quero dizer, tudo ficara. Apenas sentirei saudades. Saudades daqueles tempos só nosso, vividos a dois de uma tal forma encantadora. Tudo bem, pode subir, vou terminando de falar pela janela mesmo. Sentou? Ótimo lugar e, ah, essa criança deve dormir durante o caminho, não se preocupe. Ouça, o trem já esta partindo, e eu ainda não disse nem metade do que pretendia. Mas olhe, bom, escute bem, ok? Preste atenção. Não se perca de mim. Tudo bem, eu lhe escrevo. Não, não escrevo, não. Vai machucar mais meu coração. Ei, ei, espere! Eu amo você. Eu-amo-você. Eu-amo. Eu.

14 de abril de 2011

No-happy ending.

                   Tenho estado muito ocupada juntando pedaços de mim que caíram sob terra quando declarastes o fim. Daqueles fins assim, tão doces que fazia-me querer um não tão doce. Amargo, talvez fosse a palavra certa. Daqueles que choras por doer no coração, mas que depois de umas quatro ou cinco doses de vodka passa. Porque tudo passa. Mas esse doce-final-triste corrói por dentro, e depois de meses continua nos despedaçando lentamente. Prefiro viver com palavras cortantes na cabeça, a viver com doces frases sobre um adeus que não queria ter dado.
                   E aquele sorriso fraco, de lado, mas que ainda faziam meus olhos brilharem. Daqueles brilhos que iluminam a alma, sabe? Aquela alma que nem mais alma é, só tem corpo, espírito - o que é? Daqueles fins de amigos, não-quero-machucar-te-mais. Daqueles fins assim, que nos fazem querer dormir e acordar quando tudo tiver mesmo um fim. Daqueles fins definitivos, que doem, que mostram pra alma que acabou, que é preciso continuar vivendo. Aqueles fins de verdade, com adeus e lágrimas, ou um "a gente se vê por ai", mesmo sabendo que nunca nos veremos outra vez. 
                   Precisamos mais destes fins. Fins doces não são fins. Fim é uma coisa pra doer, pra marcar na alma e pra passar depois de algumas noites afogada em lágrimas e copos de vodka, e engasgada com comprimidos pra dormir. Esses fins doem constantemente, e não há vodka que o faca passar. Esses fins de namorados doces, bem assim como você, esses doem tanto, anjo. Dói por não saber o que fazer, como agir ou o que falar. Dói quando o encontro na rua, dois sorrisos e um aceno. Que tipo de fim é o nosso? Daqueles fins que doem pra sempre. Um pra sempre tão longo que, puxa, parece que não vai haver fim. E talvez dessa vez não haja mesmo. 
                   Eu sentia profunda falta dos fins que machucaram e passaram, assim, num bater de asas de um beija-flor. Porque, afinal, doeram, porém passaram. Esse fim que fica, que demora, assim como a terra demora pra girar em torno de si mesma. Trezentos e sei la quantos dias e uns quebradinhos de horas. Só que multiplicado por mil. Faz a conta ai, é tanto tempo que eu poderia salvar o mundo desse caos todo. Mas nem a maior ocupação do mundo faria deixar de doer essa constante lembrança do adeus que você deu. 
                   Já tentei por vezes esquecer, mas quanto mais eu tento, fica tão mais nítido. Aquele fim assim, tão de súbito como foi, como aqueles fins de verão, que você nunca quer que acabe. Ou como eu prefiro, os fins de inverno. Daqueles invernos gélidos e cinzas, tais como Londres. Ah, Londres, traga-me um pouco dessa sua melancolia, desse seu ar feliz-barra-melancólico, desse seu céu cor de adeus. Das suas árvores cor de esperança e seus fins de tarde cor de saudade. 
                   Ah, Londres, quisera eu ter tudo isso. Um dia chuvoso, cinza, uma pitada de esperanças e fins de tardes. Uma mistura de cores que até me faria sorrir. Na verdade, acho que o fim é meio isso, uma mistura de cores confusas que doem, não importa se for doce ou amargo, sempre dói. Aqueles fins que são pra sempre, todos eles. 

28 de março de 2011

Isolar-se-á

Isolar-se-á já que nada mais sentido faz. Já que nada mais gosto tem. Ou cheiro, ou toque. Ou qualquer outra coisa que o faça sentir a dor daqueles tempos. Daqueles tempos de breu infinito dentro de si e fora o sol radiante como se sorrisse com tudo. Com a dor e a incerteza. Com a sua dor e sua incerteza de que - quem sabe um dia, em outra época - ficaria bem. Se ficaria bem. Bem é um tanto relativo. O que pra ele é bem, pra ela é normal. O que pra ela é bem, nele machuca. Machuca como espinhos em todo o corpo, como alguém algo cinco vezes maior que seu peso. Machuca, ele dizia, como se tentasse mostrar para si mesmo que machucava, já que já não sentia mais nada.
Isolar-se-á de tudo o que o cerca e que o detona. A cada sorriso, a cada "bom dia", a cada "oi" se quer que ganhe o detona aos pouquinhos. Como se a cada dia que amanhecesse, arrancassem de si um pedaço - com o pedaço mais importante arrancado com tamanha brutalidade e rapidez que o fez não mais sentir qualquer outra coisa. Não espera que ninguém entenda, ninguém nunca o compreendeu como a solidão. Eram todos humanos. Meros humanos com medo de tanta coisa que o fazia sentir o mais humano dos humanos, simplesmente por ter medo das coisas mais banais.
Isolar-se-á dessas coisas que o deixam amedrontado. Banais, repetiu, todas banalidades. Para eles, para si era tanto. Tao grande, tão enorme, tão. E pensava, adiantaria? De algum modo, talvez, tornaria-se algo tão longe da realidade, algo tão complexo - mais ainda - e tão primitivo. Feito aqueles gorilas. Tao antigo, tão sozinho. Deus, chamou. Sim, Deus. E por que não? Queria uma solução, dessas que você sabe o que vai fazer ate daqui a alguns anos. Como vai ser, Deus, vou conseguir? E Deus permaneceu em seu silencio constante. Esse silencio o fazia sorrir. Mas não dessa vez. Já nem sabia o que era sorrir - algum dia soube?
Isolar-se-á de um mundo que o deixa tonto. Aquelas tonteiras que você pensa estar caindo de um abismo. Daqueles abismos infinitos que ate o deixa leve, daquele jeito que não faz querer nada alem que isso. Cair. Mais que já estava era impossível. Sentia-se estirado no limbo. Agora sabia como era isso de resto. Porque era isso que havia sendo sempre: resto. Só não sabia o nome, nem o gosto, nem o cheiro. Nem nada. Sabia que era, só não sabia como. Ou sabia. Aquele fim dos tempos, fim dos sentimentos, sejam eles quais forem.
Isolar-se-á de quem o fez pensar assim. Errou, sabia disso, errou muito. Não sabia nem se merecia perdão. Mas havia um sentimento nele tão puro e verdadeiro. Tão nobre. Sentimento que fazia seus erros morrerem. Havia algo nele que era real. Não que ele não fosse, mas era real, sabe? Ninguém nunca o enxergou como ela, nunca viu seus olhos brilhando como ela havia visto. Ninguém nunca sentiu uma ausência de som dele como ela sentia. Ninguém. Nunca. Ela. Ele. Ninguém nunca sentiu esse sentimento por ela como ele. No entanto, encontrava isolado nesse isolamento constante que era sua mente. De nada adiantou o medo de perder, a luta por querer, o querer por amar. De nada adiantou amar, se não quis sentir o amor.

26 de março de 2011

E se fosse um sonho?

No entanto, era assim que se via. Com as mãos no bolso do casaco negro, escorada na porta, como se fosse cair a qualquer momento. Observando aquele céu cinza triste que tanto a encantava. Nem um pontinho azul. Ela gostava. E precisava viver assim, mesmo gostando desse céu triste, precisava se conformar a observa-lo todos os dias. Porque mesmo o idolatrando, um céu azul fazia falta. E agora faria ainda mais. Precisava conviver com o risco de. Não de nunca mais haver um céu azul, porque ela sabia que um diria ele viria. Mas com o de seus olhos nunca mais o enxergarem - e queria? Refiria-se a ele como você-sabe-quem, com receio de seus olhos inundarem. Refiria-se a tudo-dessa-forma-estranha-de-escrever. Não sabia por que, apenas o fazia. Como se para mentir pra si mesmo, ou sei la. E a cada manha ampliava-se na boca aquele gosto de nostalgia - ou seria de vodka? Acendeu um cigarro, desses que você fuma o dobro pra evitar qualquer tipo de lembrança, ou qualquer tipo de dialogo que pudesse começar a formar, e criar esperanças, e lágrimas, e saudade, e tanta coisa. Ocupou a boca como se ocupasse a mente e o coração. Como se fosse mesmo possível. Mas acreditava que fosse, precisava acreditar. É fácil viver com os olhos fechados, quando não se tem muita coisa a perder no mundo real. E mesmo que tivesse, ainda seria fácil. Porque, afinal, pra que esse mundo real-estranho-real se não pode entende-lo? Real é uma coisa tão chata. Tão de verdade que chega a doer. E dói mesmo. Por isso torna-se tão fácil fechar os olhos. Veja: nenhuma dor, nenhuma doença crônica ou um simples coração quebrado mesmo. Nos impedem tanto de fechar os olhos que começo a achar crime, ou qualquer outra coisa muito proibida. Nunca fui de seguir regras mesmo, mas ninguém vai me dizer o que fazer ou se posso ou não fechar meus olhos e tentar esquecer pessoas fúteis como estas. Estava ali e era assim que se via: sem ter muito o que pensar. Ou o que dizer ou fazer. Mas pensava when? Porque uma coisa dessas não acontece assim, num tintilar de sinos. E não sabia a resposta. Por que as respostas nunca vinham embutidas nas perguntas? Viu. Seria tão mais fácil e evitaria tantas duvidas de pessoas como ela. Como eu. Seria também menos doloroso esperar por uma. Porque, esperando por uma, viria com a espera o 'e se'. E esse dói mais do que a verdade propriamente dita. Essas que doem muito, que machuca a alma, mas que um dia a gente se acostuma. Mas esse não, esse dói. Dor constante, e mesmo depois da verdade, ele permanece. Por que e se fosse diferente? Esta ficando cada vez mais difícil ser alguém que viva tão acompanhado disso. E se. E se eu não tivesse cedido a aquele pedido? E se eu fosse menos criança naquela época? E se eu não tivesse mais coração ao escutar aquela voz? Por que diabos não tenho respostas para tantos 'e se's? Mas e se eu tivesse? - talvez continuasse a mesma coisa. O mesmo querer de sempre. Perguntou ao doutor o que era aquilo. Mas respondeu por si mesmo. "Câncer, mas daqueles que dão na alma, sabe? Não? Mas é porque esse tipo não tem jeito mesmo. Não, doutor, não vou morrer, não. Coisa pior. A alma, sabe? Ela vai entristecendo aos poucos, se desfazendo. Até uma hora sobrar apenas isso aqui.". E apertou-se com tanta forca, como se fosse pra provar a si mesmo que ainda estava ali. "Viu? Só isso, doutor. Mas lhe pergunto, pra que isso? Não quero isso. Quero não.
Pega pra você, doutor, tem gente que precisa."

21 de fevereiro de 2011

vamos dançar sobre a lua

e sermos quem quisermos.
Olhando a lua, sorri. E desorri. Engraçado, pensei, porém não ri, como pode ser tão injusto isso de estar sob a mesma lua e todo o seu brilho e não estar junto a você. Mesmo não ocupando um mesmo espaço, já que, de acordo com isso que vocês chamam de física, é impossível. Como nunca gostei muito dessas coisas, discordo. Ser um só, entre duas pessoas, quase é necessário. Quando dois não se tornam um, pra mim, não é amor. Amor não é quando desistimos de tudo por alguém, mas quando damos o nosso melhor por ela. Amor não é quando damos presentes enormes e caros, mas quando damos nosso coração. Não é quando fazemos uma linda declaração, mas sim, quando dizemos "só liguei por que estava com saudades.". Amor não esta nas coisas grandes, naquelas que todos acreditam que estejam, esta nas coisas pequenas. Amor esta no bom dia ou no boa noite, no beijo na testa que você da e recebe. Amor esta em uma carta ou em apenas um bilhete. Amor esta em uma musica ou em um filme. Amor esta em todas as coisas simples. Por que o amor é isso, ele é simples dentro de toda sua maravilhosidade. Pra mim, amor é quando você me acorda no meio da madrugada. É quando você me chama de idiota e quando você briga comigo. Pra mim amor é quando você fica irritado por eu ter bebido algumas doses de vodka, ou quando você sente ciumes. Amor, pra mim, é quando você ri do que eu falo, quando nos rimos juntos. Pra mim amor é quando eu falto a escola e você para de falar comigo. Pra mim, amor é quando você toma o remédio mesmo sem querer, só porque eu pedi. Amor pra mim é quando você deixa de sair pra ficar em casa comigo. Pra mim, amor é quando você segura minha Mao em seus sonhos, na esperança de um dia poder o fazer de verdade. Pra mim, amor é quando você diz "sonhe comigo esta noite." Amor pra mim é quando você canta ao telefone musicas que descrevem nos dois. Ou quando você fica envergonhado por alguma coisa que eu falei. Pra mim amor é quando passamos horas conversando sobre nos dois ou qualquer coisa. Pra mim, amor é quando você liga sem nenhum motivo e desliga porque tem que ir trabalhar. Pra mim, amor é quando você diz que eu não me importo, quando você diz que eu não o amo. Amor, pra mim, é quando você aponta meus defeitos, porque mesmo sabendo deles, você continua me amando. Então, amor, o amor não é chama-lo para andar na lua, mas vamos? La as coisas acontecem mais devagar. O tempo com você seria maior. Amor também é isso, creio eu, querer o outro o tempo todo, pra sempre. Porque quem ama quer isso, quer o perto, o junto. Não quer distancia, por mais que as vezes ela seja boa. Mas acho que cansei da distancia. Acho que ta na hora de sermos nos dois. E a Lua. Por favor, rezei, olhe para a lua esta noite. Olhe para a lua e me sinta ai, porque eu te sinto aqui. Feche os olhos e ai eu estarei. Estarei com você ate a lua não mais existir, ate as estrelas perderem o brilho. Olhe a lua esta noite, amor, ela nos une. Por mais distante que estejamos, nos mantém juntos, mesmo que haja um oceano entre nos. Olhe a lua nesta noite de domingo e você verá, não há nada mais encantador do que adormecer sob a luz da lua. Ou sim. Vamos dançar sobre a lua, amor? Ou talvez depois possamos dormir sobre ela também. Esqueça aquele apartamento perto da faculdade, esqueça a cama macia e a tv a cabo. Vamos viver na lua, vamos ser um do outro e, sendo um do outro, sermos um só.